sequelas

quinta-feira, 7 de julho de 2011

3.1 Nuno e a mãe



Eram talvez 22h e 30m quando encontrou “Lobo”=Nuno no chat do aeiou. Tinha estado com ele na noite anterior, noite que, como quase sempre se prolongara por aquele dia. Aliás tinha estado com ele também no dia anterior a esse e na noite anterior a essa. Nunca tinha havido tão pouco tempo de intervalo nos seus encontros.

Tinha entrado na sala dos 40-50 e deu logo com o nick “Lobo”. Porque razão Nuno frequentava tanto este nível etário? Gostaria mesmo de mulheres mais velhas? A dedicação filial que mostrava em relação à sua mãe seria transferível para as mulheres mais velhas em geral, andaria à procura de “mães”? Precisaria do carinho, afeição e segurança – era isso, segurança – que as mulheres mais velhas sabem dar? Pensava que sim, até porque era isso que a sua mãe já não lhe podia dar. Com a doença de Parkinson estava cada vez mais dependente dele, era ele que se tinha transformado em tutor da sua mãe.

Uma vez tinha-lhe perguntado porque razão não procurava alguém da sua idade com quem tivesse uma relação afectiva estável, que o ajudasse a ancorar a sua vida, a libertar-se um pouco mais das drogas. Com uma prontidão esclarecedora, Nuno respondeu-lhe: “Achas que alguém me quer com a minha mãe às costas?” O que a surpreendeu foi a prontidão da resposta, como se ele já tivesse pensado nesta questão um milhar de vezes e nunca tivesse encontrado outra resposta que não fosse : “ninguém me quer”. Acrescentou ainda que enquanto a sua mãe fosse viva, ele tinha de cuidar dela e não tinha tempo para mais nada. Nuno confessou-lhe a sua indignação quando alguém lhe sugerira que a pusesse num lar.

Sempre considerara aquela dedicação filial comovente e singular num toxicodependente.

Talvez a doença da mãe fosse a “sorte” dele, amarrava-o à vida de todos os dias, obrigava-o ao cumprimento de rotinas que o impediam de outros voos mais perigosos. O tempo de Nuno era ordenado pela coordenada do seu horário profissional, por turnos, e pela coordenada da doença da mãe, o horário da sua ida quase diária à fisioterapia, o horário dos remédios, as horas a que ela costumava acordar, etc. Eram estas coordenadas que impediam que Nuno se soltasse de vez e cumprisse o destino que a vida parecera talhar-lhe.



Das primeiras vezes que estivera com ele, era imediatamente avisada de que ele não podia demorar muito, pois queria, devia, estar em casa quando a mãe acordasse, porque tinha medo que ela caísse quando fosse à casa de banho. E passava a descrever o corredor da sua casa e os incontáveis obstáculos que ela tinha de transpor para chegar sã e salva à casa de banho. No princípio ainda me atrevia a tentar alijar-lhe tal carga de preocupações, chamando-lhe a atenção para o facto de um acidente desse tipo poder ocorrer mesmo que ele estivesse em casa. Nuno não a ouvia, ou o que ela dizia era apenas um estímulo sonoro para passar a descrever o modo como o som se propagava na sua casa. Em suma, ouvia-se tudo e ele parecia estar atento a todos os sons provenientes da mãe e explicava-me, pacientemente, como o tempo que mediava entre a emissão do sinal sonoro da mãe, por exemplo, a tentativa desta para se levantar, e a recepção deste sinal por si lhe dava tempo para acorrer à mãe e ampará-la na travessia de obstáculos até à casa de banho.












Se, por volta das 5h da manhã, estavam juntos, apercebia-se de uma inquietação crescente, era a hora a que a mãe costumava acordar e atravessar o malfadado corredor. Uma vez sugerira-lhe que esvaziasse por completo o corredor, que eliminasse os obstáculos, ideia que pareceu surpreendê-lo desagradavelmente  e passou a falar-lhe dos inúmeros perigos que o próprio piso representava, era escorregadio, traiçoeiro. Resumindo, a casa de Nuno era uma armadilha completa, tudo podia ocasionar um acidente, não valia a pena mudar nada.

A representação que as pessoas podem ter das suas casas…era um tema interessante para pensar.

Ele devia estar lá sempre, mas como não podia, fazia-se acompanhar por esta obsessão, como se a sua preocupação com o bem estar da mãe o redimisse das suas ausências. A energia da coca, temperada pelo torpor em que os charros e a cerveja o colocavam, levavam a que fosse ficando, a que fizessem amor, sim amor – ele insistia em que o que faziam não era sexo, era amor – e a que, de vez em quando, se lembrasse das horas e lhe confidenciasse o terror que se apoderava dele quando pensava que podia estar a acontecer um daqueles incontáveis acidentes que constavam do seu elenco. Se às 8 h ainda estava com ela, recebia muitas vezes um telefonema da mãe e, então, aquietava-se, percebia-se a distensão dos seus músculos, o seu olhar ganhava alguma tranquilidade e, às vezes, até adormecia.

Não percebia porque passava tantas horas com Nuno até fazerem sexo, amor, segundo ele. Não percebia porque o aturava a falar ininterruptamente, a contar-lhe de forma desconexa episódios da vida dele, episódios aparentemente insignificantes, e que se atropelavam uns aos outros, torpedeando as suas tentativas infrutíferas de encontrar um sentido naquele discurso. Apercebia-se da necessidade que ele tinha de falar, apercebia-se da imensa solidão em que este vivia, de uma solidão demasiado ruidosa, como o título de uma obra de  Bohumil Hrabal, Uma Solidão Demasiado Ruidosa ( ed. Afrontamento, Porto, 1992) , que finalmente encontrava algum eco, apercebia-se de que ela representava este eco e que, como tal, ele não estava à espera que ela dissesse alguma coisa.

Ela ouvia-o pacientemente, reconhecia histórias já contadas, antecipava mentalmente as sequências de episódios que se seguiriam no discurso disruptivo de Nuno. Sabia que muito daquilo se devia às linhas de coca snifada sucessivamente. E sabia também que na origem da sua paciência estava a sua vontade de continuar a experimentar coca, de acompanhar as snifadelas dele, de misturar a coca com os charros que este tão habilidosamente fabricava, e de misturar isso tudo com o whisky que bebia liberalmente
durante toda a noite, numa vertigem que só se suspendia quando faziam sexo, amor, segundo Nuno.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

3.  O SEU TOXICODEPENDENTE DE ESTIMAÇÃO





O “Lobo” só se deixava encontrar quando queria. O seu fofinho lindo e jovem que deixou entrar em sua casa, a altas horas da madrugada, sem o conhecer de lado nenhum a não ser do chat do sapo. Não era o primeiro a entrar assim, mas já há muito tempo que isso não acontecia.

Tinha-se afeiçoado ao “Lobo”, nick de Nuno, o seu toxicodependente de estimação. Quando o conheceu pessoalmente nunca lhe passou pela cabeça que fosse drogado. Tinha uma aparência jovem, muito mais jovem até do que a sua idade real, dar-lhe-ia entre 25 e 30 anos. E era bonito, se bem que só mais tarde tivesse reparado bem na sua cara. Deve ter aparecido em sua casa por volta das 3 horas da manhã, hora a que o turno acabava. Se tivesse sido a uma segunda-feira, como mais tarde quase sempre acontecia, o fim do programa da Fátima Ferreira Alves – Prós e Contras era o sinal de que devia começar a preparar-se para o encontro, o “Lobo” aparecia cerca de uma hora mais tarde, sempre depois de lhe ter mandado um sms a perguntar se podia passar em casa dela. Era um passageiro, um passeante, nunca escrevia, por exemplo “posso ir ter contigo?”, usava sempre a palavra passar e as vezes, muito poucas, em que ficou, em que adormeceu e acordou ao lado dela, foram mais determinadas pela exaustão física, soçobrava ao cansaço e…ficava. Não era vontade de estar com ela, se bem que às vezes pensasse que ele também se estava a afeiçoar, que ela representava para ele mais do que um bom “naco de sexo”, expressão que o inefável Afonso uma vez utilizara a seu respeito.

Na segunda ou terceira vez que se encontrara com “Lobo” dera conta de que ele parecia constipado, impressão que se repetiu na vez seguinte, mas era Inverno e isso explicava o constante fungar, as frequentes assoadelas. Numa dessas vezes tinham falado em drogas e ela até lhe dissera que de vez em quando fumava um charrito, que gostava da sensação, embora pudesse passar meses e até anos sem fumar, como já lhe tinha acontecido. Confidenciou também que lhe apetecia imenso experimentar coca, mas nunca tivera oportunidade nem nunca se dispusera a arranjar. Confessou-lhe que agora, vivendo sozinha, tinha dificuldade em arranjar haxixe, ao que o “Lobo” respondeu que se ela quisesse, ele tinha facilidade em arranjar. Lá, no trabalho, disse-lhe ele, havia muita gente que fumava. Este episódio anódino foi mais tarde evocado pelo Nuno como uma prova de que ele julgava que ela já se tinha apercebido da sua dependência de drogas.

A cena das fungadelas repetiu-se na vez seguinte. Estavam sentados, como de costume no sofá branco, a ouvir música, ele tinha-se levantado para ir à casa de banho, demorou-se mais do que o costume e vinha a fungar. Quando se sentou ela reparou que a narina direita não parava de pingar e parecia um pouco inchada. De repente fez-se luz, todas as cenas dos filmes em que vira gente a snifar acorreram no mesmo instante e “desobnubilaram” a sua visão: “Lobo” snifava. Perguntou-lhe sem rodeios se aquilo a que ela chamava constipação era o efeito da coca. Manifestando alguma surpresa por ela ainda não se ter apercebido do facto, Nuno disse-lhe que sim, e que tinha ido à casa de banho snifar umas linhas. Foi nessa altura que ele lhe lembrou a noite em que tinham falado de drogas e que pensou que a conversa dela era intencional, que ela queria-lhe dizer que sabia da sua dependência. Fez menção de se levantar outra vez para ir à casa de banho e ela disse-lhe que era despropositado, que podia fazê-lo ali e que gostava de experimentar. Assistiu então ao ritual, a limpeza da superfície da mesa, por sinal de vidro negro – o que vinha mesmo a calhar como foi percebendo, o recurso ao cartão magnético para desfazer algum grânulo maior e para dividir o montinho de coca, dando origem a três ou quatro linhas alinhadas na perfeição. Procedimento seguinte: enrolar uma nota de forma a ficar com um canudo que se encostava à narina para aspirar a coca de uma linha e de uma só vez, não se devendo parar para expirar, sob pena de se espalhar a coca. Tentou ser uma aluna aplicada e à segunda linha das quatro ou cinco que nessa noite lhe couberam, mais ou menos um terço do que cabia a ele, aspirou a superfície na perfeição e inspirou tão bem que até sentiu a tal impressão na garganta de que Nuno lhe falara e que ele considerava sinal de que o acto tinha sido consumado correctamente. Lol, como se escrevia no chat para dizer riso. E ficou à espera, à espera do efeito.

A sua curiosidade, como sempre, era imensa. A expectativa enorme. Sentia-se viva como nunca quando experimentava alguma coisa nova e, neste caso, era uma coisa que ela há muito queria ter provado e estava na companhia de um expert, com o qual podia ir comentando as diversas e sucessivas sensações que fosse tendo. Quimicomaníaca.

A sua infância e até parte da sua adolescência era uma folha em branco, não se lembrava de quase nada, mas lembrava-se de assaltar assiduamente as gavetas em busca de medicamentos que tomava para sentir o efeito e lembrava-se de como aguardava ansiosamente esse efeito, atenta a qualquer sinal do seu organismo. Refinava essas experiências, lendo as bulas e concentrando a sua atenção nos efeitos nelas mencionados. Ao sábado de manhã, quando os seus pais iam às compras e geralmente se demoravam mais, refugiava-se no seu quarto e ingeria um, dois…ou mais comprimidos, e aguardava em silêncio o que ia acontecer. Conseguia desligar-se do exterior, parecia que o seu corpo era o único objecto ali existente e tentava submergir nele, ouvia as batidas do coração, palpava o pulso, suspendia a respiração muitas vezes para amplificar, assim lhe parecia, os sons do funcionamento do organismo. Entrava dentro do seu corpo, seguia o rasto do seu sangue nas veias, seguia as golfadas de ar que, de vez em quando, se permitia inspirar, ouvia os murmúrios dos seus órgãos, escutava o batimento do seu ser. E, quase sempre, ficava decepcionada. Os efeitos, anunciados nas bulas, não se manifestavam. O insucesso não a fazia parar, como ainda agora não a faz parar.

Da sua primeira experiência com coca não reza nada a história. Esperava energia, acréscimo de lucidez, velocidade mental, perda de apetite…o que lhe daria imenso jeito, seria mesmo dos efeitos mais desejados…e nada. Ainda brincou com o Nuno, dizendo-lhe que talvez tivesse inalado farinha e não coca, que se calhar ele tinha sido aldrabado, mas olhando-o percebia-se bem que ele não tinha snifado farinha.