sequelas

terça-feira, 17 de agosto de 2010

2. E MALTE…QUEM ERA?

2.1 Coleccionadora. De ...?

Outrora tinha tido um herbário.

 



 E uma colecção de mineralogia.      

 










E agora?



Coleccionava homens? Parecia-lhe excessivo e, mesmo, inadequado.

Coleccionar não é reunir objectos semelhantes?*1 Não é tão simples, pensava ela à medida que ia ponderando o assunto, enquanto caminhava em direcção ao seu lugar de trabalho. Tem de haver no coleccionador uma pulsão da semelhança, uma força que se apropria da sua vontade, que o possui e o compele a produzir semelhanças. Não se trata apenas de identificar a semelhança, de reconhecer similitudes, nem mesmo de uma aptidão particular para ver a semelhança que não se evidencia, trata-se de produzir semelhanças, de contrair o universo, fazendo eclipsar tudo excepto uma coisa: a semelhança, e esta é fundadora, é a condição de possibilidade de uma colecção, mas é ainda mais do que isso, é ao mesmo tempo a actualização dessa possibilidade.

Colecção de moedas, de fósseis, de postais, de vidros de murano…de tudo. E de seres humanos, mesmo que o ser humano se reduza, neste exercício mental, à espécie masculina, ao macho e…deu uma gargalhada que a tornou consciente de que estava na rua e quase a chegar ao local de trabalho.

Mas uma colecção não se faz olhando à volta e arrumando os objectos em função do critério que se elegeu para essa arrumação. O princípio da semelhança está lá e em pleno exercício, anula as diferenças para impor a semelhança e, assim, um mesmo conjunto de objectos pode originar vários subconjuntos, vários grupos, que o são enquanto o critério, o conceito de ordenação subsistir, se este mudar tudo se metamorfoseia criando-se um novo grupo em função da ordem dada pelo espírito.

Coleccionar não é perseguir obstinadamente uma peça que se assemelhe à inaugural? E haverá uma coisa inaugural ou só se dará conta de que há objectivamente uma primeira peça quando já se têm outras que juntámos porque gostámos delas, porque nelas nos revimos por qualquer razão, porque nelas sentimos o apelo do semelhante? Coleccionar seria andar à caça do semelhante? Do que é semelhante entre si porque é semelhante a nós, por alguma razão ou em alguma dimensão?

1 um pequeno exercício reflexivo muito mediado pela reflexão de Maria Filomena Molder em Semear Na Neve, Relógio D’ Água Editores, Lisboa, 1999.




Chega de perguntas. Como se aplica isto aos homens? Sentia a necessidade de acrescentar: machos. Parecia emergir o tal critério criador de um grupo de objectos quando pensava na redução que fazia ao igualar homem a macho, e esse critério só tinha a ver com sexo. Tratar-se-ia então de uma colecção de objectos sexuais? Excessivo mais uma vez.

Pensou na sequência de homens com quem tinha feito sexo nos últimos meses, principalmente no período em que frequentava os chats à caça de homens, movida por um desejo de possuir que parecia insaciável.

Após um período inicial de navegação nos chats, em que se deixava ir ao sabor da corrente, raramente tomando a iniciativa de convidar os nicks para conversas privadas, em que se sentia movida pela curiosidade de recolher o máximo de sinais na escrita dos teclantes que lhe permitissem desenhar a criatura que estava do lado de lá, que lhe permitissem esboçar um perfil cognitivo e emocional que se revelasse suficiente garantia do interesse da prossecução da conversa.

Nessa altura não sentia a disposição tensa, propiciatória da acção, como sentia na fase da caça. A expectativa de encontrar homens, em cujas palavras, sentimentos, emoções, ideias, gostos…fantasias, em que se reconhecesse, sentisse afinidade, tinha sido substituída ou, pelo menos, grandemente excedida pelo desejo de os adquirir, de os consumir.

Em cerca de seis meses tinha teclado com centenas de homens e uma mulher e tinha ido para a cama com inúmeros. Não sabia qualificar esta “numerosidade” (termo cuja patente é de Henry James), se era baixa, média ou alta, talvez um dia perguntasse a alguns homens e a algumas mulheres. Aquilo em que valia a pena pensar era que esta “numerosidade” sem a Internet era completamente impossível, pelo menos para ela, atendendo ao seu trabalho, aos seus hábitos e ritmos, até aos seus amigos. Como podia ela ter conhecido tanta gente se não tivesse entrado nos chats? E acreditava que o mesmo se passaria com muitas mulheres da sua idade e condição. Nesta rede de trânsito, muitas vezes congestionado em horas de ponta, nos chats os picos de frequência eram a seguir ao almoço, onde às vezes se combinava um encontro ao fim da tarde, na hora que antecedia a saída do trabalho, ao final da tarde, para se combinar alguma coisa para a noite ou para a hora de almoço do dia seguinte e, à noite, a seguir ao jantar. Havia muita gente a teclar dos seus locais de trabalho e, não se pense, não só na função pública. As profissões liberais estavam bem representadas durante todo o dia, e os chamados “microempresários” abundavam. Mesmo nos dias em que não havia muito para fazer, profissionalmente falando, sentia um certo complexo de culpa quando o fazia. Fê-lo muito poucas vezes mas o msn, esse, naquele período, estava quase sempre aberto. De qualquer modo, já era um filtro, e este leque foi sendo dobrado, à medida que ia bloqueando quase todos os seus contactos para ficar apenas com os dois ou três que despertavam o seu interesse na altura. O msn oferecia a possibilidade de bloquear contactos, mantendo-se online sem que os bloqueados o soubessem. Isto permitia que aparecesse online só para os que lhe interessava contactar.

Raramente caçou de dia e, quando o fez, percebeu que não tinha apanhado o animal que desejava. A caça na net era uma corrida quieta, imóvel, mas não dispensava aquela inclinação de corpo, aquela disposição augural, com a cessação dos ritmos fisiológicos que perturbam o apuramento dos sentidos e permitem à alma antecipar o gesto da apropriação. Nessa altura dispara-se.


jr_bernardo diz:
o que te deixa louquinha de tesao?

Malte diz:
muitas coisas ao mesmo tempo

Malte diz:
não é só isto ou aquilo

jr_bernardo diz:
partilha comigo ok?

Malte diz:
apetece-me pouco conversar

Malte diz:
apetece-me foder

Malte diz:
percebes!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

jr_bernardo diz:
hummmm

jr_bernardo diz:
sim sem duvida

jr_bernardo diz:
que fazes amanhã?

Malte diz:
sou muito directa, não te assustes

jr_bernardo diz:
assim que eu gosto

Malte diz:
amanhã não me interessa nada o que faço

jr_bernardo diz:
pena, podiamos encontrar-nos

Malte diz:
pois, eu quero agora e já....vou à procura

jr_bernardo diz:
ok... hoje tenho cenas combinadas... vou sair daqui a pouco...

Malte diz:
claro

jr_bernardo diz:
amanhã esta fora de questão?

Malte diz:
sei que não é fácil conseguir o que quero já, mas vou tentar

Malte diz:
amanhã podemos falar, ok

jr_bernardo diz:
manda-me uma mensagem com o teu nº... combinamos durante o dia ok?

Malte diz:
não, encontramo-nos no msn e logo se vê

jr_bernardo diz:
ok....

Malte diz:
fica bem, ciao

jr_bernardo diz:
qual a tua maior loucura ate hoje?

Malte diz:
houve tantas

Malte diz:
vou fazer mais uma

Malte diz:
e não pôr-me a falar sobre isso.


Sentiu-se a caçar durante dois ou três meses. Delimitava o terreno de caça para poder haver presa, perguntando imediatamente de onde teclavam. Tudo o que excedesse os 50Km de distância, declinava, a aquisição tornava-se praticamente inviável. Se o território diminuía aumentava a oferta potencial alargando o leque das idades, a variação dos estados civis, a diversidade das eventuais profissões exercidas, e até chegava a condescender no que respeitava à correcção ortográfica. De qualquer modo não atirava a tudo o que passava na frente da sua mira. Estava atenta a alguns sinais, sobretudo aos que indiciassem um determinado estado de espírito. Esse estado de espírito não era fácil de descrever, nem havia correlação entre ele e a idade, profissão, estado civil, etc,. Tipos emotivos, com personalidades exuberantes ou tímidas, corações afectuosos, quer por defeito ou por excesso, personagens em busca de um completamento humano, porque “ se morre mais de mágoa do que de radiações”,como diria Saul Bellow*2, ou então criaturas em que advinhava uma curiosidade semelhante à sua, uma vontade de conquista imediata, e onde pressentia uma ideia subterrânea que também partilhava, a do sexo como panaceia de efeito imediato para qualquer tipo de problema com que nos deparamos, como um intermezzo nas preocupações, atraíam a sua atenção e mobilizavam-na para a acção.

Quando escrevia isto lembrava-se de um diálogo entre sobrinho e tio numa obra de Saul Bellow onde aquele dizia:

“– Sejam quais forem os problemas que se deparem às pessoas, elas procuram um remédio sexual. Quer se trate de negócios quer de um problema de carreira, de
dificuldades de carácter, de dúvidas acerca do próprio corpo, quer mesmo de metafísica, elas recorrem ao sexo como analgésico.


- Não, não, Kenneth. Uma aspirina, não. Isso torna-o demasiado trivial.

- Seja, mas nesse caso as pessoas executam o acto pelo qual o amor seria transmitido se existisse.

- Isso já é mais aceitável. “*2

2 Saul Bellow, Morrem mais de mágoa, Ed.Livros do Brasil,…..
 
Olhando para a lista dos muitos homens com quem fizera sexo, quase metade tinha sido caçada no chat do sapo, entre as 22 h e 01h da manhã. Eram os mais novos, entre os 27 anos e os 35 anos, os que tinham entrado na sua casa e na sua cama na mesma noite em que os conhecera. Era perigoso, toda a gente o dizia, os próprios que assim entravam tinham o topete de lhe chamar a atenção para isso.


Mas, seria mais perigoso do que conhecer alguém no cinema, numa discoteca ou em outro local público e levá-lo debaixo do braço para casa? Muitas vezes, sabia-se menos do parceiro que se encontrava nesses sítios do que daquele com quem se contactara nos chats. Claro que tudo o que havia sido escrito podia ser mentira, mas também o podia ser tudo o que o outro nos tinha dito.

Havia a solução do “convite para um café”. Esta era a estratégia de segurança mais recomendada por todos, incluindo alguns agentes de segurança, como polícias, que entraram em sua casa fazendo ouvidos de mercador ao seu próprio conselho. Mas isso era percorrer um trilho com armadilhas montadas que retirava toda a “novidade”, imprevisto, suspense à situação e que baixava drasticamente a adrenalina. O único risco em que pensava era o da rejeição, rejeitarem-na por ser gorda. Seria que passava pela cabeça dos homens que iam ao seu encontro a ideia de que poderiam ser rejeitados? Nunca tinha pensado no problema do lado do homem.

Ao contrário do que era voz corrente, ela considerava que se mentia pouco em relação às características físicas. Ainda não tinha webcam no período em que mais caçou e isso permitiu-lhe verificar o mal fundado dessa voz corrente. Também não ligava muito ao que eles diziam de si próprios fisicamente….eram tão novinhos…deviam estar em condições. Quanto a si própria nunca omitia o facto de ter peso a mais, às vezes ia mais longe e dizia mesmo que, em sua opinião, era gorda. E era uma estratégia com sucesso. Primeiro, eles consideravam, pensava ela, que quem era tão autocrítica devia ser muito exigente consigo própria, o que equivalia a dizer que logo ali - nessa inferência que ela calculava que eles faziam – lhe retiravam uma data de quilos. Segundo, só se referia ao seu aspecto físico, depois de ter usado outras armas de sedução e essas variavam consoante a presa que tinha sob mira.

Luís António, Miguel do Porto, o jornalista, Bruno, Ricardo1, Ricardo2, Rui, Zé Maria, Jorge, António, Manel….etc., etc.,.





À maioria dos mais novos atraía-os a sua idade que associavam a experiência, experiência sexual, mas porque ela falava de sexo com naturalidade, inteligência e humor. Percebia que havia ali alguns fetiches, vulgares, relacionados quase sempre com mamas e penetração anal. Ela entretinha-se a falar das suas mamas, não as descrevendo como um objecto mas como um ser vivo, dizia-lhes do que elas mais gostavam, como reagiam a determinados estímulos, como saltitavam quando brincavam com elas de determinada maneira, como pareciam soluçar convulsivamente quando lhes tocavam assim e assado, etc.,. Percorria-a uma sensação de volúpia quando lhes explicava a arte e engenho necessários para o sexo anal ser satisfatório para a mulher. Nem sequer tinha boas recordações das vezes em que acontecera, mas imaginava como devia ser feito e dizia-o claramente. Alguns deles nunca o tinham feito, como também não tinham experiência de outros recursos, por exemplo, o vibrador. "Passavam-se" com o vibrador, queriam saber como ela o utilizava, quando o utilizava, se quando estava com um
homem o vibrador também entrava em cena, etc. Às vezes bastava meia hora de conversa para lhe suplicarem que os deixasse ir ter com ela…e ela acedeu a essa súplica muitas vezes. Perguntavam-lhe como era ela fisicamente e ela dizia coisas do género: não tinha uma constituição elevada, era mais do tipo rente ao chão mas curvilínea, tinha uma boa relação com as forças planetárias, isto é, com a gravidade, etc., ou dizia que era a personificação da condensação combinada com maturidade feminina, etc.,.
Divertia-se a dizer estas coisas e a imaginá-los a tentar traduzir por miúdos aquelas frases. Podiam não perceber o sentido, mas apercebiam-se de que estavam a falar com alguém diferente, interessante e sensual.


O Rui tinha vinte sete anos. Encontrou-o no chat do sapo a descontrair, segundo disse, antes de se preparar para um exame que tinha daí a dias. Preparava-se para fazer uma directa, quando começou a teclar com ela. Morava na margem sul, tinha rompido com a namorada de há sete ou oito anos e quando percebeu que ela respondia sem tibieza às suas tímidas perguntas sexuais, manifestou o estado de excitação em que se encontrava e a vontade que tinha em fazer sexo com ela, já, agora, imediatamente. Eram 2h da manhã quando o Rui chegou, tinha sabido da sua existência há uma hora e meia atrás. Encontrou-se perante um menino lindo, de olhos esverdeados, cabelo castanho muito claro, com um ar infantil e um pouco amedrontado. Tentou descontraí-lo, embora ela própria estivesse surpreendida positivamente com a qualidade física da presa. Lembra-se de que ele partiu quando começava a amanhecer e que nada de memorável, do seu ponto de vista sexual, tinha acontecido. Mas perdurou uma sensação agradável, afectuosa, amistosa. Teclou mais umas vezes com ele…e depois ele desapareceu durante meses. Um dia é surpreendida com um toque no msn…era o Rui. Tinha estado ausente nos Palops, regressara há pouco e lembrava-se muito bem do seu encontro, tão bem que lhe contou pormenores que lhe fizeram lembrar a narradora de A Casa dos Budas Ditosos, do João Ubaldo Ribeiro*1, em que ela não se reconhecia.

1 João Ubaldo Ribeiro, A Casa dos Budas Ditosos, ed. Dom Quixote, s/d.