4.1 A redução do acaso
Naquela segunda feira de manhã, manhã de muitas decisões, algumas preparadas durante a noite, decidira telefonar ao “riviera”, nick que conhecera num site de encontros – adultfriendfinder – ao qual fora parar por acaso. Tinham-na persuadido a inscrever-se num desses sites que proliferavam na net, todos muito semelhantes em ambas as colunas: benefícios e custos. Visitara-os algumas vezes, mas sempre pensara que não apresentavam grande vantagem em relação aos chats que conhecia. A amiga que ela iniciara na net tinha-se tornado adepta do msn paquera, onde se tinha inscrito com uma bela fotografia - que fora ela a tirar - que estava a funcionar como um chamariz de sucesso para conhecer pessoas e marcar encontros. Tinha sido ultrapassada em toda a linha pela sua pupila. Esta insistia na vantagem da redução do acaso que aqueles sites proporcionavam. As pessoas forneciam dados pessoais, entre eles o relativo ao seu estado civil, escreviam o seu perfil e, muitas vezes editavam a sua fotografia. Claro que todas essas informações e a própria fotografia podiam ser falsas, mas havia sempre uma diminuição considerável da incerteza.
Continuava a considerar que o acaso representava uma das dimensões mais interessantes dos contactos e encontros via net. Mas também admitia que se se procurava um relacionamento mais sério, mais duradouro, estes sites constituíam uma plataforma de partida mais segura e eventualmente mais promissora dos que os encontros cegos, ou quase, saídos dos chats. Na verdade ainda não se tinha inscrito no msn paquera porque não tinha uma fotografia à altura. A que habitualmente mandava a alguém mais insistente no pedido de fotografia, tinha já vários anos e, embora não estivesse mal e os seus traços continuassem reconhecíveis, achava que devia ter uma fotografia que fizesse jus não só ao seu rosto, a outra também fazia, mas ao seu ar. Embora com um rosto mais gordo e mais pesado, tinha agora, pensava ela, um ar interessante e sensual que devia cativar quem a olhasse. Como não tinha a fotografia não se inscrevera no msn paquera.
Todavia, tinha-se inscrito no adultfrienfinder, sem fotografia. Embora tivesse vindo parar aqui por acaso, já que a intenção era inscrever-se no Clube da Amizade, deu-se conta que raras eram as pessoas que neste site tinham fotos e, apeteceu-lhe fazer o exercício de escrever o seu perfil. Não gostava nada da página de abertura do adult…, as fotos que lá apareciam eram quase todas de órgãos genitais, masculinos e femininos, o que não dava nenhum jeito quando se abria o site na presença de alguém. Trabalhou na escrita daquele perfil, queria um texto sucinto que a retratasse física e intelectualmente e que estivesse suficientemente perto da verdade para ela própria se reconhecer nele.
O nick riviera, fora um dos muitos que a contactaram no adult, onde o seu perfil tinha sido deveras apreciado. Tinha-se dado ao trabalho de responder a todos aqueles que se tinham debruçado sobre o texto de apresentação do seu perfil, agradecendo as palavras gentis que lhe dirigiam. Mas só denunciou o seu interesse em teclar com três pessoas. Uma delas chamou-lhe a atenção pelas considerações certeiras e bem humoradas que fizera a propósito do seu perfil, também pelo facto de escrever escorreitamente e ainda pelo nick: “Giotto”. Este devia interessar-se por arte. Adicionou-o ao seu msn e pouco tempo depois falava com o “Giotto”, agora “riviera”. Conversaram sempre pouco e nada de muito revelador. Marcaram um encontro, adiado sucessivas vezes, ora por impossibilidade, melhor, falta de vontade dela, ora por impossibilidade ou falta de vontade dele.
Naquela segunda feira de manhã tinha decidido telefonar-lhe e perguntar-lhe se queria almoçar com ela. Ele tinha sempre proposto almoço. Para essa decisão contribuíra a fotografia que ele lhe tinha enviado. Tirada em Lanzarote, como ele a informara, valia, dissera ele, sobretudo pela expressão, já que só se viam 2/3 da cara devido à interposição muito inoportuna de um camelo. Estava para lhe telefonar quando ele ficou online no msn.
Malte diz:
olá, estava à procura do teu número para te telefonar
riviera diz:
Tudo bem ..... vim ao computador por acaso! .....Toma nota: .......
Malte diz:
ok, já tomei
Malte diz:
queres almoçar?
riviera diz:
Hoje e amanhã não posso, mas fazemos o seguinte: dou-te um toque durante a semana
Malte diz:
gostei muito da tua fotografia, é pena que se visse mal o camelo lol
riviera diz:
Não sei porque pois raramente acontece eu gostar de uma foto minha !? ....... mas gostei da expressão naquela foto ! ...... acho que foi muito espontânea ! ...... deve ter sido por estar de férias ! O sacana do camelo é que escusava de se meter à frente!!
Malte diz:
fiquei com a impressão que eras alto, magro, com olhos muito bonitos e cabelo encaracolado...enfim ...muito charmoso
riviera diz:
Já estou a corar !!!!! .......mas a descrição é essa ....... olhos verdes ......
Malte diz:
digo-te isto tudo para te dizer tb, que neste momento represento um vivo contraste em relação a ti ...e talvez seja melhor veres-me daqui a algum tempo...lol
riviera diz:
Então porque ?
Malte diz:
como deves ter percebido pelo perfil sou muito frontal e queria avisar-te do seguinte: acho que sou gira, blá blá blá...mas estou GORDA...pode ser que consiga ficar mais aceitável daqui a algum tempo...lol
Malte diz:
a propósito já saí daquele site....sempre que abria a página principal...lá estavam eles...os orgãos genitais masculinos e femininos escarrapachados...passei algumas vergonhas...quando estava gente ao pé de mim
riviera diz:
Não é só o aspecto físico que conta !! .....a nossa sociedade vive um pouco "espartilhada" com esse conceito ! ........ envia-me uma foto tua por mail .......
Malte diz:
envio, mas também podes ver-me na cam
riviera diz:
Sabes que a maior parte dos contactos que estabeleci, eliminei-os, pois apercebi-me pela escrita que não interessavam !!!! ....... não tenho cam ... sorry .....
Malte diz:
ok, então envio foto e tu pões mais uns cinco anos em cima..ok?
riviera diz:
ok ! ..... no problem !! ......
Malte diz:
all right
riviera diz:
Fica então combinado ....... dou-te um toque entretanto ...... Kisses
A decisão de telefonar ao “riviera” estava de algum modo associada à roupa que vestira hoje de manhã. Não era roupa nova, nem nada que se parecesse. Com excepção dos sapatos era a roupa que tinha vestido há mais de um ano atrás, quando saíra uma manhã de casa de mão dada com o marroquino. Vestia de preto, como quase sempre, mas tinha uma camisola verde, um verde quase impossível, entre o verde mar e o verde lima, um verde que pouca gente ousaria vestir porque pouca gente saberia que aquele verde tinha de ser temperado por mais uns dois ou três pontos de verde no conjunto. E isso ela sabia-o fazer como poucas. Um anel da mesma cor, uns brincos que combinavam aquele verde com um outro tom de verde, o verde menta, e dois broches pequenos, de cerâmica vidrada, também em tons de verde, predominando o verde musgo, a que se juntava um salpico de um tom fúcsia ou cereja do Fundão, como o seu cabeleireiro chamava ao tom de algumas madeixas do seu cabelo, constituíam um conjunto que lhe ficava bem, não tão bem como no ano anterior, em que o seu estômago e as suas ancas teriam menos cinco ou sete centímetros. Nessa altura, Achmed tinha-lhe dito que ela estava muito bonita, que aquele verde surpreendente lhe ficava muito bem. Dissera-lhe isso em francês e aquela frase ainda hoje ecoava nos seus ouvidos, não por ser em francês, ou talvez também fosse, mas por vir de alguém com quem ela fizera amor, depois de 7 ou 8 anos de abstinência.
Alguém que agora parecia coleccionar homens tinha estado 7 ou 8 anos sem sexo! Se se esforçasse conseguiria saber ao certo quantos anos e meses durara a sua abstinência.
Talvez para compensar os cinco ou sete centímetros de volume a mais, tinha aperfeiçoado aquele conjunto com mais um toque, um toque subtil no calçado. Aquele conjunto ficava bem com uns sapatos verdes, nunca encontrara o tom certo. E, como em relação a muitas outras coisas, se não encontrava o que queria, tinha de o fabricar ela própria. Eram quatro e meia da manhã, estava ela na cozinha a pintar, com tinta própria para tecido, duas figuras ovais num tom semelhante ao da camisola nuns sapatos de pano cujo fundo era verde alface. Este era um tom incompatível com o outro verde, a não ser que fosse temperado por uma pitada daquela outra tonalidade, depois circundada por uns laivos de cereja do fundão e um quase nada de laranja. Ficou bem. Talvez conseguisse que os olhares, o olhar do “riviera”, se desviasse do seu estômago e descesse aos sapatos.
O poder dos sapatos verdes:
ahahahah LOL LOL ..... LOL ......... rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs


















