sequelas

sexta-feira, 1 de julho de 2011

3.  O SEU TOXICODEPENDENTE DE ESTIMAÇÃO





O “Lobo” só se deixava encontrar quando queria. O seu fofinho lindo e jovem que deixou entrar em sua casa, a altas horas da madrugada, sem o conhecer de lado nenhum a não ser do chat do sapo. Não era o primeiro a entrar assim, mas já há muito tempo que isso não acontecia.

Tinha-se afeiçoado ao “Lobo”, nick de Nuno, o seu toxicodependente de estimação. Quando o conheceu pessoalmente nunca lhe passou pela cabeça que fosse drogado. Tinha uma aparência jovem, muito mais jovem até do que a sua idade real, dar-lhe-ia entre 25 e 30 anos. E era bonito, se bem que só mais tarde tivesse reparado bem na sua cara. Deve ter aparecido em sua casa por volta das 3 horas da manhã, hora a que o turno acabava. Se tivesse sido a uma segunda-feira, como mais tarde quase sempre acontecia, o fim do programa da Fátima Ferreira Alves – Prós e Contras era o sinal de que devia começar a preparar-se para o encontro, o “Lobo” aparecia cerca de uma hora mais tarde, sempre depois de lhe ter mandado um sms a perguntar se podia passar em casa dela. Era um passageiro, um passeante, nunca escrevia, por exemplo “posso ir ter contigo?”, usava sempre a palavra passar e as vezes, muito poucas, em que ficou, em que adormeceu e acordou ao lado dela, foram mais determinadas pela exaustão física, soçobrava ao cansaço e…ficava. Não era vontade de estar com ela, se bem que às vezes pensasse que ele também se estava a afeiçoar, que ela representava para ele mais do que um bom “naco de sexo”, expressão que o inefável Afonso uma vez utilizara a seu respeito.

Na segunda ou terceira vez que se encontrara com “Lobo” dera conta de que ele parecia constipado, impressão que se repetiu na vez seguinte, mas era Inverno e isso explicava o constante fungar, as frequentes assoadelas. Numa dessas vezes tinham falado em drogas e ela até lhe dissera que de vez em quando fumava um charrito, que gostava da sensação, embora pudesse passar meses e até anos sem fumar, como já lhe tinha acontecido. Confidenciou também que lhe apetecia imenso experimentar coca, mas nunca tivera oportunidade nem nunca se dispusera a arranjar. Confessou-lhe que agora, vivendo sozinha, tinha dificuldade em arranjar haxixe, ao que o “Lobo” respondeu que se ela quisesse, ele tinha facilidade em arranjar. Lá, no trabalho, disse-lhe ele, havia muita gente que fumava. Este episódio anódino foi mais tarde evocado pelo Nuno como uma prova de que ele julgava que ela já se tinha apercebido da sua dependência de drogas.

A cena das fungadelas repetiu-se na vez seguinte. Estavam sentados, como de costume no sofá branco, a ouvir música, ele tinha-se levantado para ir à casa de banho, demorou-se mais do que o costume e vinha a fungar. Quando se sentou ela reparou que a narina direita não parava de pingar e parecia um pouco inchada. De repente fez-se luz, todas as cenas dos filmes em que vira gente a snifar acorreram no mesmo instante e “desobnubilaram” a sua visão: “Lobo” snifava. Perguntou-lhe sem rodeios se aquilo a que ela chamava constipação era o efeito da coca. Manifestando alguma surpresa por ela ainda não se ter apercebido do facto, Nuno disse-lhe que sim, e que tinha ido à casa de banho snifar umas linhas. Foi nessa altura que ele lhe lembrou a noite em que tinham falado de drogas e que pensou que a conversa dela era intencional, que ela queria-lhe dizer que sabia da sua dependência. Fez menção de se levantar outra vez para ir à casa de banho e ela disse-lhe que era despropositado, que podia fazê-lo ali e que gostava de experimentar. Assistiu então ao ritual, a limpeza da superfície da mesa, por sinal de vidro negro – o que vinha mesmo a calhar como foi percebendo, o recurso ao cartão magnético para desfazer algum grânulo maior e para dividir o montinho de coca, dando origem a três ou quatro linhas alinhadas na perfeição. Procedimento seguinte: enrolar uma nota de forma a ficar com um canudo que se encostava à narina para aspirar a coca de uma linha e de uma só vez, não se devendo parar para expirar, sob pena de se espalhar a coca. Tentou ser uma aluna aplicada e à segunda linha das quatro ou cinco que nessa noite lhe couberam, mais ou menos um terço do que cabia a ele, aspirou a superfície na perfeição e inspirou tão bem que até sentiu a tal impressão na garganta de que Nuno lhe falara e que ele considerava sinal de que o acto tinha sido consumado correctamente. Lol, como se escrevia no chat para dizer riso. E ficou à espera, à espera do efeito.

A sua curiosidade, como sempre, era imensa. A expectativa enorme. Sentia-se viva como nunca quando experimentava alguma coisa nova e, neste caso, era uma coisa que ela há muito queria ter provado e estava na companhia de um expert, com o qual podia ir comentando as diversas e sucessivas sensações que fosse tendo. Quimicomaníaca.

A sua infância e até parte da sua adolescência era uma folha em branco, não se lembrava de quase nada, mas lembrava-se de assaltar assiduamente as gavetas em busca de medicamentos que tomava para sentir o efeito e lembrava-se de como aguardava ansiosamente esse efeito, atenta a qualquer sinal do seu organismo. Refinava essas experiências, lendo as bulas e concentrando a sua atenção nos efeitos nelas mencionados. Ao sábado de manhã, quando os seus pais iam às compras e geralmente se demoravam mais, refugiava-se no seu quarto e ingeria um, dois…ou mais comprimidos, e aguardava em silêncio o que ia acontecer. Conseguia desligar-se do exterior, parecia que o seu corpo era o único objecto ali existente e tentava submergir nele, ouvia as batidas do coração, palpava o pulso, suspendia a respiração muitas vezes para amplificar, assim lhe parecia, os sons do funcionamento do organismo. Entrava dentro do seu corpo, seguia o rasto do seu sangue nas veias, seguia as golfadas de ar que, de vez em quando, se permitia inspirar, ouvia os murmúrios dos seus órgãos, escutava o batimento do seu ser. E, quase sempre, ficava decepcionada. Os efeitos, anunciados nas bulas, não se manifestavam. O insucesso não a fazia parar, como ainda agora não a faz parar.

Da sua primeira experiência com coca não reza nada a história. Esperava energia, acréscimo de lucidez, velocidade mental, perda de apetite…o que lhe daria imenso jeito, seria mesmo dos efeitos mais desejados…e nada. Ainda brincou com o Nuno, dizendo-lhe que talvez tivesse inalado farinha e não coca, que se calhar ele tinha sido aldrabado, mas olhando-o percebia-se bem que ele não tinha snifado farinha.


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