Entrou naquela sala, onde estava o Nuno, com o nick aventureira e sabia que ele a ia chamar. Sabia que o nick dele não era nada invulgar, mas teve rapidamente a confirmação de que por detrás do nick estava a pessoa que ela conhecia. O “Lobo” não entrava a matar, não começava logo com alusões sexuais, o que o distinguia da maioria. Sabia que ele ia dizer que também era aventureiro, sabia o que dizer-lhe para ele sentir que encontrara uma alma gémea, e sabia que esta afinidade lhe era tão grata, que ele precisava tanto disso que rapidamente lhe iria propor que fossem para uma sala privada. Era tudo tão previsível. Na sala privada, ela insistia em falar de aventura em termos gerais, desviava a conversa do “Lobo”, dirigida a indagar a circunstância em que ela se encontrava e a avaliar as probalidades de ter uma aventura sexual, falando da experiência dos limites, dos limites mentais, da adrenalina que gostava de sentir, de como isso a fazia sentir viva. Sabia que ele não entenderia metade do que ela estava a dizer, mas seria sensível à afinidade electiva que perpassaria no seu discurso, que ele se sentiria seu semelhante. O “Lobo” propôs-lhe aquilo que ela previa: uma aventura, sem a qualificar, mas também não era preciso. E, subitamente, ficou sozinha na sala privada, “Lobo” tinha saído. Só percebeu isso passado algum tempo e ficou irritada, mesmo muito irritada. Teria ele percebido quem ela era, talvez subestimasse a inteligência de Nuno. Ou, provavelmente, o serviço reclamara a presença dele e este tivera de abandonar o chat sem mais. Entrou e saiu de várias salas e nada de “Lobo”. Irritada, enviou-lhe um sms: “ acabei de teclar contigo. Bjs”
Deixou passar algum tempo e voltou a entrar na sala dos 40-50 com um nick completamente anódino, na esperança de voltar a encontrar o “Lobo” e de assistir à conversa deste com alguém. A velocidade com que Nuno a convidara para uma aventura não a surpreendera, mas não deixara de a incomodar. Não queria conversar com o “Lobo”, queria assistir a uma conversa deste e confirmar o que previa ser o rumo da conversa, queria confirmar as suas suspeitas.
Nas sua conversas de cama, e sem que ela perguntasse nada, Nuno fazia passar a ideia de que não andava com mais ninguém, de que a última vez que tinha feito amor tinha sido com ela e vinha repetindo isso nas últimas vezes que tinha estado com ela, não sem lhe lembrar que ela até já lhe tinha dito uma vez que tinha estado com outra pessoa. Não levava nada disto muito a sério, não porque pensasse que era mentira, mas porque lhe cheirava a inverosimilhança. Nuno, para todos os efeitos, era giro, parecia muito mais novo do que a idade que tinha, às vezes não lhe daria mais de 26 ou 27 anos, trabalhava num meio que lhe parecia propício a aventuras sexuais, ainda por cima com os turnos nocturnos que fazia. E, não se esquecia, ela era gorda, obesa….
Deparou com o nick “aventureiro” em animada conversa com uma nickada “sozinha”. Aí estava um nick que ela nunca escolheria, mas que era bem possível que ele pensasse que podia ser ela. De facto era sozinha e Nuno não era dado a grandes elucubrações mentais, ser-lhe-ia difícil perceber a diferença entre a realidade e a representação da realidade. O rumo que a conversa tinha tomado, com a sozinha a dizer que o aventureiro era muito querido e que estava ansiosa por conhecê-lo, indiciava a passagem rápida a uma sala privada. O aventureiro ia dizendo que estava quase a sair do trabalho, mais um sinal de que era Nuno, que ia sair à meia noite, como nessa manhã lhe comunicara. Queria saber o nome da sala privada para onde aqueles dois iriam, mesmo sabendo que não os iria seguir, embora o pudesse fazer. Mas não faria isso, sentia algum pudor. O nome da sala apareceu em seguida: fofa. Saiu do chat. Nuno provavelmente iria ter companhia nessa noite e não seria ela. Sentiu-se de facto incomodada, não tanto pela infidelidade dele, o contrário é que constituiria uma surpresa, mas por ele ter sentido a necessidade de lhe mentir. Ela nem sequer lhe perguntara nada, porque é que ele havia de ter vindo com aquela conversa de não estar com mais ninguém a não ser ela.
Não resistiu a entrar de novo no chat aeiou e a voltar à sala dos 40-50. Ainda eram 23h e pouco, e mesmo que Nuno já tivesse a noite preenchida, aproveitaria para teclar um pouco mais.
Tinha já constatado o quanto Nuno gostava de passear pelas salas do aeiou, mais do que gostar, ele de há uns tempos para cá nunca deixava de lhe pedir para teclar um pouco quando estava na casa dela. Se, ao princípio, ela achava isso divertido e até era sua cúmplice na escolha do nick com que ele entrava e nas frases que escreviam, às vezes, os dois em conjunto, começava a aborrecer-se com a dependência que ele manifestava em relação ao teclanço. Gastava nisso imenso tempo, tempo que lhe era roubado, tempo que era roubado ao acto sexual.
Entrou na sala com um nick que o Nuno, se lá estivesse, tinha de reconhecer imediatamente e ele estava lá quase de certeza. Antes de ter entrado viu na lista dos nomes o nick gato e pressentiu que era ele. A aventureira_46 foi imediatamente obsequiada com um olá do gato e soube que era ele. Ela conhecia-o tão bem, mais do que ela própria suspeitara. Ele teclava como se não a conhecesse, fazendo as perguntas do costume, donde teclava, que idade tinha, insistindo em saber a zona onde morava. A sua irritação foi crescendo, foi-lhe fazendo perguntas ao mesmo tempo que dava as respostas por ele, denunciando que sabia quem ele era. A certa altura foi mais longe e, ainda na sala pública, escreveu a equação sem incógnita: “Lobo”=aventureiro=gato. Ele não se deu por achado e convidou-a para uma sala privada, dizendo-lhe que já tinha muito pouco tempo, mas que queria falar com ela. Pensou que ele assumisse quem era em privado. E foi.
Na sala privada, “Lobo” continuou a jogar, perguntando-lhe o que fazia, onde morava, etc., e não respondendo às suas perguntas, atreveu-se a pedir-lhe o email, e o número de telemóvel. Ela deu-lhe o email, deu-lhe o telemóvel, perguntando-lhe para que queria ele o seu número, e chamou-o pelo seu nome – Nuno. Respondeu-lhe que queria almoçar com ela, que a queria conhecer melhor. Não pode deixar de rir, almoçar com Nuno era inimaginável, aliás era inimaginável fazer com ele alguma coisa normal, com excepção de sexo. Até as conversas com ele, em sua casa, não eram normais, aliás, não havia conversa, havia monólogos interrompidos em surdina e de quando em vez por ela, com uma ou outra interjeição ou sinal de assentimento, só para ele perceber que ela ainda ali estava.
Depois do convite para o almoço, ainda lhe perguntou: “ e há coca?”, no que julgou ser uma provocação que não ia ficar sem resposta. Mas ficou, apercebeu-se de que, mais uma vez, ele a deixara sozinha na sala.
Este abandono causava-lhe um sentimento que já não se confundia com a sensação de incómodo, estava magoada e tomou a decisão de não falar mais com Nuno, rapidamente convertida em decisão de não ser ela a mandar-lhe sms . Era pouco, tinha de ser um pouco mais dura, acrescentou a esta última decisão a adenda de também não responder aos sms dele por uns tempos.

às vezes, uma chatice!
outras vezes, a possibilidade de um encontro singular...
tem dias....
