sequelas

terça-feira, 25 de outubro de 2011

4. OS CLUBES DE ENCONTROS…SEXUAIS

4.1 A redução do acaso

Naquela segunda feira de manhã, manhã de muitas decisões, algumas preparadas durante a noite, decidira telefonar ao “riviera”, nick que conhecera num site de encontros – adultfriendfinder – ao qual fora parar por acaso. Tinham-na persuadido a inscrever-se num desses sites que proliferavam na net, todos muito semelhantes em ambas as colunas: benefícios e custos. Visitara-os algumas vezes, mas sempre pensara que não apresentavam grande vantagem em relação aos chats que conhecia. A amiga que ela iniciara na net tinha-se tornado adepta do msn paquera, onde se tinha inscrito com uma bela fotografia - que fora ela a tirar - que estava a funcionar como um chamariz de sucesso para conhecer pessoas e marcar encontros. Tinha sido ultrapassada em toda a linha pela sua pupila. Esta insistia na vantagem da redução do acaso que aqueles sites proporcionavam. As pessoas forneciam dados pessoais, entre eles o relativo ao seu estado civil, escreviam o seu perfil e, muitas vezes editavam a sua fotografia. Claro que todas essas informações e a própria fotografia podiam ser falsas, mas havia sempre uma diminuição considerável da incerteza.



Continuava a considerar que o acaso representava uma das dimensões mais interessantes dos contactos e encontros via net. Mas também admitia que se se procurava um relacionamento mais sério, mais duradouro, estes sites constituíam uma plataforma de partida mais segura e eventualmente mais promissora dos que os encontros cegos, ou quase, saídos dos chats. Na verdade ainda não se tinha inscrito no msn paquera porque não tinha uma fotografia à altura. A que habitualmente mandava a alguém mais insistente no pedido de fotografia, tinha já vários anos e, embora não estivesse mal e os seus traços continuassem reconhecíveis, achava que devia ter uma fotografia que fizesse jus não só ao seu rosto, a outra também fazia, mas ao seu ar. Embora com um rosto mais gordo e mais pesado, tinha agora, pensava ela, um ar interessante e sensual que devia cativar quem a olhasse. Como não tinha a fotografia não se inscrevera no msn paquera.





Todavia, tinha-se inscrito no adultfrienfinder, sem fotografia. Embora tivesse vindo parar aqui por acaso, já que a intenção era inscrever-se no Clube da Amizade, deu-se conta que raras eram as pessoas que neste site tinham fotos e, apeteceu-lhe fazer o exercício de escrever o seu perfil. Não gostava nada da página de abertura do adult…, as fotos que lá apareciam eram quase todas de órgãos genitais, masculinos e femininos, o que não dava nenhum jeito quando se abria o site na presença de alguém. Trabalhou na escrita daquele perfil, queria um texto sucinto que a retratasse física e intelectualmente e que estivesse suficientemente perto da verdade para ela própria se reconhecer nele.


O nick riviera, fora um dos muitos que a contactaram no adult, onde o seu perfil tinha sido deveras apreciado. Tinha-se dado ao trabalho de responder a todos aqueles que se tinham debruçado sobre o texto de apresentação do seu perfil, agradecendo as palavras gentis que lhe dirigiam. Mas só denunciou o seu interesse em teclar com três pessoas. Uma delas chamou-lhe a atenção pelas considerações certeiras e bem humoradas que fizera a propósito do seu perfil, também pelo facto de escrever escorreitamente e ainda pelo nick: “Giotto”. Este devia interessar-se por arte. Adicionou-o ao seu msn e pouco tempo depois falava com o “Giotto”, agora “riviera”. Conversaram sempre pouco e nada de muito revelador. Marcaram um encontro, adiado sucessivas vezes, ora por impossibilidade, melhor, falta de vontade dela, ora por impossibilidade ou falta de vontade dele.


Naquela segunda feira de manhã tinha decidido telefonar-lhe e perguntar-lhe se queria almoçar com ela. Ele tinha sempre proposto almoço. Para essa decisão contribuíra a fotografia que ele lhe tinha enviado. Tirada em Lanzarote, como ele a informara, valia, dissera ele, sobretudo pela expressão, já que só se viam 2/3 da cara devido à interposição muito inoportuna de um camelo. Estava para lhe telefonar quando ele ficou online no msn.


Malte diz:
olá, estava à procura do teu número para te telefonar

riviera diz:
Tudo bem ..... vim ao computador por acaso! .....Toma nota: .......


Malte diz:
ok, já tomei


Malte diz:
queres almoçar?


riviera diz:
Hoje e amanhã não posso, mas fazemos o seguinte: dou-te um toque durante a semana


Malte diz:
gostei muito da tua fotografia, é pena que se visse mal o camelo lol


riviera diz:
Não sei porque pois raramente acontece eu gostar de uma foto minha !? ....... mas gostei da expressão naquela foto ! ...... acho que foi muito espontânea ! ...... deve ter sido por estar de férias ! O sacana do camelo é que escusava de se meter à frente!!


Malte diz:
fiquei com a impressão que eras alto, magro, com olhos muito bonitos e cabelo encaracolado...enfim ...muito charmoso


riviera diz:
Já estou a corar !!!!! .......mas a descrição é essa ....... olhos verdes ......


Malte diz:
digo-te isto tudo para te dizer tb, que neste momento represento um vivo contraste em relação a ti ...e talvez seja melhor veres-me daqui a algum tempo...lol


riviera diz:
Então porque ?


Malte diz:
como deves ter percebido pelo perfil sou muito frontal e queria avisar-te do seguinte: acho que sou gira, blá blá blá...mas estou GORDA...pode ser que consiga ficar mais aceitável daqui a algum tempo...lol


Malte diz:
a propósito já saí daquele site....sempre que abria a página principal...lá estavam eles...os orgãos genitais masculinos e femininos escarrapachados...passei algumas vergonhas...quando estava gente ao pé de mim


riviera diz:
Não é só o aspecto físico que conta !! .....a nossa sociedade vive um pouco "espartilhada" com esse conceito ! ........ envia-me uma foto tua por mail .......


Malte diz:
envio, mas também podes ver-me na cam


riviera diz:
Sabes que a maior parte dos contactos que estabeleci, eliminei-os, pois apercebi-me pela escrita que não interessavam !!!! ....... não tenho cam ... sorry .....


Malte diz:
ok, então envio foto e tu pões mais uns cinco anos em cima..ok?


riviera diz:
ok ! ..... no problem !! ......


Malte diz:
all right


riviera diz:
Fica então combinado ....... dou-te um toque entretanto ...... Kisses










A decisão de telefonar ao “riviera” estava de algum modo associada à roupa que vestira hoje de manhã. Não era roupa nova, nem nada que se parecesse. Com excepção dos sapatos era a roupa que tinha vestido há mais de um ano atrás, quando saíra uma manhã de casa de mão dada com o marroquino. Vestia de preto, como quase sempre, mas tinha uma camisola verde, um verde quase impossível, entre o verde mar e o verde lima, um verde que pouca gente ousaria vestir porque pouca gente saberia que aquele verde tinha de ser temperado por mais uns dois ou três pontos de verde no conjunto. E isso ela sabia-o fazer como poucas. Um anel da mesma cor, uns brincos que combinavam aquele verde com um outro tom de verde, o verde menta, e dois broches pequenos, de cerâmica vidrada, também em tons de verde, predominando o verde musgo, a que se juntava um salpico de um tom fúcsia ou cereja do Fundão, como o seu cabeleireiro chamava ao tom de algumas madeixas do seu cabelo, constituíam um conjunto que lhe ficava bem, não tão bem como no ano anterior, em que o seu estômago e as suas ancas teriam menos cinco ou sete centímetros. Nessa altura, Achmed tinha-lhe dito que ela estava muito bonita, que aquele verde surpreendente lhe ficava muito bem. Dissera-lhe isso em francês e aquela frase ainda hoje ecoava nos seus ouvidos, não por ser em francês, ou talvez também fosse, mas por vir de alguém com quem ela fizera amor, depois de 7 ou 8 anos de abstinência.


Alguém que agora parecia coleccionar homens tinha estado 7 ou 8 anos sem sexo! Se se esforçasse conseguiria saber ao certo quantos anos e meses durara a sua abstinência.


Talvez para compensar os cinco ou sete centímetros de volume a mais, tinha aperfeiçoado aquele conjunto com mais um toque, um toque subtil no calçado. Aquele conjunto ficava bem com uns sapatos verdes, nunca encontrara o tom certo. E, como em relação a muitas outras coisas, se não encontrava o que queria, tinha de o fabricar ela própria. Eram quatro e meia da manhã, estava ela na cozinha a pintar, com tinta própria para tecido, duas figuras ovais num tom semelhante ao da camisola nuns sapatos de pano cujo fundo era verde alface. Este era um tom incompatível com o outro verde, a não ser que fosse temperado por uma pitada daquela outra tonalidade, depois circundada por uns laivos de cereja do fundão e um quase nada de laranja. Ficou bem. Talvez conseguisse que os olhares, o olhar do “riviera”, se desviasse do seu estômago e descesse aos sapatos.
O poder dos sapatos verdes:
















































ahahahah                                        LOL  LOL    ..... LOL   .........                         rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs


terça-feira, 20 de setembro de 2011

3.2 À procura de Nuno no aeiou







Entrou naquela sala, onde estava o Nuno, com o nick aventureira e sabia que ele a ia chamar. Sabia que o nick dele não era nada invulgar, mas teve rapidamente a confirmação de que por detrás do nick estava a pessoa que ela conhecia. O “Lobo” não entrava a matar, não começava logo com alusões sexuais, o que o distinguia da maioria. Sabia que ele ia dizer que também era aventureiro, sabia o que dizer-lhe para ele sentir que encontrara uma alma gémea, e sabia que esta afinidade lhe era tão grata, que ele precisava tanto disso que rapidamente lhe iria propor que fossem para uma sala privada. Era tudo tão previsível. Na sala privada, ela insistia em falar de aventura em termos gerais, desviava a conversa do “Lobo”, dirigida a indagar a circunstância em que ela se encontrava e a avaliar as probalidades de ter uma aventura sexual, falando da experiência dos limites, dos limites mentais, da adrenalina que gostava de sentir, de como isso a fazia sentir viva. Sabia que ele não entenderia metade do que ela estava a dizer, mas seria sensível à afinidade electiva que perpassaria no seu discurso, que ele se sentiria seu semelhante. O “Lobo” propôs-lhe aquilo que ela previa: uma aventura, sem a qualificar, mas também não era preciso. E, subitamente, ficou sozinha na sala privada, “Lobo” tinha saído. Só percebeu isso passado algum tempo e ficou irritada, mesmo muito irritada. Teria ele percebido quem ela era, talvez subestimasse a inteligência de Nuno. Ou, provavelmente, o serviço reclamara a presença dele e este tivera de abandonar o chat sem mais. Entrou e saiu de várias salas e nada de “Lobo”. Irritada, enviou-lhe um sms: “ acabei de teclar contigo. Bjs”


Deixou passar algum tempo e voltou a entrar na sala dos 40-50 com um nick completamente anódino, na esperança de voltar a encontrar o “Lobo” e de assistir à conversa deste com alguém. A velocidade com que Nuno a convidara para uma aventura não a surpreendera, mas não deixara de a incomodar. Não queria conversar com o “Lobo”, queria assistir a uma conversa deste e confirmar o que previa ser o rumo da conversa, queria confirmar as suas suspeitas.

Nas sua conversas de cama, e sem que ela perguntasse nada, Nuno fazia passar a ideia de que não andava com mais ninguém, de que a última vez que tinha feito amor tinha sido com ela e vinha repetindo isso nas últimas vezes que tinha estado com ela, não sem lhe lembrar que ela até já lhe tinha dito uma vez que tinha estado com outra pessoa. Não levava nada disto muito a sério, não porque pensasse que era mentira, mas porque lhe cheirava a inverosimilhança. Nuno, para todos os efeitos, era giro, parecia muito mais novo do que a idade que tinha, às vezes não lhe daria mais de 26 ou 27 anos, trabalhava num meio que lhe parecia propício a aventuras sexuais, ainda por cima com os turnos nocturnos que fazia. E, não se esquecia, ela era gorda, obesa….

Deparou com o nick “aventureiro” em animada conversa com uma nickada “sozinha”. Aí estava um nick que ela nunca escolheria, mas que era bem possível que ele pensasse que podia ser ela. De facto era sozinha e Nuno não era dado a grandes elucubrações mentais, ser-lhe-ia difícil perceber a diferença entre a realidade e a representação da realidade. O rumo que a conversa tinha tomado, com a sozinha a dizer que o aventureiro era muito querido e que estava ansiosa por conhecê-lo, indiciava a passagem rápida a uma sala privada. O aventureiro ia dizendo que estava quase a sair do trabalho, mais um sinal de que era Nuno, que ia sair à meia noite, como nessa manhã lhe comunicara. Queria saber o nome da sala privada para onde aqueles dois iriam, mesmo sabendo que não os iria seguir, embora o pudesse fazer. Mas não faria isso, sentia algum pudor. O nome da sala apareceu em seguida: fofa. Saiu do chat. Nuno provavelmente iria ter companhia nessa noite e não seria ela. Sentiu-se de facto incomodada, não tanto pela infidelidade dele, o contrário é que constituiria uma surpresa, mas por ele ter sentido a necessidade de lhe mentir. Ela nem sequer lhe perguntara nada, porque é que ele havia de ter vindo com aquela conversa de não estar com mais ninguém a não ser ela.

Não resistiu a entrar de novo no chat aeiou e a voltar à sala dos 40-50. Ainda eram 23h e pouco, e mesmo que Nuno já tivesse a noite preenchida, aproveitaria para teclar um pouco mais.

Tinha já constatado o quanto Nuno gostava de passear pelas salas do aeiou, mais do que gostar, ele de há uns tempos para cá nunca deixava de lhe pedir para teclar um pouco quando estava na casa dela. Se, ao princípio, ela achava isso divertido e até era sua cúmplice na escolha do nick com que ele entrava e nas frases que escreviam, às vezes, os dois em conjunto, começava a aborrecer-se com a dependência que ele manifestava em relação ao teclanço. Gastava nisso imenso tempo, tempo que lhe era roubado, tempo que era roubado ao acto sexual.

Entrou na sala com um nick que o Nuno, se lá estivesse, tinha de reconhecer imediatamente e ele estava lá quase de certeza. Antes de ter entrado viu na lista dos nomes o nick gato e pressentiu que era ele. A aventureira_46 foi imediatamente obsequiada com um olá do gato e soube que era ele. Ela conhecia-o tão bem, mais do que ela própria suspeitara. Ele teclava como se não a conhecesse, fazendo as perguntas do costume, donde teclava, que idade tinha, insistindo em saber a zona onde morava. A sua irritação foi crescendo, foi-lhe fazendo perguntas ao mesmo tempo que dava as respostas por ele, denunciando que sabia quem ele era. A certa altura foi mais longe e, ainda na sala pública, escreveu a equação sem incógnita: “Lobo”=aventureiro=gato. Ele não se deu por achado e convidou-a para uma sala privada, dizendo-lhe que já tinha muito pouco tempo, mas que queria falar com ela. Pensou que ele assumisse quem era em privado. E foi.

Na sala privada, “Lobo” continuou a jogar, perguntando-lhe o que fazia, onde morava, etc., e não respondendo às suas perguntas, atreveu-se a pedir-lhe o email, e o número de telemóvel. Ela deu-lhe o email, deu-lhe o telemóvel, perguntando-lhe para que queria ele o seu número, e chamou-o pelo seu nome – Nuno. Respondeu-lhe que queria almoçar com ela, que a queria conhecer melhor. Não pode deixar de rir, almoçar com Nuno era inimaginável, aliás era inimaginável fazer com ele alguma coisa normal, com excepção de sexo. Até as conversas com ele, em sua casa, não eram normais, aliás, não havia conversa, havia monólogos interrompidos em surdina e de quando em vez por ela, com uma ou outra interjeição ou sinal de assentimento, só para ele perceber que ela ainda ali estava.

Depois do convite para o almoço, ainda lhe perguntou: “ e há coca?”, no que julgou ser uma provocação que não ia ficar sem resposta. Mas ficou, apercebeu-se de que, mais uma vez, ele a deixara sozinha na sala.

Este abandono causava-lhe um sentimento que já não se confundia com a sensação de incómodo, estava magoada e tomou a decisão de não falar mais com Nuno, rapidamente convertida em decisão de não ser ela a mandar-lhe sms . Era pouco, tinha de ser um pouco mais dura, acrescentou a esta última decisão a adenda de também não responder aos sms dele por uns tempos.






às vezes, uma chatice!
outras vezes, a possibilidade de um encontro singular...

tem dias....

quinta-feira, 7 de julho de 2011

3.1 Nuno e a mãe



Eram talvez 22h e 30m quando encontrou “Lobo”=Nuno no chat do aeiou. Tinha estado com ele na noite anterior, noite que, como quase sempre se prolongara por aquele dia. Aliás tinha estado com ele também no dia anterior a esse e na noite anterior a essa. Nunca tinha havido tão pouco tempo de intervalo nos seus encontros.

Tinha entrado na sala dos 40-50 e deu logo com o nick “Lobo”. Porque razão Nuno frequentava tanto este nível etário? Gostaria mesmo de mulheres mais velhas? A dedicação filial que mostrava em relação à sua mãe seria transferível para as mulheres mais velhas em geral, andaria à procura de “mães”? Precisaria do carinho, afeição e segurança – era isso, segurança – que as mulheres mais velhas sabem dar? Pensava que sim, até porque era isso que a sua mãe já não lhe podia dar. Com a doença de Parkinson estava cada vez mais dependente dele, era ele que se tinha transformado em tutor da sua mãe.

Uma vez tinha-lhe perguntado porque razão não procurava alguém da sua idade com quem tivesse uma relação afectiva estável, que o ajudasse a ancorar a sua vida, a libertar-se um pouco mais das drogas. Com uma prontidão esclarecedora, Nuno respondeu-lhe: “Achas que alguém me quer com a minha mãe às costas?” O que a surpreendeu foi a prontidão da resposta, como se ele já tivesse pensado nesta questão um milhar de vezes e nunca tivesse encontrado outra resposta que não fosse : “ninguém me quer”. Acrescentou ainda que enquanto a sua mãe fosse viva, ele tinha de cuidar dela e não tinha tempo para mais nada. Nuno confessou-lhe a sua indignação quando alguém lhe sugerira que a pusesse num lar.

Sempre considerara aquela dedicação filial comovente e singular num toxicodependente.

Talvez a doença da mãe fosse a “sorte” dele, amarrava-o à vida de todos os dias, obrigava-o ao cumprimento de rotinas que o impediam de outros voos mais perigosos. O tempo de Nuno era ordenado pela coordenada do seu horário profissional, por turnos, e pela coordenada da doença da mãe, o horário da sua ida quase diária à fisioterapia, o horário dos remédios, as horas a que ela costumava acordar, etc. Eram estas coordenadas que impediam que Nuno se soltasse de vez e cumprisse o destino que a vida parecera talhar-lhe.



Das primeiras vezes que estivera com ele, era imediatamente avisada de que ele não podia demorar muito, pois queria, devia, estar em casa quando a mãe acordasse, porque tinha medo que ela caísse quando fosse à casa de banho. E passava a descrever o corredor da sua casa e os incontáveis obstáculos que ela tinha de transpor para chegar sã e salva à casa de banho. No princípio ainda me atrevia a tentar alijar-lhe tal carga de preocupações, chamando-lhe a atenção para o facto de um acidente desse tipo poder ocorrer mesmo que ele estivesse em casa. Nuno não a ouvia, ou o que ela dizia era apenas um estímulo sonoro para passar a descrever o modo como o som se propagava na sua casa. Em suma, ouvia-se tudo e ele parecia estar atento a todos os sons provenientes da mãe e explicava-me, pacientemente, como o tempo que mediava entre a emissão do sinal sonoro da mãe, por exemplo, a tentativa desta para se levantar, e a recepção deste sinal por si lhe dava tempo para acorrer à mãe e ampará-la na travessia de obstáculos até à casa de banho.












Se, por volta das 5h da manhã, estavam juntos, apercebia-se de uma inquietação crescente, era a hora a que a mãe costumava acordar e atravessar o malfadado corredor. Uma vez sugerira-lhe que esvaziasse por completo o corredor, que eliminasse os obstáculos, ideia que pareceu surpreendê-lo desagradavelmente  e passou a falar-lhe dos inúmeros perigos que o próprio piso representava, era escorregadio, traiçoeiro. Resumindo, a casa de Nuno era uma armadilha completa, tudo podia ocasionar um acidente, não valia a pena mudar nada.

A representação que as pessoas podem ter das suas casas…era um tema interessante para pensar.

Ele devia estar lá sempre, mas como não podia, fazia-se acompanhar por esta obsessão, como se a sua preocupação com o bem estar da mãe o redimisse das suas ausências. A energia da coca, temperada pelo torpor em que os charros e a cerveja o colocavam, levavam a que fosse ficando, a que fizessem amor, sim amor – ele insistia em que o que faziam não era sexo, era amor – e a que, de vez em quando, se lembrasse das horas e lhe confidenciasse o terror que se apoderava dele quando pensava que podia estar a acontecer um daqueles incontáveis acidentes que constavam do seu elenco. Se às 8 h ainda estava com ela, recebia muitas vezes um telefonema da mãe e, então, aquietava-se, percebia-se a distensão dos seus músculos, o seu olhar ganhava alguma tranquilidade e, às vezes, até adormecia.

Não percebia porque passava tantas horas com Nuno até fazerem sexo, amor, segundo ele. Não percebia porque o aturava a falar ininterruptamente, a contar-lhe de forma desconexa episódios da vida dele, episódios aparentemente insignificantes, e que se atropelavam uns aos outros, torpedeando as suas tentativas infrutíferas de encontrar um sentido naquele discurso. Apercebia-se da necessidade que ele tinha de falar, apercebia-se da imensa solidão em que este vivia, de uma solidão demasiado ruidosa, como o título de uma obra de  Bohumil Hrabal, Uma Solidão Demasiado Ruidosa ( ed. Afrontamento, Porto, 1992) , que finalmente encontrava algum eco, apercebia-se de que ela representava este eco e que, como tal, ele não estava à espera que ela dissesse alguma coisa.

Ela ouvia-o pacientemente, reconhecia histórias já contadas, antecipava mentalmente as sequências de episódios que se seguiriam no discurso disruptivo de Nuno. Sabia que muito daquilo se devia às linhas de coca snifada sucessivamente. E sabia também que na origem da sua paciência estava a sua vontade de continuar a experimentar coca, de acompanhar as snifadelas dele, de misturar a coca com os charros que este tão habilidosamente fabricava, e de misturar isso tudo com o whisky que bebia liberalmente
durante toda a noite, numa vertigem que só se suspendia quando faziam sexo, amor, segundo Nuno.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

3.  O SEU TOXICODEPENDENTE DE ESTIMAÇÃO





O “Lobo” só se deixava encontrar quando queria. O seu fofinho lindo e jovem que deixou entrar em sua casa, a altas horas da madrugada, sem o conhecer de lado nenhum a não ser do chat do sapo. Não era o primeiro a entrar assim, mas já há muito tempo que isso não acontecia.

Tinha-se afeiçoado ao “Lobo”, nick de Nuno, o seu toxicodependente de estimação. Quando o conheceu pessoalmente nunca lhe passou pela cabeça que fosse drogado. Tinha uma aparência jovem, muito mais jovem até do que a sua idade real, dar-lhe-ia entre 25 e 30 anos. E era bonito, se bem que só mais tarde tivesse reparado bem na sua cara. Deve ter aparecido em sua casa por volta das 3 horas da manhã, hora a que o turno acabava. Se tivesse sido a uma segunda-feira, como mais tarde quase sempre acontecia, o fim do programa da Fátima Ferreira Alves – Prós e Contras era o sinal de que devia começar a preparar-se para o encontro, o “Lobo” aparecia cerca de uma hora mais tarde, sempre depois de lhe ter mandado um sms a perguntar se podia passar em casa dela. Era um passageiro, um passeante, nunca escrevia, por exemplo “posso ir ter contigo?”, usava sempre a palavra passar e as vezes, muito poucas, em que ficou, em que adormeceu e acordou ao lado dela, foram mais determinadas pela exaustão física, soçobrava ao cansaço e…ficava. Não era vontade de estar com ela, se bem que às vezes pensasse que ele também se estava a afeiçoar, que ela representava para ele mais do que um bom “naco de sexo”, expressão que o inefável Afonso uma vez utilizara a seu respeito.

Na segunda ou terceira vez que se encontrara com “Lobo” dera conta de que ele parecia constipado, impressão que se repetiu na vez seguinte, mas era Inverno e isso explicava o constante fungar, as frequentes assoadelas. Numa dessas vezes tinham falado em drogas e ela até lhe dissera que de vez em quando fumava um charrito, que gostava da sensação, embora pudesse passar meses e até anos sem fumar, como já lhe tinha acontecido. Confidenciou também que lhe apetecia imenso experimentar coca, mas nunca tivera oportunidade nem nunca se dispusera a arranjar. Confessou-lhe que agora, vivendo sozinha, tinha dificuldade em arranjar haxixe, ao que o “Lobo” respondeu que se ela quisesse, ele tinha facilidade em arranjar. Lá, no trabalho, disse-lhe ele, havia muita gente que fumava. Este episódio anódino foi mais tarde evocado pelo Nuno como uma prova de que ele julgava que ela já se tinha apercebido da sua dependência de drogas.

A cena das fungadelas repetiu-se na vez seguinte. Estavam sentados, como de costume no sofá branco, a ouvir música, ele tinha-se levantado para ir à casa de banho, demorou-se mais do que o costume e vinha a fungar. Quando se sentou ela reparou que a narina direita não parava de pingar e parecia um pouco inchada. De repente fez-se luz, todas as cenas dos filmes em que vira gente a snifar acorreram no mesmo instante e “desobnubilaram” a sua visão: “Lobo” snifava. Perguntou-lhe sem rodeios se aquilo a que ela chamava constipação era o efeito da coca. Manifestando alguma surpresa por ela ainda não se ter apercebido do facto, Nuno disse-lhe que sim, e que tinha ido à casa de banho snifar umas linhas. Foi nessa altura que ele lhe lembrou a noite em que tinham falado de drogas e que pensou que a conversa dela era intencional, que ela queria-lhe dizer que sabia da sua dependência. Fez menção de se levantar outra vez para ir à casa de banho e ela disse-lhe que era despropositado, que podia fazê-lo ali e que gostava de experimentar. Assistiu então ao ritual, a limpeza da superfície da mesa, por sinal de vidro negro – o que vinha mesmo a calhar como foi percebendo, o recurso ao cartão magnético para desfazer algum grânulo maior e para dividir o montinho de coca, dando origem a três ou quatro linhas alinhadas na perfeição. Procedimento seguinte: enrolar uma nota de forma a ficar com um canudo que se encostava à narina para aspirar a coca de uma linha e de uma só vez, não se devendo parar para expirar, sob pena de se espalhar a coca. Tentou ser uma aluna aplicada e à segunda linha das quatro ou cinco que nessa noite lhe couberam, mais ou menos um terço do que cabia a ele, aspirou a superfície na perfeição e inspirou tão bem que até sentiu a tal impressão na garganta de que Nuno lhe falara e que ele considerava sinal de que o acto tinha sido consumado correctamente. Lol, como se escrevia no chat para dizer riso. E ficou à espera, à espera do efeito.

A sua curiosidade, como sempre, era imensa. A expectativa enorme. Sentia-se viva como nunca quando experimentava alguma coisa nova e, neste caso, era uma coisa que ela há muito queria ter provado e estava na companhia de um expert, com o qual podia ir comentando as diversas e sucessivas sensações que fosse tendo. Quimicomaníaca.

A sua infância e até parte da sua adolescência era uma folha em branco, não se lembrava de quase nada, mas lembrava-se de assaltar assiduamente as gavetas em busca de medicamentos que tomava para sentir o efeito e lembrava-se de como aguardava ansiosamente esse efeito, atenta a qualquer sinal do seu organismo. Refinava essas experiências, lendo as bulas e concentrando a sua atenção nos efeitos nelas mencionados. Ao sábado de manhã, quando os seus pais iam às compras e geralmente se demoravam mais, refugiava-se no seu quarto e ingeria um, dois…ou mais comprimidos, e aguardava em silêncio o que ia acontecer. Conseguia desligar-se do exterior, parecia que o seu corpo era o único objecto ali existente e tentava submergir nele, ouvia as batidas do coração, palpava o pulso, suspendia a respiração muitas vezes para amplificar, assim lhe parecia, os sons do funcionamento do organismo. Entrava dentro do seu corpo, seguia o rasto do seu sangue nas veias, seguia as golfadas de ar que, de vez em quando, se permitia inspirar, ouvia os murmúrios dos seus órgãos, escutava o batimento do seu ser. E, quase sempre, ficava decepcionada. Os efeitos, anunciados nas bulas, não se manifestavam. O insucesso não a fazia parar, como ainda agora não a faz parar.

Da sua primeira experiência com coca não reza nada a história. Esperava energia, acréscimo de lucidez, velocidade mental, perda de apetite…o que lhe daria imenso jeito, seria mesmo dos efeitos mais desejados…e nada. Ainda brincou com o Nuno, dizendo-lhe que talvez tivesse inalado farinha e não coca, que se calhar ele tinha sido aldrabado, mas olhando-o percebia-se bem que ele não tinha snifado farinha.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

2.4  E gorda…



Mais um a chamar-lhe gorda. O Luís, pau de virar tripas, um certo ar distinto que advinha dos seus olhos azul-acinzentados, do seu cabelo aloirado, e do seu ar macilento, distinção seriamente posta em causa pela sua maneira de vestir, não descuidada mas cuidada com a roupa dos chineses, atrevera-se a perguntar-lhe se ela não queria fazer nada para emagrecer. Acrescentara rapidamente que, como ela sabia, ele não se importava com isso. Esta reparação tinha sido tardia, o golpezito já fora desferido.



Em vez de se insinuar levando-o a desejá-la e a propor-lhe que se encontrassem - estratégia que dominava cada vez melhor, embora não fosse igualmente bem sucedida com todos os peões, é certo, cortara rapidamente a conversa, dizendo que tinha de trabalhar alguma coisa. A sua intenção ao teclar com o Luís nessa tarde era instalar-lhe o desejo de si, não com o propósito deliberado de irem para a cama ao fim da tarde, mas tão só para assistir ao aumento do desejo, para pressentir o crescimento do pénis, o que a reconfortava sempre e a punha num estado de espírito a que chamava a sua doce melancolia.

Tinha teclado três ou quatro vezes com o Luís, nunca muito tempo. Havia nele alguma coisa de sonolento e vegetal que a interessara. Tinha percebido logo que ele era uma presa fácil, mal casado, mal instalado numa vida de medo, mas antes essa do que nenhuma. Era assim que o Luís devia pensar quando se dava a esse trabalho. A pena que tinha de si próprio era tanta que lhe dava para justificar uma ou outra escapadela, mas sabia-se incapaz de lidar com a vida sozinho, sem a âncora de um lar que definisse o seu papel, mesmo que este fosse o de obrigatoriamente levar o pão para casa, comprado ao final da tarde na mercearia ao pé de sua casa. Tinha saído uma vez de casa, contara-lhe. Devia ter sido o primeiro e último acto de heroísmo que o Luís fizera em toda a sua vida.
A primeira vez que fizeram sexo fora de manhã, deviam ser umas sete e pouco da manhã, antes de irem para o trabalho. Esta altura do dia excitara-a, ser acordada para fazer sexo por alguém que vinha de fora, que não passara a noite com ela, era um começo de dia invulgar e…auspicioso. Tinha estado outra vez com ele, ao fim da tarde, sem grande vontade, mas a performance dos dois tinha sido bastante boa, o suficiente para ela saber que ele a quereria mais vezes. E isto bastava, induzia o tal estado de espírito de doce melancolia de que precisava para se suportar, efeito que antes era da responsabilidade de um comprimido de fluoxetina combinado com um victan. Não sabia se haveria terceira vez, o Luís teria de insistir muito, fazer-lhe sentir o desejo dele, pedir-lhe, implorar-lhe, como fazia o professor de educação física em relação aos seus broches.
 Mas o Luís era demasiado tímido para ser explícito quanto ao seu desejo, nunca seria capaz de implorar.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

2.3  Casa à maneira de Giorgio Morandi


Lembrou-se daquela passagem de Robert Musil em O Homem Sem Qualidades (ed. Livros do Brasil, Lisboa, s.d., pp.20-21) em que Ulrich se interrogava sobre o estilo pelo qual deveria optar para decorar a sua casa.
Giorgio Morandi, natureza morta, 1956

Giorgio Morandi, natureza morta


Queria que a sua casa fosse de um estilo depurado, tinha-se empenhado, também em termos financeiros, na escolha de móveis e objectos decorativos que veiculassem a ideia de essencial, não de um modo purista, alheio à sua natureza, mas de equilíbrio entre velho e novo, que cedessem espaço à ideia de vazio, mas de um vazio temperado/ cheio? de luz, pela luz, que se impusessem pela sua sobriedade mas fossem capazes de acolher objectos divertidos, onde luz e sombras coabitassem sem bulha.
    Pensava nas pinturas de Morandi como um guião estético para a decoração da sua casa e, ao mesmo tempo, sentia-se assediada pelo barroco a quem seguia voluptuosamente e quase se perdia nele. O seu olhar tinha sempre tanta paisagem que convivia dificilmente com o barroco. Muitas outras dimensões da sua vida ressentiam-se desta tensão constante, deste vaivém entre a abstinência e o excesso. Obrigou-se a alguma reflexão sobre esta dicotomia instalada em si.
                                                                                        
Giorgio Morandi



Porquê Giorgio Morandi, Paul Klee, até Piet Mondrian…e, ao mesmo tempo, porquê Giorgione, Rubens(?), ….. . E ainda não podia dispensar a intromissão consentida, mesmo desejada, de Georges Rouault e Jean Dubuffet. Percebia talvez melhor a necessidade destes dois do que o seu amor estético pelos outros. Peso e leveza, ambos salpicados pelas linhas trágicas de Rouault e pelas tropelias matéricas de Dubuffet.













     Paul Klee
                                                                               Piet Mondrian


                          
   

G. Rouault






                                       

J. Dubuffet


                         




             










  
                                                                                                         
Pensar a pintura…Pensar a decoração da casa como aplicação de uma concepção estética?

Quando contemplava o armário deco que encostara à parede branca do fundo da sala, dava consigo a pensar em Morandi. Esse armário, quase preto, de linhas sóbrias, ocupava metade da altura da parede, e clamava por objectos que estabelecessem uma relação entre ele e o branco da parede visível. Uma única peça em cima do armário? Várias peças? Semelhantes ou diferentes em forma, tom, cor, textura? Afastou a hipótese minimalista de uma única peça, era uma solução fácil mas redutora no modo como recortava o espaço. Ela também gostava de costurar espaços, de perceber as silhuetas que a colocação de objectos desenhava no espaço, de observar a perturbação desencadeada pela deslocação de um objecto alguns centímetros, de como era fácil ganhar ou perder a unidade de uma determinada organização espacial pela movimentação de uma única peça. Ensaiou repetidas vezes a disposição das várias peças em cima do armário a pensar nas “naturezas mortas” de Morandi, mais precisamente nos quadros das garrafas, no efeito surpreendente que resultava da adição ou subtracção de uma garrafa, não só a lógica espacial e o ritmo de uma composição podia mudar completamente, como as cores e os tons se alteravam subtilmente ou drasticamente. Lera, algures, num artigo sobre este pintor que alguém tinha resolvido o problema da arrumação dos recipientes de líquidos domésticos, dos shampoos aos detergentes, e ao mesmo tempo prestado homenagem ao seu pintor favorito, transferindo todos esses líquidos para velhas garrafas gastas pelo tempo, que dispusera em cima de uma pequena mesa.

Quando pensava em Morandi ou em qualquer outro pintor que amasse, ou mesmo que não amasse, não era para resolver problemas domésticos, até se sentia um pouco indignada com esta história, tal como sentia a fúria crescer dentro de si quando via desenhos de Picasso estampados em chávenas ou obras de Miró a serem pisadas em tapetes.O que a impressionava em Morandi era sobretudo a obtenção de formas essenciais, a abstracção do concreto, o modo como objectos anódinos se transformavam em formas arquetípicas ou porque ganhavam pregnância num espaço que parecia contrair-se ou porque era o espaço entre os objectos que se tornava pregnante, avassalador, onde assomavam formas gerais, ideias gerais de objectos, numa exemplar negação do individual. O seu Morandi era o dos quadros onde o indivíduo se anulava dando lugar ao geral, ao universal, ao essencial.



A superfície superior do seu armário continuava a ser um campo de experimentação, de batalha entre o individual e o geral, sem solução decorativa satisfatória, o que lhe dava alguma satisfação…a continuação da experiência.


Dos objectos passou às palavras já usadas por outros…talvez chegasse às pessoas.

A vontade de reciclar palavras já a sentira antes, mas nunca a pusera em prática. O teclanço com o Impulso Controlado e, agora, com um novo nick ArquétipoParadigma, que ela suspeitava ser um outro nick de Afonso, foi decisiva para iniciar esta nova actividade de reciclagem.

Não se sentia a coleccionar palavras, como aqueles que coleccionam citações e depois têm um cardápio adequado a qualquer situação. Ela fazia outra coisa, abria livros ao acaso e agarrava em palavras ou frases que carregava até as costurar com outras frases pescadas em outros livros. Em geral, não se tratava de uma costura simples, usava vários pontos, de cruz, parecia-lhe, e outros, de que não sabia o nome. Não se sentia a plagiar, sentia-se a reciclar, mas impressionava-a a destreza com que produzia textos semi prosa semi verso, enfim, de género indiferenciado. A maior parte das vezes , mais do que costurar palavras ou frases, costurava as ideias que a leitura de frases soltas originava. Dava-lhe um especial gozo quando as suas fontes de inspiração eram as que estavam à mão, artigos de jornais e revistas, livros de ensaio, romances, poesia, o que se ia amontoando na sua mesa de trabalho, à volta do computador. É verdade que a maioria dos livros que ali estava não era por acaso, tinham saído das prateleiras por alguma, normalmente boa, razão. Acontecia isso com livros de física, astronomia….que, por causa de trabalhos em curso andavam por ali. Era o caso de alguns clássicos, Homero, Aristóteles, Séneca eram sempre boa companhia, mas também Goethe….Não dispensava ter à mão alguns ensaios de Fernando Gil e de Filomena Molder e gostava de ter ao pé de si um ou outro romance que apreciara muito ou de que sentia uma necessidade urgente. E, ultimamente, a presença de livros de poesia sobrepujava a de todos os outros. Afonso estava na origem desta omnipresença da poesia.

Não porque ele escrevesse coisas muito boas…mas brincava com as palavras de um modo muito bonito.