Mais um a chamar-lhe gorda. O Luís, pau de virar tripas, um certo ar distinto que advinha dos seus olhos azul-acinzentados, do seu cabelo aloirado, e do seu ar macilento, distinção seriamente posta em causa pela sua maneira de vestir, não descuidada mas cuidada com a roupa dos chineses, atrevera-se a perguntar-lhe se ela não queria fazer nada para emagrecer. Acrescentara rapidamente que, como ela sabia, ele não se importava com isso. Esta reparação tinha sido tardia, o golpezito já fora desferido.
Em vez de se insinuar levando-o a desejá-la e a propor-lhe que se encontrassem - estratégia que dominava cada vez melhor, embora não fosse igualmente bem sucedida com todos os peões, é certo, cortara rapidamente a conversa, dizendo que tinha de trabalhar alguma coisa. A sua intenção ao teclar com o Luís nessa tarde era instalar-lhe o desejo de si, não com o propósito deliberado de irem para a cama ao fim da tarde, mas tão só para assistir ao aumento do desejo, para pressentir o crescimento do pénis, o que a reconfortava sempre e a punha num estado de espírito a que chamava a sua doce melancolia.
Tinha teclado três ou quatro vezes com o Luís, nunca muito tempo. Havia nele alguma coisa de sonolento e vegetal que a interessara. Tinha percebido logo que ele era uma presa fácil, mal casado, mal instalado numa vida de medo, mas antes essa do que nenhuma. Era assim que o Luís devia pensar quando se dava a esse trabalho. A pena que tinha de si próprio era tanta que lhe dava para justificar uma ou outra escapadela, mas sabia-se incapaz de lidar com a vida sozinho, sem a âncora de um lar que definisse o seu papel, mesmo que este fosse o de obrigatoriamente levar o pão para casa, comprado ao final da tarde na mercearia ao pé de sua casa. Tinha saído uma vez de casa, contara-lhe. Devia ter sido o primeiro e último acto de heroísmo que o Luís fizera em toda a sua vida.
A primeira vez que fizeram sexo fora de manhã, deviam ser umas sete e pouco da manhã, antes de irem para o trabalho. Esta altura do dia excitara-a, ser acordada para fazer sexo por alguém que vinha de fora, que não passara a noite com ela, era um começo de dia invulgar e…auspicioso. Tinha estado outra vez com ele, ao fim da tarde, sem grande vontade, mas a performance dos dois tinha sido bastante boa, o suficiente para ela saber que ele a quereria mais vezes. E isto bastava, induzia o tal estado de espírito de doce melancolia de que precisava para se suportar, efeito que antes era da responsabilidade de um comprimido de fluoxetina combinado com um victan. Não sabia se haveria terceira vez, o Luís teria de insistir muito, fazer-lhe sentir o desejo dele, pedir-lhe, implorar-lhe, como fazia o professor de educação física em relação aos seus broches.
Mas o Luís era demasiado tímido para ser explícito quanto ao seu desejo, nunca seria capaz de implorar.


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