As suas conversas no msn tinham continuidade nos textos que mandavam um ao outro no gmail. “Voz poética” – outro nick de Afonso, assim como “homem de voos” – enviara-lhe um conjunto de 3 pps; um construído por ele “Viver é bom”, uma recolha de imagens, para as quais escrevera um texto e juntara umas musiquinhas, outro com música de Βαγγέληςe=Vangelis (Ευάγγελος Οδυσσέας Παπαθανασίου - ele sabia estas coisas...a Wikipédia ajuda muito!),ainda outro, muito bonito, sobre Vincent van Gogh – composição e performance de Don Mclean, homenagem deste músico a Starry Night de Vincent, ou melhor, a toda a obra de van Gogh . Não havia grande coisa a dizer nem sobre as imagens seleccionadas por Afonso nem sobre o seu texto. Mas ele tinha-se dado ao trabalho de construir aquele pps, embora não soubesse se o construíra para ela, não tinha data, mas naquela altura não pensou muito nisso. O que importava é que ele parecia querer deslumbrá-la e ela precisava disso.
Uma imagem que Afonso punha frequentemente na janelinha de apresentação no msn era a fotografia de uma estrelícia, flor também conhecida como ave do paraíso.
Escreveu-lhe:
olá ave do paraíso
obrigada por estes minutos que me reconciliaram com o mundo, que permitiram que a beleza levantasse voo e animaram a minha existência. Por algum tempo consegui umas tréguas e senti "viver é bom". Preciso de prolongar estas tréguas, não posso brigar tanto com a vida e ela também não pode embirrar tanto comigo.
Obrigada pela quietude e silêncio, pois a música emudeceu de espanto com o Vincent, que já conhecia mas que foi bom unir ao Vangelis e esta união ainda não tinha experimentado.
Preserva, a todo o custo, as tuas asas e eu prometo velar para que o sol não as derreta como fez a Ícaro.
beijos
Malte
Entretanto ia sendo inundada de poemas, alguns aliados a imagens, outros não. Afonso ia-se dando a conhecer, umas vezes celebrando a vida, considerando-a uma festa, outras vezes confinando essa festa a intervalos, pequenos e raros no seio dos automatismos que atiram o essencial para a berma.
Ela escreveu-lhe:
Fiz uma pausa no meu trabalho e fui ver e ouvir o teu ser, ou o que dele sou capaz de receber e senti-me uma gota a querer guardar o oceano. Fiquei inundada, como seria de esperar, não pela chuva torrencial que cai lá fora mas pela torrente de palavras e imagens que empurram a alma que primeiro vai saltitando, e depois se deixa afogar docemente, suavemente, suspendendo a respiração e confundindo-se com a própria água.
Não sei como se faz um pps....um dia ensina-me...
Beijo
Malte
Num dos mails que Afonso lhe enviara, revelava a sua formação em ciências aplicadas – engenharia e acrescentava ter “alguma escola de vida”, bem como dava a informação relevante: era casado…mas…, não se assumia como mal casado, como outros tinham afirmado. Seguia-se um longo texto de reflexão sobre o que fazer para a alma não soçobrar nas espiras da vidinha boazinha, sossegada e calculada. Mas o que a surpreendeu foi a recomendação, no fim do texto, sobre o que ler, ver, ouvir e pensar para…saber mais…não tanto pelo conteúdo das recomendações como pelo facto de estarem distribuídas por categorias. Iam desde a leitura de obras como A Melodia Secreta, Trinh Xuan Thuan. Ed. Bizâncio, 2002, à Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson. Quetzal Ed., 2004, passando pela obra de Stephen Hawking, O Universo Numa Casca de Noz, Gradiva, 2002, etc.,. Recomendava a visão dos documentários do canal Odisseia , bem como da forma das coisas, dos sons, dos cheiros, da subtileza dos instantes, e ainda obras primas do génio humano como a Basílica de S. Pedro em Roma ou o Grand Palace em Bangkok, etc.,. Na categoria do “ouvir” aparecia em primeiro lugar “o nosso chamamento interior, as inquietações” e a música adequada a cada estado de espírito, ao vivo e num bom sistema de som, pois ela é “a matéria no seu melhor (a nossa espécie) a exibir a sua intimidade para gáudio de si própria”. Seguia-se “ pensar e reflectir … e intuir que por trás da nossa relação factual com o mundo, através dos 5 sentidos, há uma realidade bem mais complexa com ordem e objectivo, só facultada aos poucos à nossa inteligência. É dentro dela que brota o pasmo que é a vida nas suas actuais 30 milhões de espécies.” Finalmente “agir com base nos grandes valores e para não descurar a relatividade das coisas vestir-se de poema sempre que possível. Brincar aos teatrinhos, ordenar estados de espírito escrevendo, rir-se de si e dos outros, ter humor e dar sempre um grande desconto a todas as militarizações que nos queiram impor venham elas donde vierem”. Terminava com o local e data: Lisboa, 30 de Abril de 2005 “Ali estava a data, sem apelo nem agravo, fora feito anos antes dela ter surgido. Bom, o que podia dali recolher para o puzzle chamado Afonso?
Poucas horas depois Afonso enviava-lhe dois poemas, um intitulado “nim”, com um posfácio que servia de prefácio ao poema seguinte “eu quero”:
“Malte
mandei-te o nim para desconstruir o que é normalmente aceitável, para te dizer que sou feito de múltiplos desejos e vontades.
Agora, que o amor nos une no fogo, vem a propósito mandar-te este escrito, também da minha autoria.
EU QUERO ...
Beijo.”
E Malte respondia-lhe:
Meu sonho de amor
Encantei-me com a realidade desconstruída no teu "nim",
com a chuva de chá de jasmim, com a lua mandada às urtigas,
com os ralis feitos com as ideias das formigas.
Alucinei com "eu quero..."
que tem a força da própria alucinação, como um sonho onde nada é inventado, como um espaço onde não há limites, como um tempo sem tempo.
Fiquei embriagada na "sofreguidão"de um "rio louco", iluminada por um "desejo cego" e cega por um "sol alucinante".
Absorvi o teu poema assim e observei-me...senti-me "rebelde e exaltante" no meu/teu corpo escaldante.
o universo num beijo
Malte
Afonso respondia:
“Meu amor de sonho,
adorei a tua sms desta manhã. Vim aqui agora ver se já tinhas visto os mails que te mandei ontem e se me tinhas escrito algo.
E aproveito para te dizer que não és só tu que vives aninhada no meu ser. Também eu vivo contigo dentro de mim, cada instante, todos os instantes. Ando com uma fixação mental. És o meu éden, a minha felicidade. Quero-te, meu amor de todas as magias e fantasias e felicidades.
Um beijo cheio de exaltação.”
E mais um longo, muito longo poema, cujo primeiro verso era “não sei se um poema se faz assim”, ao qual se sucedia “mais um beijo muito apaixonado para ti”.
Ao “amor de sonho” de Afonso, Malte insistia em responder ao “sonho de amor”.
olá sonho de amor
depois de um dia muito atribulado, em particular no fim da tarde, consegui finalmente ler, ver, cheirar, tocar a tua escrita.
Impressiona-me a tua escrita, os poemas que surgem da vontade de ser, do anseio de viver...tu não sabes "se um poema se faz assim", nem precisas de saber...tu és um poema, meu amor.
Tu escreves
Eu espero
Tu entras
Eu estou
Tu crias
Eu escuto
Entrei num mundo novo pela tua mão, a mão que escreve e quase te oiço
Renasço no horizonte que rasgas e me dás
Revejo-me concentradamente enquanto me constróis
Sinto-me uma forma de vertigem declinada
Era pobre antes de ti
Tu danças dentro de mim
Eu rodopio sobre ti
meu sonho de amor
Malte
E Afonso respondia :
“Adorei o teu mail. Se te pareço muito importante curvo-me por isso. Quero ser um farol no teu horizonte. Mas tu és o meu mar, o caminho que me leva ao meu continente ilimitado, fisico e espiritual. Agora não sou capaz de ser assim, não sei onde nem como fui capaz de ser tão grande. Tu és a minha esperança, o meu sonho. Adorava que me desses o poder de me viver em tudo com galáctica felicidade.
Um beijo muito cheio de amor.”
E, quase sem interrupção, lá chegava mais um mail de Afonso :
“a fotografia deve ser feita no instante em que ocorre o acontecimento. Acabei de te ler. E, sem querer, deixei de respirar. Enchi-me com a forma como me escreves, com a tua análise e sensibilidade finas. És uma raridade.
Agora, que já te vi no msn, tudo passou a ter outro encanto, outra força.
Falamos lá. Vamos ser a festa maior... do amor genial.
Amanha mando-te outro escrito meu , lá do trabalho,
beijocas doces.”
Malte, desta vez, não se pôs a versejar, escreveu ao “homem de voos” (um dos nicks de Afonso):
Só me apetece comunicar contigo...assim, em vez de "trabalhar" naquilo que a realidade ordena, deixo-me guiar pelo desejo de escrever ao homem com asas. Vou fazê-lo num discurso que me é mais familiar, mais prosaico, não menos intenso em sentimentos, mas mais contido no que respeita a figuras poéticas.
Parto de um conjunto de sinais, de indicadores que a tua escrita presentifica quase visualmente, e embora convoque uma gama de significações, não podia, nem devia, perfilar esse conjunto como um todo conceptualmente determinado, mas antes como a antecipação de um "domínio" de descoberta. E é aí que tenho estado, é aí que tenho fruído intensamente e intensivamente a tua existência, aquilo que dela tenho percepcionado, intuído, na constelação móvel dos estados de alma que assomam e, muitas vezes, gritam na tua escrita. A tua escrita é uma excitação de signos, que se perfila contra o adquirido, que se rebela contra o já visto, que faz ralis com as ideias das formigas.
Esses sinais/signos/palavras desafiam-me a "descobrir" o ser que se desvela e se oculta nas analogias, nas colateralidades, nas ramificações, nas arquitecturas impossíveis. A minha ocupação, ao longo destes dias tem sido a experimentação mental com o concurso dos sentidos: saborear as palavras, cheirá-las, perseguir o seu rasto no meu corpo, observar as marcas que deixam na alma, vislumbrar os contornos de um ser cuja materialização ainda escapa ao meu olhar.
Por isso sinto que é tão importante, tão urgente, olhar o teu olhar, não só para ver o que ele reflecte de ti, mas também para ver o que ele olha em mim, onde se detém, o que perscruta, o que escrutina.
Que representação do futuro nos vai trazer o presente do nosso encontro?
Incerteza e risco, mas isso é viver e só assim a vida vale a pena ser vivida.
Malte
Afonso respondia-lhe de imediato:
“Para te responder precisava de tempo e alguma paz interior. Como tenho a pressão do trabalho a coagir-me, só devo dizer que me impressionaste muito com este teu texto. Ele espelha uma pessoa sofisticada, que sabe interpretar bem as pequenas manifestações dos segredos da alma, que conhece as interrogações e os receios que os "confrontos" geram. E, acima de tudo, escreves muito bem, expressas com perfeição cirúrgica o que pensas.
Estou fascinado contigo.
Um beijo.”
De Malte para “voz poética”(ela gostava de usar os dois nicks de Afonso):
Não consigo trabalhar…Confirmando o que ontem te disse, só me apetece estar em contacto contigo. Então...escrevo....
A desmedida é o traço da minha existência actual, já nem recolho as cinzas do dia porque não me lembro de o ter vivido.
Estou suspensa, nada há na terra e nos céus que me prenda à vida a não ser a ideia de ti, ideia que se cola a cada coisa que vejo, a cada palavra que ouço, a cada gesto que faço ... transporto-te em mim para todo o lado.
Receio quinta feira, confesso. Não confio em mim, não estou segura da figura que os teus olhos vão engendrar de mim, receio abster-me de me verter naquilo que me prolonga e às vezes me engrandece, receio, no fundo, não ser tocada pela aura que te permita erguer os olhos para mim...
Hesito em abandonar-me aos factos que vão ocorrer e deixar que eles falem com a sua língua muda... mas rezo para que as vagas da emoção se elevem e nos inundem, arrastando-nos ao entusiasmo, à vertigem, à loucura...------------------------------- to be continued…
vou sair agora
beijos, até logo.
Quando chegava, de manhã, ao trabalho sentia urgência em comunicar com Afonso.
Olá sonho de amor
Encontramo-nos sempre depois, mas falamos tudo como se fosse pela primeira vez.
Embrenhemo-nos naquele espaço intermediário entre as palavras, entre os sons,
Libertemos a expectativa muda,
procuremos o que se demora entre os momentos...efémeros.
acabei de chegar ao trabalho ...não resisti a enviar-te umas palavras para que mores e te demores um bocadinho em mim.
Malte
De “voz poética” para Malte, em 27 de Março:
“Olá Malte querida
EU…”
E seguia-se mais um longo poema, que parecia anunciar a festa que seria o seu encontro pessoal, marcado para 30 de Março, quinta feira. Despedia-se com “beijos para o meu amor” e revelava finalmente o seu nome completo verdadeiro, afirmando: “Este sou eu, a “voz poética” e “homem de voos”, com nome de gente.”
Sabedora do nome autêntico de Afonso, Malte entretinha-se:
Soletro o teu nome vagarosamente, demoradamente
tento apreender o tipo de propagação acústica de cada sílaba
mastigo , cheiro e saboreio o som
e escuto a minha alma
sinto-a tornar-se matéria vibrátil de sons alheios
recolho os despojos dessa experiência
e a alma alegra-se
reencontra o rasto escondido daquele que ama
Os acasos da sorte são momentos privilegiados de encontro...
beijooooosssssss
Malte
30 de Março, Quinta-feira, encontro – sexo, muito sexo
Tinham decorrido 9 dias, pouco mais do que uma semana, desde que tinham sabido da existência um do outro, nunca se tinham visto pessoalmente, ela tinha visto de relance uma fotografia que Afonso pusera uma única vez na janela de apresentação e ele tinha-a visto na cam, tinha visto o rosto dela, nada mais.
Se todos estes contactos não se tivessem passado na net, esta troca de correspondência, não só pela sua abundância como pelo elevado número de vibrações de intensidade vital que transportava, parecia reclamar um longo período de conhecimento e reconhecimento de dois seres, que se tinham encontrado pessoalmente, por acaso ou não, que tinham simpatizado um com o outro, que se tinham encaminhado um para o outro, que se tinham enamorado, deslumbrado e desejado. E este processo costuma levar o seu tempo no tempo real da vida de todos os dias.
Ainda nos dias de hoje uma carta para chegar ao destinatário leva normalmente dois dias através dos CTT, dois dias para cá e dois dias para lá e aquela correspondência epistolar ficaria reduzida a um terço ou um quarto. Há o telefone, mas há estados de alma cuja intensidade não cabe na linha estreita do telefone, nem se deixam reduzir na exiguidade de uma mensagem de sms. Naquele espaço – tempo que a net permitiu que os dois inventassem e onde submergiram durante pouco mais do que uma semana, suspendendo o mundo real, empírico, as suas emoções, sentimentos, desejos foram sujeitos a uma aceleração como se estivessem dentro do acelerador de partículas – LHC - do CERN. O LHC permitirá a colisão dos protões a uma energia de 14 TeV, estando também planeada a colisão de núcleos de chumbo a uma energia de 1150 TeV. Pensa-se que esta quantidade de energia corresponde à energia de criação do Universo 10-12 s após o Big-Bang.
Esta comparação fê-la lembrar que Info.cern.ch foi o endereço do primeiro site e servidor Web, que foi albergado por um computador NeXT du CERN. Assim, a Web, concebida no início para ajudar os físicos a responder às espinhosas questões sobre o universo, é hoje utilizada para fins múltiplos no universo inteiro e já faz parte da nossa vida quotidiana.
Nesse acelerador de partículas que é a net aquele maravilhamento mútuo desembestou e atingiu a energia da paixão que talvez se possa igualar à energia da criação do universo. Quem sabe? Um dia ainda se vai poder medir a energia da paixão.



















