sequelas

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

2.2 Recicladora




Preenchia o tempo enfeitando a vida? Vida de enfeites? Ou vida com enfeites? Os enfeites da vida ?

Era uma recicladora por natureza. Já se tinha apercebido desta sua vocação e ou missão há muito tempo, mas o reino deste exercício tinha o perímetro variável dos objectos de todos os dias. Olhava o que estava à sua volta e entretinha-se a ver o que há nas coisas para além do que já foi visto, a ver coisas que não estavam lá, as que podiam resultar da sua intervenção sobre elas.
Um sapato que se transformava em vaso de flores, uma anilha que passava a berloque de um colar, um galho que passava a ser usado como broche, os óculos de plástico dos chineses que eram retalhados em vários pedaços e cujos furinhos eram pacientemente preenchidos com um fio de metal que ia engolindo contas atrás de contas num bordado que depois enfeitaria um casaco, uma mala, uma almofada, um abatjour, etc.
Inventar novas vidas para os objectos ou, ainda melhor, pegar em vidas passadas, costurá-las e dar-lhes uma segunda oportunidade. Tornou-se uma olhadora compulsiva, o seu olhar apropriava-se das coisas mais anódinas e estas rapidamente deixavam de ser o que eram para passarem já a ser outras e isto num ápice…a representação das coisas estava sempre em trânsito, era difícil a uma coisa ser o que era por algum tempo na sua presença. Ainda quando as coisas clamavam por mudança, ou por um prolongamento da vida, como acontecia nas feiras de velharias, das quais se tornou frequentadora assídua, sentia-se menos predadora, ou quando entrava nas lojas dos chineses que parecia terem sido criadas de propósito para alimentarem o seu olhar voraz, onde as coisas pareciam atropelar-se em oferenda ao primeiro que sobre elas lançasse um olhar. Gostava de frequentar estas lojas, era uma flânerie em registo pobre, mas uma festa do olhar. Os objectos eram humildes, não tinham quaisquer cartas de recomendação anexadas, como acontecia nas lojas de marcas, estavam disponíveis para a servir como ela entendesse. É claro que tinha secções preferidas, como a das coisas que aparentemente não servem para nada, o que a levava a passar pelas secções das coisas cujo destino há muito está marcado como vinha vindimada. As roupas, os sapatos, as malas, raramente sobressaíam do pano de fundo, o seu olhar não lhes dava carta de alforria, estavam condenadas a serem escravas de um destino que alguém lhes tinha traçado. Mas os utensílios variados, as ferramentas, os plásticos, as ventosas transparentes,,,aliás, tinha preferência pelo transparente, tudo o que fosse transparente atraía mais depressa o seu olhar, as coisas transparentes pareciam andar de mãos dadas com possibilidades infinitas.

Por muito veloz que fosse na execução da transformação das coisas, não conseguia acompanhar o ritmo a que os objectos entravam em sua casa. Amontoava-os em cima da mesa, sempre aberta no seu máximo comprimento, até ter tempo para os olhar e lhes inventar uma nova vida. Às vezes, o acaso da acumulação desenhava molduras que sugeriam novas funções para alguns objectos, aí havia que intervir rapidamente, antes que uma pequena deslocação desprevenida fizesse desaparecer a nova serventia sugerida.


O último objecto que tinha reciclado era um vibrador. Tinha-lhe proporcionado quilómetros de prazer…mas estava gasto. Apercebeu-se do seu funcionamento deficiente quando deu conta que estava constantemente a pôr-lhe pilhas novas, às quais ele reagia bem conseguindo chegar a uma elevada velocidade de rotação mas durante pouco tempo. Ultimamente, cada orgasmo exigia uma mudança de pilhas. É verdade que ela demorava tempo, às vezes muito tempo, sobretudo quando não conseguia fixar-se num homem, numa situação. Desfilavam perante si alguns dos homens que tinha conhecido e com quem tinha feito sexo mais vezes, nomeadamente Afonso e Nuno, mas também alguns outros, em particular aqueles com quem tinha estado uma única vez e que deixaram um sabor a pouco. As imagens atropelavam-se, as situações sexuais vividas e por viver misturavam-se e distraíam-na do objectivo: vir-se. E aquele vibrador cada vez ajudava menos, às vezes começava a soluçar em alturas cruciais como se estivesse cansado e ela passava-se. Resolveu substituí-lo, já não dava conta da função para que fora criado. Ainda por cima era feio, era vermelho, de borracha muito pouco flexível, estava definitivamente ultrapassado.




Numa tarde em que estava a masturbar-se, depois de ter já fumado dois charros, teve a ideia de o reciclar e já vislumbrava o resultado dessa reciclagem a enfeitar o pescoço de alguém, talvez o dela própria. Riu-se, riu-se muito. Ia cortá-lo em rodelas, umas mais finas, outras mais grossas que depois de furadas seriam enfiadas num fio prateado e hélas…tinha um colar modernaço para vender ou para ela própria usar. Não, mesmo que o vendesse, tinha de usá-lo primeiro. Queria saber se aquele novo objecto numa nova função teria ainda poder para a fazer evocar as pilas e os cus por onde tinha andado.



 




 DE     VIBRADOR     A      COLAR





                                                                          
   






 

 





                                                             

 



Algumas vezes ensaiara reflectir sobre se este seu comportamento recolector, reciclador, não estava associado a uma vontade de colecção. Não gostava de admitir isto.








terça-feira, 17 de agosto de 2010

2. E MALTE…QUEM ERA?

2.1 Coleccionadora. De ...?

Outrora tinha tido um herbário.

 



 E uma colecção de mineralogia.      

 










E agora?



Coleccionava homens? Parecia-lhe excessivo e, mesmo, inadequado.

Coleccionar não é reunir objectos semelhantes?*1 Não é tão simples, pensava ela à medida que ia ponderando o assunto, enquanto caminhava em direcção ao seu lugar de trabalho. Tem de haver no coleccionador uma pulsão da semelhança, uma força que se apropria da sua vontade, que o possui e o compele a produzir semelhanças. Não se trata apenas de identificar a semelhança, de reconhecer similitudes, nem mesmo de uma aptidão particular para ver a semelhança que não se evidencia, trata-se de produzir semelhanças, de contrair o universo, fazendo eclipsar tudo excepto uma coisa: a semelhança, e esta é fundadora, é a condição de possibilidade de uma colecção, mas é ainda mais do que isso, é ao mesmo tempo a actualização dessa possibilidade.

Colecção de moedas, de fósseis, de postais, de vidros de murano…de tudo. E de seres humanos, mesmo que o ser humano se reduza, neste exercício mental, à espécie masculina, ao macho e…deu uma gargalhada que a tornou consciente de que estava na rua e quase a chegar ao local de trabalho.

Mas uma colecção não se faz olhando à volta e arrumando os objectos em função do critério que se elegeu para essa arrumação. O princípio da semelhança está lá e em pleno exercício, anula as diferenças para impor a semelhança e, assim, um mesmo conjunto de objectos pode originar vários subconjuntos, vários grupos, que o são enquanto o critério, o conceito de ordenação subsistir, se este mudar tudo se metamorfoseia criando-se um novo grupo em função da ordem dada pelo espírito.

Coleccionar não é perseguir obstinadamente uma peça que se assemelhe à inaugural? E haverá uma coisa inaugural ou só se dará conta de que há objectivamente uma primeira peça quando já se têm outras que juntámos porque gostámos delas, porque nelas nos revimos por qualquer razão, porque nelas sentimos o apelo do semelhante? Coleccionar seria andar à caça do semelhante? Do que é semelhante entre si porque é semelhante a nós, por alguma razão ou em alguma dimensão?

1 um pequeno exercício reflexivo muito mediado pela reflexão de Maria Filomena Molder em Semear Na Neve, Relógio D’ Água Editores, Lisboa, 1999.




Chega de perguntas. Como se aplica isto aos homens? Sentia a necessidade de acrescentar: machos. Parecia emergir o tal critério criador de um grupo de objectos quando pensava na redução que fazia ao igualar homem a macho, e esse critério só tinha a ver com sexo. Tratar-se-ia então de uma colecção de objectos sexuais? Excessivo mais uma vez.

Pensou na sequência de homens com quem tinha feito sexo nos últimos meses, principalmente no período em que frequentava os chats à caça de homens, movida por um desejo de possuir que parecia insaciável.

Após um período inicial de navegação nos chats, em que se deixava ir ao sabor da corrente, raramente tomando a iniciativa de convidar os nicks para conversas privadas, em que se sentia movida pela curiosidade de recolher o máximo de sinais na escrita dos teclantes que lhe permitissem desenhar a criatura que estava do lado de lá, que lhe permitissem esboçar um perfil cognitivo e emocional que se revelasse suficiente garantia do interesse da prossecução da conversa.

Nessa altura não sentia a disposição tensa, propiciatória da acção, como sentia na fase da caça. A expectativa de encontrar homens, em cujas palavras, sentimentos, emoções, ideias, gostos…fantasias, em que se reconhecesse, sentisse afinidade, tinha sido substituída ou, pelo menos, grandemente excedida pelo desejo de os adquirir, de os consumir.

Em cerca de seis meses tinha teclado com centenas de homens e uma mulher e tinha ido para a cama com inúmeros. Não sabia qualificar esta “numerosidade” (termo cuja patente é de Henry James), se era baixa, média ou alta, talvez um dia perguntasse a alguns homens e a algumas mulheres. Aquilo em que valia a pena pensar era que esta “numerosidade” sem a Internet era completamente impossível, pelo menos para ela, atendendo ao seu trabalho, aos seus hábitos e ritmos, até aos seus amigos. Como podia ela ter conhecido tanta gente se não tivesse entrado nos chats? E acreditava que o mesmo se passaria com muitas mulheres da sua idade e condição. Nesta rede de trânsito, muitas vezes congestionado em horas de ponta, nos chats os picos de frequência eram a seguir ao almoço, onde às vezes se combinava um encontro ao fim da tarde, na hora que antecedia a saída do trabalho, ao final da tarde, para se combinar alguma coisa para a noite ou para a hora de almoço do dia seguinte e, à noite, a seguir ao jantar. Havia muita gente a teclar dos seus locais de trabalho e, não se pense, não só na função pública. As profissões liberais estavam bem representadas durante todo o dia, e os chamados “microempresários” abundavam. Mesmo nos dias em que não havia muito para fazer, profissionalmente falando, sentia um certo complexo de culpa quando o fazia. Fê-lo muito poucas vezes mas o msn, esse, naquele período, estava quase sempre aberto. De qualquer modo, já era um filtro, e este leque foi sendo dobrado, à medida que ia bloqueando quase todos os seus contactos para ficar apenas com os dois ou três que despertavam o seu interesse na altura. O msn oferecia a possibilidade de bloquear contactos, mantendo-se online sem que os bloqueados o soubessem. Isto permitia que aparecesse online só para os que lhe interessava contactar.

Raramente caçou de dia e, quando o fez, percebeu que não tinha apanhado o animal que desejava. A caça na net era uma corrida quieta, imóvel, mas não dispensava aquela inclinação de corpo, aquela disposição augural, com a cessação dos ritmos fisiológicos que perturbam o apuramento dos sentidos e permitem à alma antecipar o gesto da apropriação. Nessa altura dispara-se.


jr_bernardo diz:
o que te deixa louquinha de tesao?

Malte diz:
muitas coisas ao mesmo tempo

Malte diz:
não é só isto ou aquilo

jr_bernardo diz:
partilha comigo ok?

Malte diz:
apetece-me pouco conversar

Malte diz:
apetece-me foder

Malte diz:
percebes!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

jr_bernardo diz:
hummmm

jr_bernardo diz:
sim sem duvida

jr_bernardo diz:
que fazes amanhã?

Malte diz:
sou muito directa, não te assustes

jr_bernardo diz:
assim que eu gosto

Malte diz:
amanhã não me interessa nada o que faço

jr_bernardo diz:
pena, podiamos encontrar-nos

Malte diz:
pois, eu quero agora e já....vou à procura

jr_bernardo diz:
ok... hoje tenho cenas combinadas... vou sair daqui a pouco...

Malte diz:
claro

jr_bernardo diz:
amanhã esta fora de questão?

Malte diz:
sei que não é fácil conseguir o que quero já, mas vou tentar

Malte diz:
amanhã podemos falar, ok

jr_bernardo diz:
manda-me uma mensagem com o teu nº... combinamos durante o dia ok?

Malte diz:
não, encontramo-nos no msn e logo se vê

jr_bernardo diz:
ok....

Malte diz:
fica bem, ciao

jr_bernardo diz:
qual a tua maior loucura ate hoje?

Malte diz:
houve tantas

Malte diz:
vou fazer mais uma

Malte diz:
e não pôr-me a falar sobre isso.


Sentiu-se a caçar durante dois ou três meses. Delimitava o terreno de caça para poder haver presa, perguntando imediatamente de onde teclavam. Tudo o que excedesse os 50Km de distância, declinava, a aquisição tornava-se praticamente inviável. Se o território diminuía aumentava a oferta potencial alargando o leque das idades, a variação dos estados civis, a diversidade das eventuais profissões exercidas, e até chegava a condescender no que respeitava à correcção ortográfica. De qualquer modo não atirava a tudo o que passava na frente da sua mira. Estava atenta a alguns sinais, sobretudo aos que indiciassem um determinado estado de espírito. Esse estado de espírito não era fácil de descrever, nem havia correlação entre ele e a idade, profissão, estado civil, etc,. Tipos emotivos, com personalidades exuberantes ou tímidas, corações afectuosos, quer por defeito ou por excesso, personagens em busca de um completamento humano, porque “ se morre mais de mágoa do que de radiações”,como diria Saul Bellow*2, ou então criaturas em que advinhava uma curiosidade semelhante à sua, uma vontade de conquista imediata, e onde pressentia uma ideia subterrânea que também partilhava, a do sexo como panaceia de efeito imediato para qualquer tipo de problema com que nos deparamos, como um intermezzo nas preocupações, atraíam a sua atenção e mobilizavam-na para a acção.

Quando escrevia isto lembrava-se de um diálogo entre sobrinho e tio numa obra de Saul Bellow onde aquele dizia:

“– Sejam quais forem os problemas que se deparem às pessoas, elas procuram um remédio sexual. Quer se trate de negócios quer de um problema de carreira, de
dificuldades de carácter, de dúvidas acerca do próprio corpo, quer mesmo de metafísica, elas recorrem ao sexo como analgésico.


- Não, não, Kenneth. Uma aspirina, não. Isso torna-o demasiado trivial.

- Seja, mas nesse caso as pessoas executam o acto pelo qual o amor seria transmitido se existisse.

- Isso já é mais aceitável. “*2

2 Saul Bellow, Morrem mais de mágoa, Ed.Livros do Brasil,…..
 
Olhando para a lista dos muitos homens com quem fizera sexo, quase metade tinha sido caçada no chat do sapo, entre as 22 h e 01h da manhã. Eram os mais novos, entre os 27 anos e os 35 anos, os que tinham entrado na sua casa e na sua cama na mesma noite em que os conhecera. Era perigoso, toda a gente o dizia, os próprios que assim entravam tinham o topete de lhe chamar a atenção para isso.


Mas, seria mais perigoso do que conhecer alguém no cinema, numa discoteca ou em outro local público e levá-lo debaixo do braço para casa? Muitas vezes, sabia-se menos do parceiro que se encontrava nesses sítios do que daquele com quem se contactara nos chats. Claro que tudo o que havia sido escrito podia ser mentira, mas também o podia ser tudo o que o outro nos tinha dito.

Havia a solução do “convite para um café”. Esta era a estratégia de segurança mais recomendada por todos, incluindo alguns agentes de segurança, como polícias, que entraram em sua casa fazendo ouvidos de mercador ao seu próprio conselho. Mas isso era percorrer um trilho com armadilhas montadas que retirava toda a “novidade”, imprevisto, suspense à situação e que baixava drasticamente a adrenalina. O único risco em que pensava era o da rejeição, rejeitarem-na por ser gorda. Seria que passava pela cabeça dos homens que iam ao seu encontro a ideia de que poderiam ser rejeitados? Nunca tinha pensado no problema do lado do homem.

Ao contrário do que era voz corrente, ela considerava que se mentia pouco em relação às características físicas. Ainda não tinha webcam no período em que mais caçou e isso permitiu-lhe verificar o mal fundado dessa voz corrente. Também não ligava muito ao que eles diziam de si próprios fisicamente….eram tão novinhos…deviam estar em condições. Quanto a si própria nunca omitia o facto de ter peso a mais, às vezes ia mais longe e dizia mesmo que, em sua opinião, era gorda. E era uma estratégia com sucesso. Primeiro, eles consideravam, pensava ela, que quem era tão autocrítica devia ser muito exigente consigo própria, o que equivalia a dizer que logo ali - nessa inferência que ela calculava que eles faziam – lhe retiravam uma data de quilos. Segundo, só se referia ao seu aspecto físico, depois de ter usado outras armas de sedução e essas variavam consoante a presa que tinha sob mira.

Luís António, Miguel do Porto, o jornalista, Bruno, Ricardo1, Ricardo2, Rui, Zé Maria, Jorge, António, Manel….etc., etc.,.





À maioria dos mais novos atraía-os a sua idade que associavam a experiência, experiência sexual, mas porque ela falava de sexo com naturalidade, inteligência e humor. Percebia que havia ali alguns fetiches, vulgares, relacionados quase sempre com mamas e penetração anal. Ela entretinha-se a falar das suas mamas, não as descrevendo como um objecto mas como um ser vivo, dizia-lhes do que elas mais gostavam, como reagiam a determinados estímulos, como saltitavam quando brincavam com elas de determinada maneira, como pareciam soluçar convulsivamente quando lhes tocavam assim e assado, etc.,. Percorria-a uma sensação de volúpia quando lhes explicava a arte e engenho necessários para o sexo anal ser satisfatório para a mulher. Nem sequer tinha boas recordações das vezes em que acontecera, mas imaginava como devia ser feito e dizia-o claramente. Alguns deles nunca o tinham feito, como também não tinham experiência de outros recursos, por exemplo, o vibrador. "Passavam-se" com o vibrador, queriam saber como ela o utilizava, quando o utilizava, se quando estava com um
homem o vibrador também entrava em cena, etc. Às vezes bastava meia hora de conversa para lhe suplicarem que os deixasse ir ter com ela…e ela acedeu a essa súplica muitas vezes. Perguntavam-lhe como era ela fisicamente e ela dizia coisas do género: não tinha uma constituição elevada, era mais do tipo rente ao chão mas curvilínea, tinha uma boa relação com as forças planetárias, isto é, com a gravidade, etc., ou dizia que era a personificação da condensação combinada com maturidade feminina, etc.,.
Divertia-se a dizer estas coisas e a imaginá-los a tentar traduzir por miúdos aquelas frases. Podiam não perceber o sentido, mas apercebiam-se de que estavam a falar com alguém diferente, interessante e sensual.


O Rui tinha vinte sete anos. Encontrou-o no chat do sapo a descontrair, segundo disse, antes de se preparar para um exame que tinha daí a dias. Preparava-se para fazer uma directa, quando começou a teclar com ela. Morava na margem sul, tinha rompido com a namorada de há sete ou oito anos e quando percebeu que ela respondia sem tibieza às suas tímidas perguntas sexuais, manifestou o estado de excitação em que se encontrava e a vontade que tinha em fazer sexo com ela, já, agora, imediatamente. Eram 2h da manhã quando o Rui chegou, tinha sabido da sua existência há uma hora e meia atrás. Encontrou-se perante um menino lindo, de olhos esverdeados, cabelo castanho muito claro, com um ar infantil e um pouco amedrontado. Tentou descontraí-lo, embora ela própria estivesse surpreendida positivamente com a qualidade física da presa. Lembra-se de que ele partiu quando começava a amanhecer e que nada de memorável, do seu ponto de vista sexual, tinha acontecido. Mas perdurou uma sensação agradável, afectuosa, amistosa. Teclou mais umas vezes com ele…e depois ele desapareceu durante meses. Um dia é surpreendida com um toque no msn…era o Rui. Tinha estado ausente nos Palops, regressara há pouco e lembrava-se muito bem do seu encontro, tão bem que lhe contou pormenores que lhe fizeram lembrar a narradora de A Casa dos Budas Ditosos, do João Ubaldo Ribeiro*1, em que ela não se reconhecia.

1 João Ubaldo Ribeiro, A Casa dos Budas Ditosos, ed. Dom Quixote, s/d.
 

 
 










domingo, 6 de junho de 2010

1.3  SIMETRIA E ASSIMETRIA

O princípio da acção - reacção (3ª lei de Newton) : quando o corpo A exerce sobre o corpo B uma força, o corpo B exerce sobre o A uma força igual e contrária.As forças existentes no universo existem aos pares de forças simétricas em virtude do Princípio da Acção e Reacção.Quando um corpo realiza um movimento harmónico simples (MHS) todas as grandezas características (posição, velocidade, aceleração, força exercida sobre o corpo, energia cinética, energia potencial) são simétricas em relação à posição média do corpo.


                            ....parece um quadro de Nadir Afonso

Mas a simetria que naquele período exaltava Malte era a que ia além do catálogo das operações de simetria, era a que encontrava nos textos de física de partículas que, esforçadamente, tentava compreender. Muitas experiências mostram que quando produzimos partículas produzimos ao mesmo tempo as respectivas antipartículas, isto é, para cada partícula (matéria) há uma antipartícula (antimatéria) em tudo igual, excepto em relação à sua carga eléctrica; um protão é positivo, enquanto um antiprotão é negativo.
E a célebre questão: se a matéria e a antimatéria são iguais em tudo, excepto em relação à carga eléctrica, porque é que há "mais" matéria no universo do que antimatéria? porque é que a matéria ganhou à antimatéria? Existe universo porque a matéria "ganhou" à antimatéria...
Para responder a esta questão, ou melhor, para começar a responder parece que se tem de compreender a violação de simetria (CP), chave para a compreensão da assimetria matéria-antimatéria da qual parece depender a existência do universo.


                                                                         simetria CP *  
*A simetria CP corresponde à combinação da simetria Paridade com a simetria conjugação de carga. A simetria Paridade está ligada à operação que faz corresponder a um qualquer acontecimento, a imagem deste quando reflectida num espelho; a conjugação de carga faz corresponder a cada partícula a sua anti-partícula.
Vale a pena chamar a atenção para o trabalho de alguns físicos portugueses, como Gustavo Castelo-Branco do Centro de Física Teórica de Partículas do Instituto Superior Técnico, reconhecido internacionalmente, e neste caso para a obra Violação de CP, da autoria de Gustavo Castelo-Branco, Luís Lavoura e João Paulo Silva, publicado em 1999 na Oxford University Press.

Cada vez mais submersa neste "problema muito enorme" Malte sentia-se enfeitiçada enquanto por aqui vagueava e deliciava-a a ideia de pensar a relação com Afonso usando as "categorias" com que lidava a física de partículas.

No dia seguinte a terem feito sexo/amor(?), Malte mandou um mail a Afonso.

olá, bom dia
Depois de uma tarde como a de ontem, não podia fazer nada senão aninhar-me e alimentar-me da memória das carícias, da ternura, do modo como os nossos olhares se encontraram, do modo como os nossos corpos se detiveram um no outro e se foram descobrindo...
Não podia deixar que nada alterasse o embevecimento, o encantamento em que estava recolhida…
Não falei, não ouvi nada, não queria outros estímulos, bastavam-me os que tinha incorporado
....e adormeci...em estado de graça
Vi o teu sms hoje e senti que o estado de graça continuava
Abri o msn, ainda em casa, estremeci quando mudaste de estado...interrogo-me sobre se a tua alma também está offline...se assim for, diz-me para eu descer à terra...

Malte

E outro, ainda:

Nesta forma sentimental de conhecimento em que me encontro
Neste desnorte do logos em relação ao coração
O mundo na sua inteireza concentra-se neste quase
Um quase de tensão entre o que me excede de forma obscura
E um desejo de claridade que o logos sente por tudo aquilo que o excede

O dia a dia prende-nos inexoravelmente à superfície,
Tornando risível e caricato o transcendente
O dia a dia mecaniza histericamente os actos e os gestos
Transforma tudo em pasto indiferente dos seus movimentos
Nesta espécie de sonambulismo em que me encontro e que é próprio do ser que foi arrancado ao sonho e atirado à terra, envio-te um beijo.

Malte

Chegou o fim de semana e…nada, Afonso não respondia aos seus mails.

Por muitas voltas que desse ao que andava a estudar em física não encontrava aí nada que a ajudasse a pensar no que se estava a passar entre ela e Afonso. A sua situação sentimental não parecia enquadrável na moldura categorial da física quântica. É claro que tinha encontrado termos e expressões como, por exemplo, paridade, violação de simetria, decaimento , etc., que ajudam por vezes a que o pensamento prossiga em territórios que nada têm a ver com os que estão na origem desses termos...mas não queria cair na "impostura intelectual". Lembrava-se da controvérsia acerca da apropriação de termos das ciências físico-matemáticas pelas ciências sociais e da crítica feroz de Alan Sokal a Lacan, Julia Kristeva, Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Paul Virilio, etc., pelo uso abusivo de terminologia científica, muitas vezes, sem a compreensão do conceito científico que estavam a usar. Reconhecia a justeza das críticas de Sokal, a "evidência" de algumas das provas aduzidas no seu livro Imposturas Intelectuais* e...ainda assim confessava que alguns textos dos autores criticados, em geral, textos bastante delirantes rsrsrs...alucinatórios....rsrsrs...a tinham feito pensar muito e isso é um BEM enorme! De toda essa problemática epistemológica retinha a distinção pertinente entre "contexto da descoberta", onde tudo é permitido, e "contexto da justificação", onde o campo disciplinar impõe as suas regras. De qualquer forma nunca limitaria o trânsito entre disciplinas nem lhe parecia sábio confinar o tráfico dos termos a um uso metafórico. Seria sempre a favor de uma boa reciclagem!

*Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont, trad. de Nuno Crato e Carlos Veloso, Ed.Gradiva, Lisboa, 1999.


 Na semana seguinte, recebeu uns pps de Afonso e sobre um em particular - “Lisboa antiga”- escreveu-lhe:


            




                           
Só agora vi "lisboa antiga". Um olhar em passo de corrida que me fez estremecer, soube-me a pó, ao pó que salta dos livros em que não se mexe há muito tempo, cheirou-me a bafio, ao bafio das salas de portas trancadas há séculos...houve uma reminiscência das almas pardas e cinzentas que encontrei quando vim para Lisboa, antes do 25 de Abril.... Mas mais singular ainda, é a sensação de proximidade, nada daquilo me é tão estranho quanto gostaria, há sombras que se perpetuam, há esquinas que se mantêm, há vestígios de pequenez que reconhecemos no dia a dia, há um sopro de desânimo que continuo a encontrar na rua, há esgares na arquitectura que vejo todos os dias...há sobretudo ausência de sinais de humanidade...que continuo a sentir...
Mas...revisitar lisboa foi também espreitar em alguns cantos obscuros e esconsos da minha alma...

Malte

Afonso enviou-lhe uma prosa poetizada com o título “Viver”, sobre tudo e nada, cuja motivação não descortinou e que, pela data em que tinha sido escrito – cinco anos antes de a conhecer, só podia ter na sua origem a ausência de vontade de escrever, de comunicar com ela.


Também a ela já não lhe apetecia escrever, recorreu a um dos seus companheiros mais frequentes nesses dias, o livro de Álvaro Magalhães, O brincador , com ilustrações de José de Guimarães ( Edições Asa, Porto, 2005 ).

É por haver poesia
Que os dias são dias.
Isso eu sei.
E tu, sabias?

Malte                                                                      


Dois dias depois, Afonso escrevia:

Antes de haver gente, a poesia só podia ser feita pelo grande geómetra ou pelo compulsivo jogador de dados. Mas já haviam dias. E estes tanto podem durar uma eternidade como um instante. Por isso é que há eternidades que são meros instantes e instantes que perduram. Vivemos todos na grande ilusão de fisgar o destino matemático e de realizar o paradigmático.
Beijos para a menina querida

Afonso

Ainda nesse dia, misturou Kant com mais uns versos recolhidos em O Brincador, e escreveu a Afonso:

Como não temos acesso "às coisas em si mesmas", tudo o que podemos ter não passa de uma representação, não entramos no mundo, o mundo entra dentro de nós pelas janelas dos sentidos e pela janela da alma e é a partir desse momento que as coisas existem - para nós. Da sua existência fora de nós, não sabemos nada...
Os dias começaram com o homem a atribuir o nome a um "pedaço de tempo", o acto de "nomear" faz existir a coisa nomeada.

A magia da poesia faz-se de palavras descomprometidas, *
e não de palavras que têm as suas vidas e ocupações,
faz-se de palavras jovens, desconhecidas, que não têm nada que fazer...
São palavras distraídas
que não querem aprender
o que querem dizer.

Malte
*Uma brincadeira com alguns versos do poema "Para que serve a poesia" de Álvaro Magalhães em O Brincador, já citado.

No próprio dia obteve resposta de Afonso:

“Li-te, leio-te, invadi-me e invado-me do que me dizes, do que mostras, do que sabes. Tens a medida certa das acções que praticas enquanto personagem admiradora e ajuizadora do que te rodeia, dos teus próprios limites. Se alguém há muito sobre isso se debruçou e reflectiu não é menos verdade que também tu sabes bem a lição. A velha dificuldade de saber o que é a verdade tem, em ti, campo pouco fértil para viver.
És tão clarividente que até trazes na sacola a poesia, qual insecticida, para matar os limites da realidade que nos aprisiona e faz.
Este meu dum-dum, já está na despensa há muito. Foi feito para atordoar ou, sei lá, para libertar. O quê? Nem sei.”
Afonso
Seguiu-se o envio de vários pps que nem sequer lhe apeteceu comentar, anotar…alguma coisa se tinha modificado…decaído? Decaimento alfa? Decaimento beta? Fissão espontânea? Sentia-se tentada novamente a submergir na física nuclear, mas não...era melhor partir sem mais delongas para o departamento do "esfriamento com medos de esquentamentos" …ahahah. Entretanto teclaram, sem chama, sem brilho, sem glória, e Afonso confessou-lhe a sua instabilidade emocional que, afinal, tinha outro nome: “medo da sida”, um medo que nele se tinha instalado e que não conseguia ultrapassar, devorava-o, dizia-lhe ele, e queria acabar aquela relação.

Tinham feito sexo sem preservativo, nas vezes – poucas – em que se encontraram. Na primeira vez, ela chamara-lhe a atenção para o risco, embora sem grande convicção, a verdade seja dita. Na segunda vez que fizeram sexo falaram ao de leve nos respectivos passados recentes sexuais e aparentemente tranquilizaram-se, mas afinal a dúvida fizera o seu caminho e Afonso despedia-a da sua vida. Não tinha a certeza de que aquele fosse o motivo real do despedimento.

Tinha sido despedida? Mas que raio de coisa, sem mais aquelas….

Abateu-se sobre ela um tempo pesado, maciço, sufocante, sentia-se apertada dentro de si própria. Lembrou-se daquela passagem de Rilke nos Cadernos do seu homónimo masculino: “Porque agora sabia eu que lá fora tudo continuava com a mesma indiferença, que também lá fora nada mais havia senão a minha solidão. A solidão que eu fizera desabar sobre mim e com cuja grandeza o meu coração não estava em proporção. Lembrava-me de pessoas que eu tinha abandonado outrora, e não compreendia como é que se podiam abandonar pessoas.”*
*Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, ed. Oiro do Dia, Porto, 1983, p.151.

Podia ela falar de solidão quando bastava abrir o msn para virem ao seu encontro meia dúzia de propostas de encontros que varreriam a solidão num ápice? Sim, podia falar de solidão, não por causa de Afonso a ter abandonado, mas porque, ao contrário do seu homónimo masculino, não se lembrava de alguma vez ter abandonado alguém. Parecia-lhe que desde muito cedo tinha sabido, daquele modo sentimental de saber, que “…com a união de dois seres nada mais se pode obter do que um acréscimo de solidão”(mais uma vez, uma frase de Rilke nos Cadernos, p.207)

Desde que se lembrava de si, ela amava o amor, tinha sido sempre amante e não sabia sequer se alguma vez tinha sido amada, por isso continuava a transportar dentro dela todos os seus amores e, quando se unia a alguém, sentia-se a responder à exigência de amar, era o amor a exercer-se na escuridão dos amplexos e nesse exercício estavam presentes todas as uniões passadas, mesmo aquelas em que o objecto do seu amor já tinha morrido. Surpreendeu-se com este pensamento: a única coisa do/no mundo que não é susceptível de metamorfose – a morte – afinal pode ser metamorfoseada porque o amor ressuscita. Poderia isto ajudá-la a compreender por que caçava homens na net? A sua “colecção” aumentava a um ritmo assustador e nem o caso com Afonso a tinha interrompido.

domingo, 23 de maio de 2010

1.2  O ACELERADOR DE PARTÍCULAS





               no túnel do Large Hadron Colider LHC/CERN


 As suas conversas no msn tinham continuidade nos textos que mandavam um ao outro no gmail. “Voz poética” – outro nick de Afonso, assim como “homem de voos” – enviara-lhe um conjunto de 3 pps; um construído por ele “Viver é bom”, uma recolha de imagens, para as quais escrevera um texto e juntara umas musiquinhas, outro com música de Βαγγέληςe=Vangelis (Ευάγγελος Οδυσσέας Παπαθανασίου - ele sabia estas coisas...a Wikipédia ajuda muito!),ainda outro, muito bonito, sobre Vincent van Gogh – composição e performance de Don Mclean, homenagem deste músico a Starry Night de Vincent, ou melhor, a toda a obra de van Gogh . Não havia grande coisa a dizer nem sobre as imagens seleccionadas por Afonso nem sobre o seu texto. Mas ele tinha-se dado ao trabalho de construir aquele pps, embora não soubesse se o construíra para ela, não tinha data, mas naquela altura não pensou muito nisso. O que importava é que ele parecia querer deslumbrá-la e ela precisava disso.

Uma imagem que Afonso punha frequentemente na janelinha de apresentação no msn era a fotografia de uma estrelícia, flor também conhecida como ave do paraíso.




Escreveu-lhe:

olá ave do paraíso


obrigada por estes minutos que me reconciliaram com o mundo, que permitiram que a beleza levantasse voo e animaram a minha existência. Por algum tempo consegui umas tréguas e senti "viver é bom". Preciso de prolongar estas tréguas, não posso brigar tanto com a vida e ela também não pode embirrar tanto comigo.
Obrigada pela quietude e silêncio, pois a música emudeceu de espanto com o Vincent, que já conhecia mas que foi bom unir ao Vangelis e esta união ainda não tinha experimentado.
Preserva, a todo o custo, as tuas asas e eu prometo velar para que o sol não as derreta como fez a Ícaro.
beijos
Malte

Entretanto ia sendo inundada de poemas, alguns aliados a imagens, outros não. Afonso ia-se dando a conhecer, umas vezes celebrando a vida, considerando-a uma festa, outras vezes confinando essa festa a intervalos, pequenos e raros no seio dos automatismos que atiram o essencial para a berma.

Ela escreveu-lhe:

Fiz uma pausa no meu trabalho e fui ver e ouvir o teu ser, ou o que dele sou capaz de receber e senti-me uma gota a querer guardar o oceano. Fiquei inundada, como seria de esperar, não pela chuva torrencial que cai lá fora mas pela torrente de palavras e imagens que empurram a alma que primeiro vai saltitando, e depois se deixa afogar docemente, suavemente, suspendendo a respiração e confundindo-se com a própria água.
Não sei como se faz um pps....um dia ensina-me...
Beijo
Malte


Num dos mails que Afonso lhe enviara, revelava a sua formação em ciências aplicadas – engenharia e acrescentava ter “alguma escola de vida”, bem como dava a informação relevante: era casado…mas…, não se assumia como mal casado, como outros tinham afirmado. Seguia-se um longo texto de reflexão sobre o que fazer para a alma não soçobrar nas espiras da vidinha boazinha, sossegada e calculada. Mas o que a surpreendeu foi a recomendação, no fim do texto, sobre o que ler, ver, ouvir e pensar para…saber mais…não tanto pelo conteúdo das recomendações como pelo facto de estarem distribuídas por categorias. Iam desde a leitura de obras como A Melodia Secreta, Trinh Xuan Thuan. Ed. Bizâncio, 2002, à Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson. Quetzal Ed., 2004, passando pela obra de Stephen Hawking, O Universo Numa Casca de Noz, Gradiva, 2002, etc.,. Recomendava a visão dos documentários do canal Odisseia , bem como da forma das coisas, dos sons, dos cheiros, da subtileza dos instantes, e ainda obras primas do génio humano como a Basílica de S. Pedro em Roma ou o Grand Palace em Bangkok, etc.,. Na categoria do “ouvir” aparecia em primeiro lugar “o nosso chamamento interior, as inquietações” e a música adequada a cada estado de espírito, ao vivo e num bom sistema de som, pois ela é “a matéria no seu melhor (a nossa espécie) a exibir a sua intimidade para gáudio de si própria”. Seguia-se “ pensar e reflectir … e intuir que por trás da nossa relação factual com o mundo, através dos 5 sentidos, há uma realidade bem mais complexa com ordem e objectivo, só facultada aos poucos à nossa inteligência. É dentro dela que brota o pasmo que é a vida nas suas actuais 30 milhões de espécies.” Finalmente “agir com base nos grandes valores e para não descurar a relatividade das coisas vestir-se de poema sempre que possível. Brincar aos teatrinhos, ordenar estados de espírito escrevendo, rir-se de si e dos outros, ter humor e dar sempre um grande desconto a todas as militarizações que nos queiram impor venham elas donde vierem”. Terminava com o local e data: Lisboa, 30 de Abril de 2005 “

Ali estava a data, sem apelo nem agravo, fora feito anos antes dela ter surgido. Bom, o que podia dali recolher para o puzzle chamado Afonso?

Poucas horas depois Afonso enviava-lhe dois poemas, um intitulado “nim”, com um posfácio que servia de prefácio ao poema seguinte “eu quero”:


“Malte
mandei-te o nim para desconstruir o que é normalmente aceitável, para te dizer que sou feito de múltiplos desejos e vontades.
Agora, que o amor nos une no fogo, vem a propósito mandar-te este escrito, também da minha autoria.


EU QUERO ...
Beijo.”

E Malte respondia-lhe:

Meu sonho de amor
Encantei-me com a realidade desconstruída no teu "nim",
com a chuva de chá de jasmim, com a lua mandada às urtigas,
com os ralis feitos com as ideias das formigas.
Alucinei com "eu quero..."
que tem a força da própria alucinação, como um sonho onde nada é inventado, como um espaço onde não há limites, como um tempo sem tempo.
Fiquei embriagada na "sofreguidão"de um "rio louco", iluminada por um "desejo cego" e cega por um "sol alucinante".
Absorvi o teu poema assim e observei-me...senti-me "rebelde e exaltante" no meu/teu corpo escaldante.
o universo num beijo
Malte

Afonso respondia:

“Meu amor de sonho,
adorei a tua sms desta manhã. Vim aqui agora ver se já tinhas visto os mails que te mandei ontem e se me tinhas escrito algo.
E aproveito para te dizer que não és só tu que vives aninhada no meu ser. Também eu vivo contigo dentro de mim, cada instante, todos os instantes. Ando com uma fixação mental. És o meu éden, a minha felicidade. Quero-te, meu amor de todas as magias e fantasias e felicidades.
Um beijo cheio de exaltação.”

E mais um longo, muito longo poema, cujo primeiro verso era “não sei se um poema se faz assim”, ao qual se sucedia “mais um beijo muito apaixonado para ti”.

Ao “amor de sonho” de Afonso, Malte insistia em responder ao “sonho de amor”.

olá sonho de amor
depois de um dia muito atribulado, em particular no fim da tarde, consegui finalmente ler, ver, cheirar, tocar a tua escrita.
Impressiona-me a tua escrita, os poemas que surgem da vontade de ser, do anseio de viver...tu não sabes "se um poema se faz assim", nem precisas de saber...tu és um poema, meu amor.


Tu escreves


Eu espero


Tu entras


Eu estou


Tu crias


Eu escuto


Entrei num mundo novo pela tua mão, a mão que escreve e quase te oiço
Renasço no horizonte que rasgas e me dás
Revejo-me concentradamente enquanto me constróis
Sinto-me uma forma de vertigem declinada
Era pobre antes de ti
Tu danças dentro de mim
Eu rodopio sobre ti


meu sonho de amor
Malte

E Afonso respondia :

“Adorei o teu mail. Se te pareço muito importante curvo-me por isso. Quero ser um farol no teu horizonte. Mas tu és o meu mar, o caminho que me leva ao meu continente ilimitado, fisico e espiritual. Agora não sou capaz de ser assim, não sei onde nem como fui capaz de ser tão grande. Tu és a minha esperança, o meu sonho. Adorava que me desses o poder de me viver em tudo com galáctica felicidade.
Um beijo muito cheio de amor.”

E, quase sem interrupção, lá chegava mais um mail de Afonso :

“a fotografia deve ser feita no instante em que ocorre o acontecimento. Acabei de te ler. E, sem querer, deixei de respirar. Enchi-me com a forma como me escreves, com a tua análise e sensibilidade finas. És uma raridade.
Agora, que já te vi no msn, tudo passou a ter outro encanto, outra força.
Falamos lá. Vamos ser a festa maior... do amor genial.
Amanha mando-te outro escrito meu , lá do trabalho,
beijocas doces.”

Malte, desta vez, não se pôs a versejar, escreveu ao “homem de voos” (um dos nicks de Afonso):

Só me apetece comunicar contigo...assim, em vez de "trabalhar" naquilo que a realidade ordena, deixo-me guiar pelo desejo de escrever ao homem com asas. Vou fazê-lo num discurso que me é mais familiar, mais prosaico, não menos intenso em sentimentos, mas mais contido no que respeita a figuras poéticas.
Parto de um conjunto de sinais, de indicadores que a tua escrita presentifica quase visualmente, e embora convoque uma gama de significações, não podia, nem devia, perfilar esse conjunto como um todo conceptualmente determinado, mas antes como a antecipação de um "domínio" de descoberta. E é aí que tenho estado, é aí que tenho fruído intensamente e intensivamente a tua existência, aquilo que dela tenho percepcionado, intuído, na constelação móvel dos estados de alma que assomam e, muitas vezes, gritam na tua escrita. A tua escrita é uma excitação de signos, que se perfila contra o adquirido, que se rebela contra o já visto, que faz ralis com as ideias das formigas.
Esses sinais/signos/palavras desafiam-me a "descobrir" o ser que se desvela e se oculta nas analogias, nas colateralidades, nas ramificações, nas arquitecturas impossíveis. A minha ocupação, ao longo destes dias tem sido a experimentação mental com o concurso dos sentidos: saborear as palavras, cheirá-las, perseguir o seu rasto no meu corpo, observar as marcas que deixam na alma, vislumbrar os contornos de um ser cuja materialização ainda escapa ao meu olhar.
Por isso sinto que é tão importante, tão urgente, olhar o teu olhar, não só para ver o que ele reflecte de ti, mas também para ver o que ele olha em mim, onde se detém, o que perscruta, o que escrutina.
Que representação do futuro nos vai trazer o presente do nosso encontro?
Incerteza e risco, mas isso é viver e só assim a vida vale a pena ser vivida.
Malte

Afonso respondia-lhe de imediato:

“Para te responder precisava de tempo e alguma paz interior. Como tenho a pressão do trabalho a coagir-me, só devo dizer que me impressionaste muito com este teu texto. Ele espelha uma pessoa sofisticada, que sabe interpretar bem as pequenas manifestações dos segredos da alma, que conhece as interrogações e os receios que os "confrontos" geram. E, acima de tudo, escreves muito bem, expressas com perfeição cirúrgica o que pensas.
Estou fascinado contigo.
Um beijo.”


De Malte para “voz poética”(ela gostava de usar os dois nicks de Afonso):

Não consigo trabalhar…Confirmando o que ontem te disse, só me apetece estar em contacto contigo. Então...escrevo....
A desmedida é o traço da minha existência actual, já nem recolho as cinzas do dia porque não me lembro de o ter vivido.
Estou suspensa, nada há na terra e nos céus que me prenda à vida a não ser a ideia de ti, ideia que se cola a cada coisa que vejo, a cada palavra que ouço, a cada gesto que faço ... transporto-te em mim para todo o lado.
Receio quinta feira, confesso. Não confio em mim, não estou segura da figura que os teus olhos vão engendrar de mim, receio abster-me de me verter naquilo que me prolonga e às vezes me engrandece, receio, no fundo, não ser tocada pela aura que te permita erguer os olhos para mim...
Hesito em abandonar-me aos factos que vão ocorrer e deixar que eles falem com a sua língua muda... mas rezo para que as vagas da emoção se elevem e nos inundem, arrastando-nos ao entusiasmo, à vertigem, à loucura...------------------------------- to be continued…
vou sair agora
beijos, até logo.

Quando chegava, de manhã, ao trabalho sentia urgência em comunicar com Afonso.

Olá sonho de amor

Encontramo-nos sempre depois, mas falamos tudo como se fosse pela primeira vez.
Embrenhemo-nos naquele espaço intermediário entre as palavras, entre os sons,
Libertemos a expectativa muda,
procuremos o que se demora entre os momentos...efémeros.
acabei de chegar ao trabalho ...não resisti a enviar-te umas palavras para que mores e te demores um bocadinho em mim.
Malte


De “voz poética” para Malte, em 27 de Março:

Olá Malte querida
EU…”

E seguia-se mais um longo poema, que parecia anunciar a festa que seria o seu encontro pessoal, marcado para 30 de Março, quinta feira. Despedia-se com “beijos para o meu amor” e revelava finalmente o seu nome completo verdadeiro, afirmando: “Este sou eu, a “voz poética” e “homem de voos”, com nome de gente.”

Sabedora do nome autêntico de Afonso, Malte entretinha-se:

Soletro o teu nome vagarosamente, demoradamente
tento apreender o tipo de propagação acústica de cada sílaba
mastigo , cheiro e saboreio o som
e escuto a minha alma
sinto-a tornar-se matéria vibrátil de sons alheios
recolho os despojos dessa experiência
e a alma alegra-se
reencontra o rasto escondido daquele que ama
Os acasos da sorte são momentos privilegiados de encontro...
beijooooosssssss
Malte


30 de Março, Quinta-feira, encontro – sexo, muito sexo


Tinham decorrido 9 dias, pouco mais do que uma semana, desde que tinham sabido da existência um do outro, nunca se tinham visto pessoalmente, ela tinha visto de relance uma fotografia que Afonso pusera uma única vez na janela de apresentação e ele tinha-a visto na cam, tinha visto o rosto dela, nada mais.

Se todos estes contactos não se tivessem passado na net, esta troca de correspondência, não só pela sua abundância como pelo elevado número de vibrações de intensidade vital que transportava, parecia reclamar um longo período de conhecimento e reconhecimento de dois seres, que se tinham encontrado pessoalmente, por acaso ou não, que tinham simpatizado um com o outro, que se tinham encaminhado um para o outro, que se tinham enamorado, deslumbrado e desejado. E este processo costuma levar o seu tempo no tempo real da vida de todos os dias.

Ainda nos dias de hoje uma carta para chegar ao destinatário leva normalmente dois dias através dos CTT, dois dias para cá e dois dias para lá e aquela correspondência epistolar ficaria reduzida a um terço ou um quarto. Há o telefone, mas há estados de alma cuja intensidade não cabe na linha estreita do telefone, nem se deixam reduzir na exiguidade de uma mensagem de sms. Naquele espaço – tempo que a net permitiu que os dois inventassem e onde submergiram durante pouco mais do que uma semana, suspendendo o mundo real, empírico, as suas emoções, sentimentos, desejos foram sujeitos a uma aceleração como se estivessem dentro do acelerador de partículas – LHC - do CERN. O LHC permitirá a colisão dos protões a uma energia de 14 TeV, estando também planeada a colisão de núcleos de chumbo a uma energia de 1150 TeV. Pensa-se que esta quantidade de energia corresponde à energia de criação do Universo 10-12 s após o Big-Bang.
Esta comparação fê-la lembrar que Info.cern.ch foi o endereço do primeiro site e servidor Web, que foi albergado por um computador NeXT du CERN. Assim, a Web, concebida no início para ajudar os físicos a responder às espinhosas questões sobre o universo, é hoje utilizada para fins múltiplos no universo inteiro e já faz parte da nossa vida quotidiana.

Nesse acelerador de partículas que é a net aquele maravilhamento mútuo desembestou e atingiu a energia da paixão que talvez se possa igualar à energia da criação do universo. Quem sabe? Um dia ainda se vai poder medir a energia da paixão.



quarta-feira, 19 de maio de 2010





SEXCONTAS - QUEM ERA AFONSO, O "IMPULSO CONTROLADO"?


1.1   A DANÇA DAS LETRAS E O RALI DAS FORMIGAS




    
                                                    
           


Começara a teclar com Afonso em 21 de Março. Quem era Afonso?



Quando teclara a primeira vez com Afonso ficara surpreendida com a forma como ele lidava com as palavras, parecia que pegava nelas ao acaso, dava-lhes um piparote e elas vinham cair no seu écran, alinhadas em frases divertidas, cheias de humor. A alegria que jorrava da sua escrita advinha de uma espontaneidade que não parecia precisar do entendimento para nada, a sua escrita era uma dança de palavras que ora saltitavam, ora rebolavam, ora executavam mortais de cortar a respiração. Ele não se preocupava com a inteligibilidade do discurso, as palavras eram figuras que ele ora prendia, ora soltava, imprimindo-lhes ritmos tão variados e desencontrados que elas se comportavam como marionetas. Ele puxava os cordelinhos de propósito para as levantar de sopetão, fazendo com que elas às vezes caíssem umas em cim das outras sem lei nem roque, outras vezes deixava-as arrastar-se sem dó nem piedade. Sentia-se presa ao écran a tentar advinhar o movimento seguinte, não para entender o que quer que fosse, depressa tinha desistido de fazer funcionar a razão, mas para assistir ao espectáculo que se desenrolava na sua frente. Como seria a criatura que, do outro lado do écran, se divertia com as palavras? Que esperaria ele de si ? Que chamasse a atenção para o nonsense do discurso?

Em determinada altura pensara se aquela dança, onde não se vislumbrava a mínima ordem nem permitia antecipar o passo seguinte, não mascarava uma obscuridade não pretendida, mas fruto de alguma falta de engenho e arte na perseguição de um sentido. Afinal ele estava a escrever para ela ou para seu comprazimento pessoal?

“Cativa-me, disse a raposa”. Era isso que estava a contecer, ela estava a ser envolta por laços que a prendiam ao écran, estaria a ser laçada?
No universo dos chats, todos eram parecidos uns com os outros e ela, como a raposa do Saint-Exupéry, aborrecia-se um pouco, mas este nick estava a cativá-la, arrastava-a na sua embriaguez verbal. E, de facto, ao longo dos meses, os passos da sua escrita eram diferentes de todos os outros, reconhecia-os imediatamente e precisava deles para querer sair da toca como a raposa.


Para desconcerto, desconcerto e meio, foi assim que ela reagiu. Arrastada para o meio do baile, também ela se pôs a dançar com as palavras, num ritmo cada vez mais estonteante, elas rodopiavam a uma velocidade de que só as formas, soltas de conteúdo, são capazes. O sentido tinha hibernado ou tinha-se volatilizado, só havia espaço e tempo para as formas. O acme deu-se quando Afonso escreveu : “…fazer ralis com ideias de formigas.” Não lhe ocorreu nada que pudesse ultrapassar o nonsense desta frase.



...aí vão as formigas...começou o rali!!!
                                     
Nesses primeiros tempos, sempre que teclava com Afonso sentia-se a versejar, não se conhecia como poeta, mas sentia-se poeta…que a perdoassem os poetas. Ao longo da sua vida nunca ensaiara a mais pequena tentativa de escrever poesia, julgava-se fadada para a prosa e a esta tinha servido sempre com propriedade, elegância e até alguma criatividade, assim pensava. Procurava a inteligibilidade, mas não se considerava na escrita uma contempladora das palavras, nem sempre vazava o sentido nas formas habituais de dizer, de exprimir uma ideia. Sempre lhe dera gozo converter as palavras em objecto de inquérito, andar à procura da palavra ou de um modo de dizer o que se quer dizer num equilíbrio tenso entre a propriedade e a transgressão.

dois O entrelaçados


um M entornado
um J de rabo alçado


                                   

                                                                                                                                            A primeira grande conversa com o Afonso, no msn, tinha-a exaltado, sentia-se febrilmente lúcida, não sabia se por mérito dele ou se pela ultrapassagem de si própria na vertigem de uma escrita que nunca ousara, porque nunca ousara mandar o sentido às urtigas como tinha feito nessa noite.


Quem era Afonso? Ficara sem saber nada da vida pessoal deste, nem ele ficara a saber alguma coisa da sua.