sequelas

domingo, 6 de junho de 2010

1.3  SIMETRIA E ASSIMETRIA

O princípio da acção - reacção (3ª lei de Newton) : quando o corpo A exerce sobre o corpo B uma força, o corpo B exerce sobre o A uma força igual e contrária.As forças existentes no universo existem aos pares de forças simétricas em virtude do Princípio da Acção e Reacção.Quando um corpo realiza um movimento harmónico simples (MHS) todas as grandezas características (posição, velocidade, aceleração, força exercida sobre o corpo, energia cinética, energia potencial) são simétricas em relação à posição média do corpo.


                            ....parece um quadro de Nadir Afonso

Mas a simetria que naquele período exaltava Malte era a que ia além do catálogo das operações de simetria, era a que encontrava nos textos de física de partículas que, esforçadamente, tentava compreender. Muitas experiências mostram que quando produzimos partículas produzimos ao mesmo tempo as respectivas antipartículas, isto é, para cada partícula (matéria) há uma antipartícula (antimatéria) em tudo igual, excepto em relação à sua carga eléctrica; um protão é positivo, enquanto um antiprotão é negativo.
E a célebre questão: se a matéria e a antimatéria são iguais em tudo, excepto em relação à carga eléctrica, porque é que há "mais" matéria no universo do que antimatéria? porque é que a matéria ganhou à antimatéria? Existe universo porque a matéria "ganhou" à antimatéria...
Para responder a esta questão, ou melhor, para começar a responder parece que se tem de compreender a violação de simetria (CP), chave para a compreensão da assimetria matéria-antimatéria da qual parece depender a existência do universo.


                                                                         simetria CP *  
*A simetria CP corresponde à combinação da simetria Paridade com a simetria conjugação de carga. A simetria Paridade está ligada à operação que faz corresponder a um qualquer acontecimento, a imagem deste quando reflectida num espelho; a conjugação de carga faz corresponder a cada partícula a sua anti-partícula.
Vale a pena chamar a atenção para o trabalho de alguns físicos portugueses, como Gustavo Castelo-Branco do Centro de Física Teórica de Partículas do Instituto Superior Técnico, reconhecido internacionalmente, e neste caso para a obra Violação de CP, da autoria de Gustavo Castelo-Branco, Luís Lavoura e João Paulo Silva, publicado em 1999 na Oxford University Press.

Cada vez mais submersa neste "problema muito enorme" Malte sentia-se enfeitiçada enquanto por aqui vagueava e deliciava-a a ideia de pensar a relação com Afonso usando as "categorias" com que lidava a física de partículas.

No dia seguinte a terem feito sexo/amor(?), Malte mandou um mail a Afonso.

olá, bom dia
Depois de uma tarde como a de ontem, não podia fazer nada senão aninhar-me e alimentar-me da memória das carícias, da ternura, do modo como os nossos olhares se encontraram, do modo como os nossos corpos se detiveram um no outro e se foram descobrindo...
Não podia deixar que nada alterasse o embevecimento, o encantamento em que estava recolhida…
Não falei, não ouvi nada, não queria outros estímulos, bastavam-me os que tinha incorporado
....e adormeci...em estado de graça
Vi o teu sms hoje e senti que o estado de graça continuava
Abri o msn, ainda em casa, estremeci quando mudaste de estado...interrogo-me sobre se a tua alma também está offline...se assim for, diz-me para eu descer à terra...

Malte

E outro, ainda:

Nesta forma sentimental de conhecimento em que me encontro
Neste desnorte do logos em relação ao coração
O mundo na sua inteireza concentra-se neste quase
Um quase de tensão entre o que me excede de forma obscura
E um desejo de claridade que o logos sente por tudo aquilo que o excede

O dia a dia prende-nos inexoravelmente à superfície,
Tornando risível e caricato o transcendente
O dia a dia mecaniza histericamente os actos e os gestos
Transforma tudo em pasto indiferente dos seus movimentos
Nesta espécie de sonambulismo em que me encontro e que é próprio do ser que foi arrancado ao sonho e atirado à terra, envio-te um beijo.

Malte

Chegou o fim de semana e…nada, Afonso não respondia aos seus mails.

Por muitas voltas que desse ao que andava a estudar em física não encontrava aí nada que a ajudasse a pensar no que se estava a passar entre ela e Afonso. A sua situação sentimental não parecia enquadrável na moldura categorial da física quântica. É claro que tinha encontrado termos e expressões como, por exemplo, paridade, violação de simetria, decaimento , etc., que ajudam por vezes a que o pensamento prossiga em territórios que nada têm a ver com os que estão na origem desses termos...mas não queria cair na "impostura intelectual". Lembrava-se da controvérsia acerca da apropriação de termos das ciências físico-matemáticas pelas ciências sociais e da crítica feroz de Alan Sokal a Lacan, Julia Kristeva, Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Paul Virilio, etc., pelo uso abusivo de terminologia científica, muitas vezes, sem a compreensão do conceito científico que estavam a usar. Reconhecia a justeza das críticas de Sokal, a "evidência" de algumas das provas aduzidas no seu livro Imposturas Intelectuais* e...ainda assim confessava que alguns textos dos autores criticados, em geral, textos bastante delirantes rsrsrs...alucinatórios....rsrsrs...a tinham feito pensar muito e isso é um BEM enorme! De toda essa problemática epistemológica retinha a distinção pertinente entre "contexto da descoberta", onde tudo é permitido, e "contexto da justificação", onde o campo disciplinar impõe as suas regras. De qualquer forma nunca limitaria o trânsito entre disciplinas nem lhe parecia sábio confinar o tráfico dos termos a um uso metafórico. Seria sempre a favor de uma boa reciclagem!

*Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont, trad. de Nuno Crato e Carlos Veloso, Ed.Gradiva, Lisboa, 1999.


 Na semana seguinte, recebeu uns pps de Afonso e sobre um em particular - “Lisboa antiga”- escreveu-lhe:


            




                           
Só agora vi "lisboa antiga". Um olhar em passo de corrida que me fez estremecer, soube-me a pó, ao pó que salta dos livros em que não se mexe há muito tempo, cheirou-me a bafio, ao bafio das salas de portas trancadas há séculos...houve uma reminiscência das almas pardas e cinzentas que encontrei quando vim para Lisboa, antes do 25 de Abril.... Mas mais singular ainda, é a sensação de proximidade, nada daquilo me é tão estranho quanto gostaria, há sombras que se perpetuam, há esquinas que se mantêm, há vestígios de pequenez que reconhecemos no dia a dia, há um sopro de desânimo que continuo a encontrar na rua, há esgares na arquitectura que vejo todos os dias...há sobretudo ausência de sinais de humanidade...que continuo a sentir...
Mas...revisitar lisboa foi também espreitar em alguns cantos obscuros e esconsos da minha alma...

Malte

Afonso enviou-lhe uma prosa poetizada com o título “Viver”, sobre tudo e nada, cuja motivação não descortinou e que, pela data em que tinha sido escrito – cinco anos antes de a conhecer, só podia ter na sua origem a ausência de vontade de escrever, de comunicar com ela.


Também a ela já não lhe apetecia escrever, recorreu a um dos seus companheiros mais frequentes nesses dias, o livro de Álvaro Magalhães, O brincador , com ilustrações de José de Guimarães ( Edições Asa, Porto, 2005 ).

É por haver poesia
Que os dias são dias.
Isso eu sei.
E tu, sabias?

Malte                                                                      


Dois dias depois, Afonso escrevia:

Antes de haver gente, a poesia só podia ser feita pelo grande geómetra ou pelo compulsivo jogador de dados. Mas já haviam dias. E estes tanto podem durar uma eternidade como um instante. Por isso é que há eternidades que são meros instantes e instantes que perduram. Vivemos todos na grande ilusão de fisgar o destino matemático e de realizar o paradigmático.
Beijos para a menina querida

Afonso

Ainda nesse dia, misturou Kant com mais uns versos recolhidos em O Brincador, e escreveu a Afonso:

Como não temos acesso "às coisas em si mesmas", tudo o que podemos ter não passa de uma representação, não entramos no mundo, o mundo entra dentro de nós pelas janelas dos sentidos e pela janela da alma e é a partir desse momento que as coisas existem - para nós. Da sua existência fora de nós, não sabemos nada...
Os dias começaram com o homem a atribuir o nome a um "pedaço de tempo", o acto de "nomear" faz existir a coisa nomeada.

A magia da poesia faz-se de palavras descomprometidas, *
e não de palavras que têm as suas vidas e ocupações,
faz-se de palavras jovens, desconhecidas, que não têm nada que fazer...
São palavras distraídas
que não querem aprender
o que querem dizer.

Malte
*Uma brincadeira com alguns versos do poema "Para que serve a poesia" de Álvaro Magalhães em O Brincador, já citado.

No próprio dia obteve resposta de Afonso:

“Li-te, leio-te, invadi-me e invado-me do que me dizes, do que mostras, do que sabes. Tens a medida certa das acções que praticas enquanto personagem admiradora e ajuizadora do que te rodeia, dos teus próprios limites. Se alguém há muito sobre isso se debruçou e reflectiu não é menos verdade que também tu sabes bem a lição. A velha dificuldade de saber o que é a verdade tem, em ti, campo pouco fértil para viver.
És tão clarividente que até trazes na sacola a poesia, qual insecticida, para matar os limites da realidade que nos aprisiona e faz.
Este meu dum-dum, já está na despensa há muito. Foi feito para atordoar ou, sei lá, para libertar. O quê? Nem sei.”
Afonso
Seguiu-se o envio de vários pps que nem sequer lhe apeteceu comentar, anotar…alguma coisa se tinha modificado…decaído? Decaimento alfa? Decaimento beta? Fissão espontânea? Sentia-se tentada novamente a submergir na física nuclear, mas não...era melhor partir sem mais delongas para o departamento do "esfriamento com medos de esquentamentos" …ahahah. Entretanto teclaram, sem chama, sem brilho, sem glória, e Afonso confessou-lhe a sua instabilidade emocional que, afinal, tinha outro nome: “medo da sida”, um medo que nele se tinha instalado e que não conseguia ultrapassar, devorava-o, dizia-lhe ele, e queria acabar aquela relação.

Tinham feito sexo sem preservativo, nas vezes – poucas – em que se encontraram. Na primeira vez, ela chamara-lhe a atenção para o risco, embora sem grande convicção, a verdade seja dita. Na segunda vez que fizeram sexo falaram ao de leve nos respectivos passados recentes sexuais e aparentemente tranquilizaram-se, mas afinal a dúvida fizera o seu caminho e Afonso despedia-a da sua vida. Não tinha a certeza de que aquele fosse o motivo real do despedimento.

Tinha sido despedida? Mas que raio de coisa, sem mais aquelas….

Abateu-se sobre ela um tempo pesado, maciço, sufocante, sentia-se apertada dentro de si própria. Lembrou-se daquela passagem de Rilke nos Cadernos do seu homónimo masculino: “Porque agora sabia eu que lá fora tudo continuava com a mesma indiferença, que também lá fora nada mais havia senão a minha solidão. A solidão que eu fizera desabar sobre mim e com cuja grandeza o meu coração não estava em proporção. Lembrava-me de pessoas que eu tinha abandonado outrora, e não compreendia como é que se podiam abandonar pessoas.”*
*Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, ed. Oiro do Dia, Porto, 1983, p.151.

Podia ela falar de solidão quando bastava abrir o msn para virem ao seu encontro meia dúzia de propostas de encontros que varreriam a solidão num ápice? Sim, podia falar de solidão, não por causa de Afonso a ter abandonado, mas porque, ao contrário do seu homónimo masculino, não se lembrava de alguma vez ter abandonado alguém. Parecia-lhe que desde muito cedo tinha sabido, daquele modo sentimental de saber, que “…com a união de dois seres nada mais se pode obter do que um acréscimo de solidão”(mais uma vez, uma frase de Rilke nos Cadernos, p.207)

Desde que se lembrava de si, ela amava o amor, tinha sido sempre amante e não sabia sequer se alguma vez tinha sido amada, por isso continuava a transportar dentro dela todos os seus amores e, quando se unia a alguém, sentia-se a responder à exigência de amar, era o amor a exercer-se na escuridão dos amplexos e nesse exercício estavam presentes todas as uniões passadas, mesmo aquelas em que o objecto do seu amor já tinha morrido. Surpreendeu-se com este pensamento: a única coisa do/no mundo que não é susceptível de metamorfose – a morte – afinal pode ser metamorfoseada porque o amor ressuscita. Poderia isto ajudá-la a compreender por que caçava homens na net? A sua “colecção” aumentava a um ritmo assustador e nem o caso com Afonso a tinha interrompido.