Eram talvez 22h e 30m quando encontrou “Lobo”=Nuno no chat do aeiou. Tinha estado com ele na noite anterior, noite que, como quase sempre se prolongara por aquele dia. Aliás tinha estado com ele também no dia anterior a esse e na noite anterior a essa. Nunca tinha havido tão pouco tempo de intervalo nos seus encontros.
Tinha entrado na sala dos 40-50 e deu logo com o nick “Lobo”. Porque razão Nuno frequentava tanto este nível etário? Gostaria mesmo de mulheres mais velhas? A dedicação filial que mostrava em relação à sua mãe seria transferível para as mulheres mais velhas em geral, andaria à procura de “mães”? Precisaria do carinho, afeição e segurança – era isso, segurança – que as mulheres mais velhas sabem dar? Pensava que sim, até porque era isso que a sua mãe já não lhe podia dar. Com a doença de Parkinson estava cada vez mais dependente dele, era ele que se tinha transformado em tutor da sua mãe.
Uma vez tinha-lhe perguntado porque razão não procurava alguém da sua idade com quem tivesse uma relação afectiva estável, que o ajudasse a ancorar a sua vida, a libertar-se um pouco mais das drogas. Com uma prontidão esclarecedora, Nuno respondeu-lhe: “Achas que alguém me quer com a minha mãe às costas?” O que a surpreendeu foi a prontidão da resposta, como se ele já tivesse pensado nesta questão um milhar de vezes e nunca tivesse encontrado outra resposta que não fosse : “ninguém me quer”. Acrescentou ainda que enquanto a sua mãe fosse viva, ele tinha de cuidar dela e não tinha tempo para mais nada. Nuno confessou-lhe a sua indignação quando alguém lhe sugerira que a pusesse num lar.
Sempre considerara aquela dedicação filial comovente e singular num toxicodependente.
Talvez a doença da mãe fosse a “sorte” dele, amarrava-o à vida de todos os dias, obrigava-o ao cumprimento de rotinas que o impediam de outros voos mais perigosos. O tempo de Nuno era ordenado pela coordenada do seu horário profissional, por turnos, e pela coordenada da doença da mãe, o horário da sua ida quase diária à fisioterapia, o horário dos remédios, as horas a que ela costumava acordar, etc. Eram estas coordenadas que impediam que Nuno se soltasse de vez e cumprisse o destino que a vida parecera talhar-lhe.
Das primeiras vezes que estivera com ele, era imediatamente avisada de que ele não podia demorar muito, pois queria, devia, estar em casa quando a mãe acordasse, porque tinha medo que ela caísse quando fosse à casa de banho. E passava a descrever o corredor da sua casa e os incontáveis obstáculos que ela tinha de transpor para chegar sã e salva à casa de banho. No princípio ainda me atrevia a tentar alijar-lhe tal carga de preocupações, chamando-lhe a atenção para o facto de um acidente desse tipo poder ocorrer mesmo que ele estivesse em casa. Nuno não a ouvia, ou o que ela dizia era apenas um estímulo sonoro para passar a descrever o modo como o som se propagava na sua casa. Em suma, ouvia-se tudo e ele parecia estar atento a todos os sons provenientes da mãe e explicava-me, pacientemente, como o tempo que mediava entre a emissão do sinal sonoro da mãe, por exemplo, a tentativa desta para se levantar, e a recepção deste sinal por si lhe dava tempo para acorrer à mãe e ampará-la na travessia de obstáculos até à casa de banho.
Se, por volta das 5h da manhã, estavam juntos, apercebia-se de uma inquietação crescente, era a hora a que a mãe costumava acordar e atravessar o malfadado corredor. Uma vez sugerira-lhe que esvaziasse por completo o corredor, que eliminasse os obstáculos, ideia que pareceu surpreendê-lo desagradavelmente e passou a falar-lhe dos inúmeros perigos que o próprio piso representava, era escorregadio, traiçoeiro. Resumindo, a casa de Nuno era uma armadilha completa, tudo podia ocasionar um acidente, não valia a pena mudar nada.
A representação que as pessoas podem ter das suas casas…era um tema interessante para pensar.
Ele devia estar lá sempre, mas como não podia, fazia-se acompanhar por esta obsessão, como se a sua preocupação com o bem estar da mãe o redimisse das suas ausências. A energia da coca, temperada pelo torpor em que os charros e a cerveja o colocavam, levavam a que fosse ficando, a que fizessem amor, sim amor – ele insistia em que o que faziam não era sexo, era amor – e a que, de vez em quando, se lembrasse das horas e lhe confidenciasse o terror que se apoderava dele quando pensava que podia estar a acontecer um daqueles incontáveis acidentes que constavam do seu elenco. Se às 8 h ainda estava com ela, recebia muitas vezes um telefonema da mãe e, então, aquietava-se, percebia-se a distensão dos seus músculos, o seu olhar ganhava alguma tranquilidade e, às vezes, até adormecia.
Não percebia porque passava tantas horas com Nuno até fazerem sexo, amor, segundo ele. Não percebia porque o aturava a falar ininterruptamente, a contar-lhe de forma desconexa episódios da vida dele, episódios aparentemente insignificantes, e que se atropelavam uns aos outros, torpedeando as suas tentativas infrutíferas de encontrar um sentido naquele discurso. Apercebia-se da necessidade que ele tinha de falar, apercebia-se da imensa solidão em que este vivia, de uma solidão demasiado ruidosa, como o título de uma obra de Bohumil Hrabal, Uma Solidão Demasiado Ruidosa ( ed. Afrontamento, Porto, 1992) , que finalmente encontrava algum eco, apercebia-se de que ela representava este eco e que, como tal, ele não estava à espera que ela dissesse alguma coisa.
Ela ouvia-o pacientemente, reconhecia histórias já contadas, antecipava mentalmente as sequências de episódios que se seguiriam no discurso disruptivo de Nuno. Sabia que muito daquilo se devia às linhas de coca snifada sucessivamente. E sabia também que na origem da sua paciência estava a sua vontade de continuar a experimentar coca, de acompanhar as snifadelas dele, de misturar a coca com os charros que este tão habilidosamente fabricava, e de misturar isso tudo com o whisky que bebia liberalmente
durante toda a noite, numa vertigem que só se suspendia quando faziam sexo, amor, segundo Nuno.