2.2 Recicladora
Preenchia o tempo enfeitando a vida? Vida de enfeites? Ou vida com enfeites? Os enfeites da vida ?
Era uma recicladora por natureza. Já se tinha apercebido desta sua vocação e ou missão há muito tempo, mas o reino deste exercício tinha o perímetro variável dos objectos de todos os dias. Olhava o que estava à sua volta e entretinha-se a ver o que há nas coisas para além do que já foi visto, a ver coisas que não estavam lá, as que podiam resultar da sua intervenção sobre elas.
Um sapato que se transformava em vaso de flores, uma anilha que passava a berloque de um colar, um galho que passava a ser usado como broche, os óculos de plástico dos chineses que eram retalhados em vários pedaços e cujos furinhos eram pacientemente preenchidos com um fio de metal que ia engolindo contas atrás de contas num bordado que depois enfeitaria um casaco, uma mala, uma almofada, um abatjour, etc.
Inventar novas vidas para os objectos ou, ainda melhor, pegar em vidas passadas, costurá-las e dar-lhes uma segunda oportunidade. Tornou-se uma olhadora compulsiva, o seu olhar apropriava-se das coisas mais anódinas e estas rapidamente deixavam de ser o que eram para passarem já a ser outras e isto num ápice…a representação das coisas estava sempre em trânsito, era difícil a uma coisa ser o que era por algum tempo na sua presença. Ainda quando as coisas clamavam por mudança, ou por um prolongamento da vida, como acontecia nas feiras de velharias, das quais se tornou frequentadora assídua, sentia-se menos predadora, ou quando entrava nas lojas dos chineses que parecia terem sido criadas de propósito para alimentarem o seu olhar voraz, onde as coisas pareciam atropelar-se em oferenda ao primeiro que sobre elas lançasse um olhar. Gostava de frequentar estas lojas, era uma flânerie em registo pobre, mas uma festa do olhar. Os objectos eram humildes, não tinham quaisquer cartas de recomendação anexadas, como acontecia nas lojas de marcas, estavam disponíveis para a servir como ela entendesse. É claro que tinha secções preferidas, como a das coisas que aparentemente não servem para nada, o que a levava a passar pelas secções das coisas cujo destino há muito está marcado como vinha vindimada. As roupas, os sapatos, as malas, raramente sobressaíam do pano de fundo, o seu olhar não lhes dava carta de alforria, estavam condenadas a serem escravas de um destino que alguém lhes tinha traçado. Mas os utensílios variados, as ferramentas, os plásticos, as ventosas transparentes,,,aliás, tinha preferência pelo transparente, tudo o que fosse transparente atraía mais depressa o seu olhar, as coisas transparentes pareciam andar de mãos dadas com possibilidades infinitas.
Um sapato que se transformava em vaso de flores, uma anilha que passava a berloque de um colar, um galho que passava a ser usado como broche, os óculos de plástico dos chineses que eram retalhados em vários pedaços e cujos furinhos eram pacientemente preenchidos com um fio de metal que ia engolindo contas atrás de contas num bordado que depois enfeitaria um casaco, uma mala, uma almofada, um abatjour, etc.
Inventar novas vidas para os objectos ou, ainda melhor, pegar em vidas passadas, costurá-las e dar-lhes uma segunda oportunidade. Tornou-se uma olhadora compulsiva, o seu olhar apropriava-se das coisas mais anódinas e estas rapidamente deixavam de ser o que eram para passarem já a ser outras e isto num ápice…a representação das coisas estava sempre em trânsito, era difícil a uma coisa ser o que era por algum tempo na sua presença. Ainda quando as coisas clamavam por mudança, ou por um prolongamento da vida, como acontecia nas feiras de velharias, das quais se tornou frequentadora assídua, sentia-se menos predadora, ou quando entrava nas lojas dos chineses que parecia terem sido criadas de propósito para alimentarem o seu olhar voraz, onde as coisas pareciam atropelar-se em oferenda ao primeiro que sobre elas lançasse um olhar. Gostava de frequentar estas lojas, era uma flânerie em registo pobre, mas uma festa do olhar. Os objectos eram humildes, não tinham quaisquer cartas de recomendação anexadas, como acontecia nas lojas de marcas, estavam disponíveis para a servir como ela entendesse. É claro que tinha secções preferidas, como a das coisas que aparentemente não servem para nada, o que a levava a passar pelas secções das coisas cujo destino há muito está marcado como vinha vindimada. As roupas, os sapatos, as malas, raramente sobressaíam do pano de fundo, o seu olhar não lhes dava carta de alforria, estavam condenadas a serem escravas de um destino que alguém lhes tinha traçado. Mas os utensílios variados, as ferramentas, os plásticos, as ventosas transparentes,,,aliás, tinha preferência pelo transparente, tudo o que fosse transparente atraía mais depressa o seu olhar, as coisas transparentes pareciam andar de mãos dadas com possibilidades infinitas.
Por muito veloz que fosse na execução da transformação das coisas, não conseguia acompanhar o ritmo a que os objectos entravam em sua casa. Amontoava-os em cima da mesa, sempre aberta no seu máximo comprimento, até ter tempo para os olhar e lhes inventar uma nova vida. Às vezes, o acaso da acumulação desenhava molduras que sugeriam novas funções para alguns objectos, aí havia que intervir rapidamente, antes que uma pequena deslocação desprevenida fizesse desaparecer a nova serventia sugerida.
O último objecto que tinha reciclado era um vibrador. Tinha-lhe proporcionado quilómetros de prazer…mas estava gasto. Apercebeu-se do seu funcionamento deficiente quando deu conta que estava constantemente a pôr-lhe pilhas novas, às quais ele reagia bem conseguindo chegar a uma elevada velocidade de rotação mas durante pouco tempo. Ultimamente, cada orgasmo exigia uma mudança de pilhas. É verdade que ela demorava tempo, às vezes muito tempo, sobretudo quando não conseguia fixar-se num homem, numa situação. Desfilavam perante si alguns dos homens que tinha conhecido e com quem tinha feito sexo mais vezes, nomeadamente Afonso e Nuno, mas também alguns outros, em particular aqueles com quem tinha estado uma única vez e que deixaram um sabor a pouco. As imagens atropelavam-se, as situações sexuais vividas e por viver misturavam-se e distraíam-na do objectivo: vir-se. E aquele vibrador cada vez ajudava menos, às vezes começava a soluçar em alturas cruciais como se estivesse cansado e ela passava-se. Resolveu substituí-lo, já não dava conta da função para que fora criado. Ainda por cima era feio, era vermelho, de borracha muito pouco flexível, estava definitivamente ultrapassado.
Numa tarde em que estava a masturbar-se, depois de ter já fumado dois charros, teve a ideia de o reciclar e já vislumbrava o resultado dessa reciclagem a enfeitar o pescoço de alguém, talvez o dela própria. Riu-se, riu-se muito. Ia cortá-lo em rodelas, umas mais finas, outras mais grossas que depois de furadas seriam enfiadas num fio prateado e hélas…tinha um colar modernaço para vender ou para ela própria usar. Não, mesmo que o vendesse, tinha de usá-lo primeiro. Queria saber se aquele novo objecto numa nova função teria ainda poder para a fazer evocar as pilas e os cus por onde tinha andado.
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DE VIBRADOR A COLAR
Algumas vezes ensaiara reflectir sobre se este seu comportamento recolector, reciclador, não estava associado a uma vontade de colecção. Não gostava de admitir isto.
































