sequelas

sexta-feira, 27 de maio de 2011

2.4  E gorda…



Mais um a chamar-lhe gorda. O Luís, pau de virar tripas, um certo ar distinto que advinha dos seus olhos azul-acinzentados, do seu cabelo aloirado, e do seu ar macilento, distinção seriamente posta em causa pela sua maneira de vestir, não descuidada mas cuidada com a roupa dos chineses, atrevera-se a perguntar-lhe se ela não queria fazer nada para emagrecer. Acrescentara rapidamente que, como ela sabia, ele não se importava com isso. Esta reparação tinha sido tardia, o golpezito já fora desferido.



Em vez de se insinuar levando-o a desejá-la e a propor-lhe que se encontrassem - estratégia que dominava cada vez melhor, embora não fosse igualmente bem sucedida com todos os peões, é certo, cortara rapidamente a conversa, dizendo que tinha de trabalhar alguma coisa. A sua intenção ao teclar com o Luís nessa tarde era instalar-lhe o desejo de si, não com o propósito deliberado de irem para a cama ao fim da tarde, mas tão só para assistir ao aumento do desejo, para pressentir o crescimento do pénis, o que a reconfortava sempre e a punha num estado de espírito a que chamava a sua doce melancolia.

Tinha teclado três ou quatro vezes com o Luís, nunca muito tempo. Havia nele alguma coisa de sonolento e vegetal que a interessara. Tinha percebido logo que ele era uma presa fácil, mal casado, mal instalado numa vida de medo, mas antes essa do que nenhuma. Era assim que o Luís devia pensar quando se dava a esse trabalho. A pena que tinha de si próprio era tanta que lhe dava para justificar uma ou outra escapadela, mas sabia-se incapaz de lidar com a vida sozinho, sem a âncora de um lar que definisse o seu papel, mesmo que este fosse o de obrigatoriamente levar o pão para casa, comprado ao final da tarde na mercearia ao pé de sua casa. Tinha saído uma vez de casa, contara-lhe. Devia ter sido o primeiro e último acto de heroísmo que o Luís fizera em toda a sua vida.
A primeira vez que fizeram sexo fora de manhã, deviam ser umas sete e pouco da manhã, antes de irem para o trabalho. Esta altura do dia excitara-a, ser acordada para fazer sexo por alguém que vinha de fora, que não passara a noite com ela, era um começo de dia invulgar e…auspicioso. Tinha estado outra vez com ele, ao fim da tarde, sem grande vontade, mas a performance dos dois tinha sido bastante boa, o suficiente para ela saber que ele a quereria mais vezes. E isto bastava, induzia o tal estado de espírito de doce melancolia de que precisava para se suportar, efeito que antes era da responsabilidade de um comprimido de fluoxetina combinado com um victan. Não sabia se haveria terceira vez, o Luís teria de insistir muito, fazer-lhe sentir o desejo dele, pedir-lhe, implorar-lhe, como fazia o professor de educação física em relação aos seus broches.
 Mas o Luís era demasiado tímido para ser explícito quanto ao seu desejo, nunca seria capaz de implorar.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

2.3  Casa à maneira de Giorgio Morandi


Lembrou-se daquela passagem de Robert Musil em O Homem Sem Qualidades (ed. Livros do Brasil, Lisboa, s.d., pp.20-21) em que Ulrich se interrogava sobre o estilo pelo qual deveria optar para decorar a sua casa.
Giorgio Morandi, natureza morta, 1956

Giorgio Morandi, natureza morta


Queria que a sua casa fosse de um estilo depurado, tinha-se empenhado, também em termos financeiros, na escolha de móveis e objectos decorativos que veiculassem a ideia de essencial, não de um modo purista, alheio à sua natureza, mas de equilíbrio entre velho e novo, que cedessem espaço à ideia de vazio, mas de um vazio temperado/ cheio? de luz, pela luz, que se impusessem pela sua sobriedade mas fossem capazes de acolher objectos divertidos, onde luz e sombras coabitassem sem bulha.
    Pensava nas pinturas de Morandi como um guião estético para a decoração da sua casa e, ao mesmo tempo, sentia-se assediada pelo barroco a quem seguia voluptuosamente e quase se perdia nele. O seu olhar tinha sempre tanta paisagem que convivia dificilmente com o barroco. Muitas outras dimensões da sua vida ressentiam-se desta tensão constante, deste vaivém entre a abstinência e o excesso. Obrigou-se a alguma reflexão sobre esta dicotomia instalada em si.
                                                                                        
Giorgio Morandi



Porquê Giorgio Morandi, Paul Klee, até Piet Mondrian…e, ao mesmo tempo, porquê Giorgione, Rubens(?), ….. . E ainda não podia dispensar a intromissão consentida, mesmo desejada, de Georges Rouault e Jean Dubuffet. Percebia talvez melhor a necessidade destes dois do que o seu amor estético pelos outros. Peso e leveza, ambos salpicados pelas linhas trágicas de Rouault e pelas tropelias matéricas de Dubuffet.













     Paul Klee
                                                                               Piet Mondrian


                          
   

G. Rouault






                                       

J. Dubuffet


                         




             










  
                                                                                                         
Pensar a pintura…Pensar a decoração da casa como aplicação de uma concepção estética?

Quando contemplava o armário deco que encostara à parede branca do fundo da sala, dava consigo a pensar em Morandi. Esse armário, quase preto, de linhas sóbrias, ocupava metade da altura da parede, e clamava por objectos que estabelecessem uma relação entre ele e o branco da parede visível. Uma única peça em cima do armário? Várias peças? Semelhantes ou diferentes em forma, tom, cor, textura? Afastou a hipótese minimalista de uma única peça, era uma solução fácil mas redutora no modo como recortava o espaço. Ela também gostava de costurar espaços, de perceber as silhuetas que a colocação de objectos desenhava no espaço, de observar a perturbação desencadeada pela deslocação de um objecto alguns centímetros, de como era fácil ganhar ou perder a unidade de uma determinada organização espacial pela movimentação de uma única peça. Ensaiou repetidas vezes a disposição das várias peças em cima do armário a pensar nas “naturezas mortas” de Morandi, mais precisamente nos quadros das garrafas, no efeito surpreendente que resultava da adição ou subtracção de uma garrafa, não só a lógica espacial e o ritmo de uma composição podia mudar completamente, como as cores e os tons se alteravam subtilmente ou drasticamente. Lera, algures, num artigo sobre este pintor que alguém tinha resolvido o problema da arrumação dos recipientes de líquidos domésticos, dos shampoos aos detergentes, e ao mesmo tempo prestado homenagem ao seu pintor favorito, transferindo todos esses líquidos para velhas garrafas gastas pelo tempo, que dispusera em cima de uma pequena mesa.

Quando pensava em Morandi ou em qualquer outro pintor que amasse, ou mesmo que não amasse, não era para resolver problemas domésticos, até se sentia um pouco indignada com esta história, tal como sentia a fúria crescer dentro de si quando via desenhos de Picasso estampados em chávenas ou obras de Miró a serem pisadas em tapetes.O que a impressionava em Morandi era sobretudo a obtenção de formas essenciais, a abstracção do concreto, o modo como objectos anódinos se transformavam em formas arquetípicas ou porque ganhavam pregnância num espaço que parecia contrair-se ou porque era o espaço entre os objectos que se tornava pregnante, avassalador, onde assomavam formas gerais, ideias gerais de objectos, numa exemplar negação do individual. O seu Morandi era o dos quadros onde o indivíduo se anulava dando lugar ao geral, ao universal, ao essencial.



A superfície superior do seu armário continuava a ser um campo de experimentação, de batalha entre o individual e o geral, sem solução decorativa satisfatória, o que lhe dava alguma satisfação…a continuação da experiência.


Dos objectos passou às palavras já usadas por outros…talvez chegasse às pessoas.

A vontade de reciclar palavras já a sentira antes, mas nunca a pusera em prática. O teclanço com o Impulso Controlado e, agora, com um novo nick ArquétipoParadigma, que ela suspeitava ser um outro nick de Afonso, foi decisiva para iniciar esta nova actividade de reciclagem.

Não se sentia a coleccionar palavras, como aqueles que coleccionam citações e depois têm um cardápio adequado a qualquer situação. Ela fazia outra coisa, abria livros ao acaso e agarrava em palavras ou frases que carregava até as costurar com outras frases pescadas em outros livros. Em geral, não se tratava de uma costura simples, usava vários pontos, de cruz, parecia-lhe, e outros, de que não sabia o nome. Não se sentia a plagiar, sentia-se a reciclar, mas impressionava-a a destreza com que produzia textos semi prosa semi verso, enfim, de género indiferenciado. A maior parte das vezes , mais do que costurar palavras ou frases, costurava as ideias que a leitura de frases soltas originava. Dava-lhe um especial gozo quando as suas fontes de inspiração eram as que estavam à mão, artigos de jornais e revistas, livros de ensaio, romances, poesia, o que se ia amontoando na sua mesa de trabalho, à volta do computador. É verdade que a maioria dos livros que ali estava não era por acaso, tinham saído das prateleiras por alguma, normalmente boa, razão. Acontecia isso com livros de física, astronomia….que, por causa de trabalhos em curso andavam por ali. Era o caso de alguns clássicos, Homero, Aristóteles, Séneca eram sempre boa companhia, mas também Goethe….Não dispensava ter à mão alguns ensaios de Fernando Gil e de Filomena Molder e gostava de ter ao pé de si um ou outro romance que apreciara muito ou de que sentia uma necessidade urgente. E, ultimamente, a presença de livros de poesia sobrepujava a de todos os outros. Afonso estava na origem desta omnipresença da poesia.

Não porque ele escrevesse coisas muito boas…mas brincava com as palavras de um modo muito bonito.