sequelas

domingo, 23 de maio de 2010

1.2  O ACELERADOR DE PARTÍCULAS





               no túnel do Large Hadron Colider LHC/CERN


 As suas conversas no msn tinham continuidade nos textos que mandavam um ao outro no gmail. “Voz poética” – outro nick de Afonso, assim como “homem de voos” – enviara-lhe um conjunto de 3 pps; um construído por ele “Viver é bom”, uma recolha de imagens, para as quais escrevera um texto e juntara umas musiquinhas, outro com música de Βαγγέληςe=Vangelis (Ευάγγελος Οδυσσέας Παπαθανασίου - ele sabia estas coisas...a Wikipédia ajuda muito!),ainda outro, muito bonito, sobre Vincent van Gogh – composição e performance de Don Mclean, homenagem deste músico a Starry Night de Vincent, ou melhor, a toda a obra de van Gogh . Não havia grande coisa a dizer nem sobre as imagens seleccionadas por Afonso nem sobre o seu texto. Mas ele tinha-se dado ao trabalho de construir aquele pps, embora não soubesse se o construíra para ela, não tinha data, mas naquela altura não pensou muito nisso. O que importava é que ele parecia querer deslumbrá-la e ela precisava disso.

Uma imagem que Afonso punha frequentemente na janelinha de apresentação no msn era a fotografia de uma estrelícia, flor também conhecida como ave do paraíso.




Escreveu-lhe:

olá ave do paraíso


obrigada por estes minutos que me reconciliaram com o mundo, que permitiram que a beleza levantasse voo e animaram a minha existência. Por algum tempo consegui umas tréguas e senti "viver é bom". Preciso de prolongar estas tréguas, não posso brigar tanto com a vida e ela também não pode embirrar tanto comigo.
Obrigada pela quietude e silêncio, pois a música emudeceu de espanto com o Vincent, que já conhecia mas que foi bom unir ao Vangelis e esta união ainda não tinha experimentado.
Preserva, a todo o custo, as tuas asas e eu prometo velar para que o sol não as derreta como fez a Ícaro.
beijos
Malte

Entretanto ia sendo inundada de poemas, alguns aliados a imagens, outros não. Afonso ia-se dando a conhecer, umas vezes celebrando a vida, considerando-a uma festa, outras vezes confinando essa festa a intervalos, pequenos e raros no seio dos automatismos que atiram o essencial para a berma.

Ela escreveu-lhe:

Fiz uma pausa no meu trabalho e fui ver e ouvir o teu ser, ou o que dele sou capaz de receber e senti-me uma gota a querer guardar o oceano. Fiquei inundada, como seria de esperar, não pela chuva torrencial que cai lá fora mas pela torrente de palavras e imagens que empurram a alma que primeiro vai saltitando, e depois se deixa afogar docemente, suavemente, suspendendo a respiração e confundindo-se com a própria água.
Não sei como se faz um pps....um dia ensina-me...
Beijo
Malte


Num dos mails que Afonso lhe enviara, revelava a sua formação em ciências aplicadas – engenharia e acrescentava ter “alguma escola de vida”, bem como dava a informação relevante: era casado…mas…, não se assumia como mal casado, como outros tinham afirmado. Seguia-se um longo texto de reflexão sobre o que fazer para a alma não soçobrar nas espiras da vidinha boazinha, sossegada e calculada. Mas o que a surpreendeu foi a recomendação, no fim do texto, sobre o que ler, ver, ouvir e pensar para…saber mais…não tanto pelo conteúdo das recomendações como pelo facto de estarem distribuídas por categorias. Iam desde a leitura de obras como A Melodia Secreta, Trinh Xuan Thuan. Ed. Bizâncio, 2002, à Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson. Quetzal Ed., 2004, passando pela obra de Stephen Hawking, O Universo Numa Casca de Noz, Gradiva, 2002, etc.,. Recomendava a visão dos documentários do canal Odisseia , bem como da forma das coisas, dos sons, dos cheiros, da subtileza dos instantes, e ainda obras primas do génio humano como a Basílica de S. Pedro em Roma ou o Grand Palace em Bangkok, etc.,. Na categoria do “ouvir” aparecia em primeiro lugar “o nosso chamamento interior, as inquietações” e a música adequada a cada estado de espírito, ao vivo e num bom sistema de som, pois ela é “a matéria no seu melhor (a nossa espécie) a exibir a sua intimidade para gáudio de si própria”. Seguia-se “ pensar e reflectir … e intuir que por trás da nossa relação factual com o mundo, através dos 5 sentidos, há uma realidade bem mais complexa com ordem e objectivo, só facultada aos poucos à nossa inteligência. É dentro dela que brota o pasmo que é a vida nas suas actuais 30 milhões de espécies.” Finalmente “agir com base nos grandes valores e para não descurar a relatividade das coisas vestir-se de poema sempre que possível. Brincar aos teatrinhos, ordenar estados de espírito escrevendo, rir-se de si e dos outros, ter humor e dar sempre um grande desconto a todas as militarizações que nos queiram impor venham elas donde vierem”. Terminava com o local e data: Lisboa, 30 de Abril de 2005 “

Ali estava a data, sem apelo nem agravo, fora feito anos antes dela ter surgido. Bom, o que podia dali recolher para o puzzle chamado Afonso?

Poucas horas depois Afonso enviava-lhe dois poemas, um intitulado “nim”, com um posfácio que servia de prefácio ao poema seguinte “eu quero”:


“Malte
mandei-te o nim para desconstruir o que é normalmente aceitável, para te dizer que sou feito de múltiplos desejos e vontades.
Agora, que o amor nos une no fogo, vem a propósito mandar-te este escrito, também da minha autoria.


EU QUERO ...
Beijo.”

E Malte respondia-lhe:

Meu sonho de amor
Encantei-me com a realidade desconstruída no teu "nim",
com a chuva de chá de jasmim, com a lua mandada às urtigas,
com os ralis feitos com as ideias das formigas.
Alucinei com "eu quero..."
que tem a força da própria alucinação, como um sonho onde nada é inventado, como um espaço onde não há limites, como um tempo sem tempo.
Fiquei embriagada na "sofreguidão"de um "rio louco", iluminada por um "desejo cego" e cega por um "sol alucinante".
Absorvi o teu poema assim e observei-me...senti-me "rebelde e exaltante" no meu/teu corpo escaldante.
o universo num beijo
Malte

Afonso respondia:

“Meu amor de sonho,
adorei a tua sms desta manhã. Vim aqui agora ver se já tinhas visto os mails que te mandei ontem e se me tinhas escrito algo.
E aproveito para te dizer que não és só tu que vives aninhada no meu ser. Também eu vivo contigo dentro de mim, cada instante, todos os instantes. Ando com uma fixação mental. És o meu éden, a minha felicidade. Quero-te, meu amor de todas as magias e fantasias e felicidades.
Um beijo cheio de exaltação.”

E mais um longo, muito longo poema, cujo primeiro verso era “não sei se um poema se faz assim”, ao qual se sucedia “mais um beijo muito apaixonado para ti”.

Ao “amor de sonho” de Afonso, Malte insistia em responder ao “sonho de amor”.

olá sonho de amor
depois de um dia muito atribulado, em particular no fim da tarde, consegui finalmente ler, ver, cheirar, tocar a tua escrita.
Impressiona-me a tua escrita, os poemas que surgem da vontade de ser, do anseio de viver...tu não sabes "se um poema se faz assim", nem precisas de saber...tu és um poema, meu amor.


Tu escreves


Eu espero


Tu entras


Eu estou


Tu crias


Eu escuto


Entrei num mundo novo pela tua mão, a mão que escreve e quase te oiço
Renasço no horizonte que rasgas e me dás
Revejo-me concentradamente enquanto me constróis
Sinto-me uma forma de vertigem declinada
Era pobre antes de ti
Tu danças dentro de mim
Eu rodopio sobre ti


meu sonho de amor
Malte

E Afonso respondia :

“Adorei o teu mail. Se te pareço muito importante curvo-me por isso. Quero ser um farol no teu horizonte. Mas tu és o meu mar, o caminho que me leva ao meu continente ilimitado, fisico e espiritual. Agora não sou capaz de ser assim, não sei onde nem como fui capaz de ser tão grande. Tu és a minha esperança, o meu sonho. Adorava que me desses o poder de me viver em tudo com galáctica felicidade.
Um beijo muito cheio de amor.”

E, quase sem interrupção, lá chegava mais um mail de Afonso :

“a fotografia deve ser feita no instante em que ocorre o acontecimento. Acabei de te ler. E, sem querer, deixei de respirar. Enchi-me com a forma como me escreves, com a tua análise e sensibilidade finas. És uma raridade.
Agora, que já te vi no msn, tudo passou a ter outro encanto, outra força.
Falamos lá. Vamos ser a festa maior... do amor genial.
Amanha mando-te outro escrito meu , lá do trabalho,
beijocas doces.”

Malte, desta vez, não se pôs a versejar, escreveu ao “homem de voos” (um dos nicks de Afonso):

Só me apetece comunicar contigo...assim, em vez de "trabalhar" naquilo que a realidade ordena, deixo-me guiar pelo desejo de escrever ao homem com asas. Vou fazê-lo num discurso que me é mais familiar, mais prosaico, não menos intenso em sentimentos, mas mais contido no que respeita a figuras poéticas.
Parto de um conjunto de sinais, de indicadores que a tua escrita presentifica quase visualmente, e embora convoque uma gama de significações, não podia, nem devia, perfilar esse conjunto como um todo conceptualmente determinado, mas antes como a antecipação de um "domínio" de descoberta. E é aí que tenho estado, é aí que tenho fruído intensamente e intensivamente a tua existência, aquilo que dela tenho percepcionado, intuído, na constelação móvel dos estados de alma que assomam e, muitas vezes, gritam na tua escrita. A tua escrita é uma excitação de signos, que se perfila contra o adquirido, que se rebela contra o já visto, que faz ralis com as ideias das formigas.
Esses sinais/signos/palavras desafiam-me a "descobrir" o ser que se desvela e se oculta nas analogias, nas colateralidades, nas ramificações, nas arquitecturas impossíveis. A minha ocupação, ao longo destes dias tem sido a experimentação mental com o concurso dos sentidos: saborear as palavras, cheirá-las, perseguir o seu rasto no meu corpo, observar as marcas que deixam na alma, vislumbrar os contornos de um ser cuja materialização ainda escapa ao meu olhar.
Por isso sinto que é tão importante, tão urgente, olhar o teu olhar, não só para ver o que ele reflecte de ti, mas também para ver o que ele olha em mim, onde se detém, o que perscruta, o que escrutina.
Que representação do futuro nos vai trazer o presente do nosso encontro?
Incerteza e risco, mas isso é viver e só assim a vida vale a pena ser vivida.
Malte

Afonso respondia-lhe de imediato:

“Para te responder precisava de tempo e alguma paz interior. Como tenho a pressão do trabalho a coagir-me, só devo dizer que me impressionaste muito com este teu texto. Ele espelha uma pessoa sofisticada, que sabe interpretar bem as pequenas manifestações dos segredos da alma, que conhece as interrogações e os receios que os "confrontos" geram. E, acima de tudo, escreves muito bem, expressas com perfeição cirúrgica o que pensas.
Estou fascinado contigo.
Um beijo.”


De Malte para “voz poética”(ela gostava de usar os dois nicks de Afonso):

Não consigo trabalhar…Confirmando o que ontem te disse, só me apetece estar em contacto contigo. Então...escrevo....
A desmedida é o traço da minha existência actual, já nem recolho as cinzas do dia porque não me lembro de o ter vivido.
Estou suspensa, nada há na terra e nos céus que me prenda à vida a não ser a ideia de ti, ideia que se cola a cada coisa que vejo, a cada palavra que ouço, a cada gesto que faço ... transporto-te em mim para todo o lado.
Receio quinta feira, confesso. Não confio em mim, não estou segura da figura que os teus olhos vão engendrar de mim, receio abster-me de me verter naquilo que me prolonga e às vezes me engrandece, receio, no fundo, não ser tocada pela aura que te permita erguer os olhos para mim...
Hesito em abandonar-me aos factos que vão ocorrer e deixar que eles falem com a sua língua muda... mas rezo para que as vagas da emoção se elevem e nos inundem, arrastando-nos ao entusiasmo, à vertigem, à loucura...------------------------------- to be continued…
vou sair agora
beijos, até logo.

Quando chegava, de manhã, ao trabalho sentia urgência em comunicar com Afonso.

Olá sonho de amor

Encontramo-nos sempre depois, mas falamos tudo como se fosse pela primeira vez.
Embrenhemo-nos naquele espaço intermediário entre as palavras, entre os sons,
Libertemos a expectativa muda,
procuremos o que se demora entre os momentos...efémeros.
acabei de chegar ao trabalho ...não resisti a enviar-te umas palavras para que mores e te demores um bocadinho em mim.
Malte


De “voz poética” para Malte, em 27 de Março:

Olá Malte querida
EU…”

E seguia-se mais um longo poema, que parecia anunciar a festa que seria o seu encontro pessoal, marcado para 30 de Março, quinta feira. Despedia-se com “beijos para o meu amor” e revelava finalmente o seu nome completo verdadeiro, afirmando: “Este sou eu, a “voz poética” e “homem de voos”, com nome de gente.”

Sabedora do nome autêntico de Afonso, Malte entretinha-se:

Soletro o teu nome vagarosamente, demoradamente
tento apreender o tipo de propagação acústica de cada sílaba
mastigo , cheiro e saboreio o som
e escuto a minha alma
sinto-a tornar-se matéria vibrátil de sons alheios
recolho os despojos dessa experiência
e a alma alegra-se
reencontra o rasto escondido daquele que ama
Os acasos da sorte são momentos privilegiados de encontro...
beijooooosssssss
Malte


30 de Março, Quinta-feira, encontro – sexo, muito sexo


Tinham decorrido 9 dias, pouco mais do que uma semana, desde que tinham sabido da existência um do outro, nunca se tinham visto pessoalmente, ela tinha visto de relance uma fotografia que Afonso pusera uma única vez na janela de apresentação e ele tinha-a visto na cam, tinha visto o rosto dela, nada mais.

Se todos estes contactos não se tivessem passado na net, esta troca de correspondência, não só pela sua abundância como pelo elevado número de vibrações de intensidade vital que transportava, parecia reclamar um longo período de conhecimento e reconhecimento de dois seres, que se tinham encontrado pessoalmente, por acaso ou não, que tinham simpatizado um com o outro, que se tinham encaminhado um para o outro, que se tinham enamorado, deslumbrado e desejado. E este processo costuma levar o seu tempo no tempo real da vida de todos os dias.

Ainda nos dias de hoje uma carta para chegar ao destinatário leva normalmente dois dias através dos CTT, dois dias para cá e dois dias para lá e aquela correspondência epistolar ficaria reduzida a um terço ou um quarto. Há o telefone, mas há estados de alma cuja intensidade não cabe na linha estreita do telefone, nem se deixam reduzir na exiguidade de uma mensagem de sms. Naquele espaço – tempo que a net permitiu que os dois inventassem e onde submergiram durante pouco mais do que uma semana, suspendendo o mundo real, empírico, as suas emoções, sentimentos, desejos foram sujeitos a uma aceleração como se estivessem dentro do acelerador de partículas – LHC - do CERN. O LHC permitirá a colisão dos protões a uma energia de 14 TeV, estando também planeada a colisão de núcleos de chumbo a uma energia de 1150 TeV. Pensa-se que esta quantidade de energia corresponde à energia de criação do Universo 10-12 s após o Big-Bang.
Esta comparação fê-la lembrar que Info.cern.ch foi o endereço do primeiro site e servidor Web, que foi albergado por um computador NeXT du CERN. Assim, a Web, concebida no início para ajudar os físicos a responder às espinhosas questões sobre o universo, é hoje utilizada para fins múltiplos no universo inteiro e já faz parte da nossa vida quotidiana.

Nesse acelerador de partículas que é a net aquele maravilhamento mútuo desembestou e atingiu a energia da paixão que talvez se possa igualar à energia da criação do universo. Quem sabe? Um dia ainda se vai poder medir a energia da paixão.



quarta-feira, 19 de maio de 2010





SEXCONTAS - QUEM ERA AFONSO, O "IMPULSO CONTROLADO"?


1.1   A DANÇA DAS LETRAS E O RALI DAS FORMIGAS




    
                                                    
           


Começara a teclar com Afonso em 21 de Março. Quem era Afonso?



Quando teclara a primeira vez com Afonso ficara surpreendida com a forma como ele lidava com as palavras, parecia que pegava nelas ao acaso, dava-lhes um piparote e elas vinham cair no seu écran, alinhadas em frases divertidas, cheias de humor. A alegria que jorrava da sua escrita advinha de uma espontaneidade que não parecia precisar do entendimento para nada, a sua escrita era uma dança de palavras que ora saltitavam, ora rebolavam, ora executavam mortais de cortar a respiração. Ele não se preocupava com a inteligibilidade do discurso, as palavras eram figuras que ele ora prendia, ora soltava, imprimindo-lhes ritmos tão variados e desencontrados que elas se comportavam como marionetas. Ele puxava os cordelinhos de propósito para as levantar de sopetão, fazendo com que elas às vezes caíssem umas em cim das outras sem lei nem roque, outras vezes deixava-as arrastar-se sem dó nem piedade. Sentia-se presa ao écran a tentar advinhar o movimento seguinte, não para entender o que quer que fosse, depressa tinha desistido de fazer funcionar a razão, mas para assistir ao espectáculo que se desenrolava na sua frente. Como seria a criatura que, do outro lado do écran, se divertia com as palavras? Que esperaria ele de si ? Que chamasse a atenção para o nonsense do discurso?

Em determinada altura pensara se aquela dança, onde não se vislumbrava a mínima ordem nem permitia antecipar o passo seguinte, não mascarava uma obscuridade não pretendida, mas fruto de alguma falta de engenho e arte na perseguição de um sentido. Afinal ele estava a escrever para ela ou para seu comprazimento pessoal?

“Cativa-me, disse a raposa”. Era isso que estava a contecer, ela estava a ser envolta por laços que a prendiam ao écran, estaria a ser laçada?
No universo dos chats, todos eram parecidos uns com os outros e ela, como a raposa do Saint-Exupéry, aborrecia-se um pouco, mas este nick estava a cativá-la, arrastava-a na sua embriaguez verbal. E, de facto, ao longo dos meses, os passos da sua escrita eram diferentes de todos os outros, reconhecia-os imediatamente e precisava deles para querer sair da toca como a raposa.


Para desconcerto, desconcerto e meio, foi assim que ela reagiu. Arrastada para o meio do baile, também ela se pôs a dançar com as palavras, num ritmo cada vez mais estonteante, elas rodopiavam a uma velocidade de que só as formas, soltas de conteúdo, são capazes. O sentido tinha hibernado ou tinha-se volatilizado, só havia espaço e tempo para as formas. O acme deu-se quando Afonso escreveu : “…fazer ralis com ideias de formigas.” Não lhe ocorreu nada que pudesse ultrapassar o nonsense desta frase.



...aí vão as formigas...começou o rali!!!
                                     
Nesses primeiros tempos, sempre que teclava com Afonso sentia-se a versejar, não se conhecia como poeta, mas sentia-se poeta…que a perdoassem os poetas. Ao longo da sua vida nunca ensaiara a mais pequena tentativa de escrever poesia, julgava-se fadada para a prosa e a esta tinha servido sempre com propriedade, elegância e até alguma criatividade, assim pensava. Procurava a inteligibilidade, mas não se considerava na escrita uma contempladora das palavras, nem sempre vazava o sentido nas formas habituais de dizer, de exprimir uma ideia. Sempre lhe dera gozo converter as palavras em objecto de inquérito, andar à procura da palavra ou de um modo de dizer o que se quer dizer num equilíbrio tenso entre a propriedade e a transgressão.

dois O entrelaçados


um M entornado
um J de rabo alçado


                                   

                                                                                                                                            A primeira grande conversa com o Afonso, no msn, tinha-a exaltado, sentia-se febrilmente lúcida, não sabia se por mérito dele ou se pela ultrapassagem de si própria na vertigem de uma escrita que nunca ousara, porque nunca ousara mandar o sentido às urtigas como tinha feito nessa noite.


Quem era Afonso? Ficara sem saber nada da vida pessoal deste, nem ele ficara a saber alguma coisa da sua.




 

segunda-feira, 10 de maio de 2010

HISTÓRIA EXEMPLAR DE UM CRETINO NO AEIOU









O aeiou era um dos chats mais abertos e, às vezes, escabrosos, em termos de linguagem, que ela conhecia…porque completamente livre. Não havia registos, entrava-se e saía-se das várias salas quantas vezes se quisesse, podia mudar-se de nick constantemente; entrar na mesma sala várias vezes com um nick sempre diferente, o que proporcionava experiências singulares. Uma vez entrou na sala dos 40-50 ou dos 50+, não se lembrava já, com um nick vulgaríssimo e foi convidada, sim neste caso é acertado utilizar a palavra convidada, a teclar por um “Paulo73” que escrevia bem, sem erros ortográficos e, ainda por cima, de uma forma aparentemente, como se veio a revelar, gongórica. Teclava como um “senhor”, sem usar palavrões, com palavras caras e com uma abordagem elegante. Depois de uma apresentação muito formal e, sobretudo, muito pomposa , o “senhor” começou a falar das suas emoções, da sua excelência afectiva, sim porque ele não era um ser carente de afecto, de amor, ele tinha isso tudo em excesso, só carecia de alguém a quem o dar, mas alguém que o merecesse. Ele nunca fazia sexo, só amor, afirmava constantemente. Entretanto, ia-lhe perguntando se ela gostava de fazer amor e se tinha feito há pouco tempo e se não, se já passara muito tempo desde a última vez, se precisava de carinhos, etc,. E tudo isto numa linguagem gongórica, afectada, cheia de ornatos e enfeites para disfarçar o seu interesse principal: sexo, como se falar de sexo fosse a última coisa que se poderia esperar dele. O enfado dela era cada vez maior, traduzido em frases cada vez mais curtas e anódinas ou em interjeições, que dão sempre muito jeito quando não se quer ou não se tem nada para dizer. Ele percebeu esse enfado, como aliás outras olhadoras que acompanhavam a conversa e, a certa altura, uma não se conteve e manifestou ao Paulo o seu deslumbramento perante uma escrita tão bonita, tão sensível, tão sábia e, ao mesmo tempo, a surpresa que lhe causava a mulher com quem ele estava a teclar não parecer sensível a tanta beleza, a tanta subtileza. O Paulo, muito cavalheiro, agradeceu à olhadora, mas fez-lhe sentir que estava a intrometer-se numa conversa privada. Talvez estimulado por este elogio e, às tantas surpreendido e irritado por não ter sido ainda devidamente apreciado por aquela com quem teclava, perguntou-lhe se ela gostava da forma como ele escrevia e, aí caiu o carmo e a trindade, ela respondeu-lhe que sim… mas que achava a sua escrita algo pomposa…foi o mais caridosa que conseguiu ser quando já estava a morrer de tédio. O Paulo foi aos arames, trepou pelas paredes, ao mesmo tempo que retorquia, dizendo que talvez ela não soubesse apreciar uma linguagem mais requintada, mais elaborada, e que era uma pena ela não mostrar receptividade a uma escrita, e a um ser, deduzia-se, tão excepcional. Tresandava a raiva contida, cujo odor é muito mais intenso do que a raiva explodida, porque o eflúvio é obrigado a confinar-se a um núcleo em efervescência que solta vapores sulfurosos incessantemente, em vez de se pulverizarem e desaparecerem rapidamente como acontece quando a raiva explode. Despediram-se polidamente e ela saiu da sala.

Voltou a entrar com outro nick, tinha curiosidade, queria olhar a conversa que se iria desenrolar entre o Paulo e a olhadora que há pouco se intrometera na conversa deles. Tinha a certeza de que ela iria aproveitar a oportunidade. E assim foi.

A olhadora desfazia-se em elogios, gabava a elegância, sensibilidade, a sofisticação e…o decoro que perpassavam na escrita dele, confessava a sua comoção e o Paulo só falava dela, da outra que tinha saído e fazia, agora sim, explodir a sua raiva. Dizia que o que a outra queria era só sexo, que se tinha apercebido disso logo no início, que ela até tinha insinuado um convite nesse sentido. Entretanto ela estava a teclar com um outro qualquer, embora se recordasse daquele nick – rapaz_ moreno - nesta sala, aquando da conversa com o Paulo. Parecia-lhe ser um rapaz com algum discernimento e que não dava erros ortográficos, isto é, alguém com quem não era desinteressante conversar.

A conversa entre o Paulo e a olhadora continuava a ser sobre ela, apesar das tentativas goradas da olhadora para chamar a atenção sobre si, a tal ponto que a olhadora disse ao Paulo que a outra tinha mesmo “mexido” com ele, e que ele devia esquecer pois a outra era uma desnaturada, uma criatura sem sensibilidade, não merecia tanta atenção, etc., e fazia-lhe sentir que ela estava ali, disponível para ser a receptora ávida da beleza, finura, inteligência da escrita dele. O Paulo parecia nem ler o que ela escrevia, continuava a destilar raiva, ódio e a inventar convites e apelos sexuais da outra que contrastavam com a sobriedade e delicadeza da sua atitude.

A certo ponto, ela não resistiu e chamou a atenção do nick com quem teclava para o facto insólito de o outro par estar só a falar de alguém que tinha saído da sala e da conversa que devia ter havido. Claro que ao dizer isto, estava a expor-se, corria o risco de ser imediatamente identificada como aquela que saíra da sala, ao mesmo tempo que denunciava pouco interesse pela pessoa com quem agora teclava e também de ser uma “cusca”. Em vez de se interessar pelo seu interlocutor, olhava as conversas dos outros. O “rapaz_moreno” fez-lhe sentir isso, o que confirmava a percepção que tinha tido acerca do discernimento dele. Lembrou-lhe que a mais valia desta forma de comunicação e dos chats era a liberdade, poder falar-se do que se quisesse. Este remoque não lhe agradou muito, continuava irritada com o que o Paulo dizia dela, com o que estava a inventar sobre ela. Como previra foi imediatamente identificada pelo Paulo e constituída em alvo directo de vitupérios. O “rapaz_moreno”, cheio de bom senso, disse-lhe para ignorar. Ela não interpelou o Paulo, dirigiu-se à interlocutora do Paulo, a olhadora que também se tinha imiscuído na sua conversa e sem floreados disse-lhe o que julgava esconder-se por detrás da escrita mortificada do Paulo. “ Um ser aparentemente cheio de si, incapaz de aceitar uma crítica à sua escrita e, consequentemente, à sua pessoa. As palavras de que ele se servia eram recolhidas de um leque antecipadamente desdobrado, onde pontificavam ternura, carinho, meiguice, extâse, amor e outras delicatessen que, obedientemente, se sucediam e cruzavam num discurso que percorria o pauzinho do leque que, como toda a gente sabe, estreita à medida que se aproxima do pé do leque, isto é, da mão que o segura. Começam por ter um sentido abrangente, quase universal onde o outro se integra facilmente porque se reconhece nessas palavras, e rapidamente se despem de outros significados, deixando a nu a intenção original : sexo, sexo e mais sexo. O que não tem nada de mal, muito pelo contrário.

Parecia que todos os nicks existentes nessa sala tinham parado de teclar, só apareciam no ecran as palavras dela e as palavras do “rapaz_moreno” a dizer-lhe para se acalmar. Este também ia levar, ela estava calma, já não falava para ninguém em particular, falava para todos, e estava a dar-lhe um imenso gozo pôr a nu criaturas como o Paulo, armadas em púdicas, repletas de lugares comuns, ocultas por detrás de camadas sucessivas de máscaras barrocas pirosas, a fazerem lembrar as imitações que por aí andam das magníficas máscaras de Veneza. O Paulo era uma pileca travestido em cavaleiro andante, armado de pompa e circunstância para mascarar a sua mais que certa impotência, os galões e outra passemanaria com que revestia o seu discurso denunciavam as festinhas que ia fazendo ao seu pénis mole, encarquilhado, donde de vez em quando saía um estertorzinho quando o seu dono julgava ter escrito uma coisa deveras interessante.

Aquilo que se é, mais tarde ou mais cedo, assoma na escrita e a escrita destas criaturas é uma escrita mortificada, pestilenta, que deixa um rasto de sémen mumificado.

Desejou boa sorte à olhadora, actual interlocutora do Paulo73 e dirigiu-se ao “rapaz_moreno”, pedindo-lhe desculpa pelo facto de o ter “usado” para a partir do seu “teclanço” ter soltado o seu libelo.

domingo, 9 de maio de 2010

O GABIRU & A BALZAQUIANA










João fazia parte do primeiro grupo de homens com quem teclara e com quem fora para a cama. Ainda estava na fase de ir primeiro tomar café e depois logo se via… Essa fase foi de curta duração.Tinha ouvido dizer, tinha lido algures, mais do que uma vez, que se devia proceder assim, combinar encontros sempre em local público, de preferência em zonas que não permitissem identificar o sítio onde se morava nem fornecessem quaisquer indícios quanto a percursos habituais, como os de casa para o emprego, etc.. Os próprios gajos com quem teclava e cuja distância geográfica, inviabilizava a marcação de qualquer encontro, eram os primeiros a oferecer esse conselho quando se falava dos encontros com pessoas da net. Infringiu logo esse conselho, nem sequer se deu ao trabalho de pensar nisso nem nas razões da recomendação. Era demasiado comodista para se deslocar a sítios distantes, andar à procura de lugares desconhecidos e depois até podia ser uma chatice, teria de percorrer outra vez uma distância imensa para chegar a casa. Não, mais valia ser ali por perto, porque se o encontro fosse um insucesso rapidamente se poria em casa e se fosse bem sucedido e a pedir continuação também tinha para onde ir rapidamente.


O João era engenheiro e trabalhava por turnos, naquela semana saía às sete da manhã. Ele propôs-lhe tomarem o pequeno almoço juntos e essa hora matutina aguçou-lhe o apetite pelo encontro. Encontraram-se num café perto de sua casa, que frequentava regularmente e conhecia de vista quase toda a gente que lá ia. Foi fácil descobri-lo, não tanto pelos traços físicos com que se descrevera mas porque não era dali. Lembrou-lhe o auto-retrato do Bocage: magro, carão moreno, meão na altura, nariz alto no meio, e não pequeno, mas com olhos negros.

Foi um encontro cordial, simpático, e onde pairou alguma atracção física, os olhos dele demoravam-se nos seus, passavam pelos seus lábios e detinham-se nos seios, que se advinhavam grandes, rotundos e de mamilos proeminentes. A ela atraíra-a a expressão marota, entre o gabiru e o.pretendente a marialva, e a sua pele sobressaltou-se com alguma transformação química que ocorrera no seu organismo quando saíram do café e ele vestiu o sobretudo preto. Deu-se um upgrade inesperado, pelos vistos também nas suas células, o sobretudo dera-lhe distinção e altura também. Esta impressão claramente favorável sofreu um pequeno revés quando reparou nas botas afuniladas, à cowboy.
Combinaram encontrar-se nessa semana, ao princípio da tarde para tomar café e conversarem. Mais uma vez, um outro café da zona serviu para se encontrarem e, desta vez, foi apenas a antecâmara da sua casa. Quando surgiu a questão de para onde iriam a seguir e o que iriam fazer, ela propôs que fossem a sua casa, estava ali à mão e era também uma forma de a conhecer um pouco melhor ao conhecer o seu espaço. Não havia quaisquer indícios de que fossem nesse dia para a cama, nem ela sentia qualquer excitação particular nem se apercebia de que se passasse algo de diferente com ele. Sentaram-se no sofá da sala e olharam-se demoradamente e esse olhar fê-los aproximar o rosto e beijarem-se. João beijava bem, beijaram-se repetidas vezes daquele modo que às vezes acontece em que os lábios parecem relutantes em se desprenderem, em que as bocas se procuram com sofreguidão, avessas a intervalos. Neste enleio foram para a cama e os beijos continuavam ininterruptamente, determinando os movimentos e posições dos seus corpos. João confessou-lhe que não vinha preparado e acrescentou que não imaginava que iam ter sexo nesse dia. Foi o suficiente para ela arrepiar caminho, ia-lhe dizer que ela estava preparada, que tinha preservativos, mas aquela confidência fê-la pensar que ele a podia considerar demasiado oferecida, que o convite para irem para sua casa não tinha sido tão inocente como, por acaso, até tinha sido. Mimaram-se mutuamente, e ela fez-lhe um broche com arte e engenho, aptidão que sabia ter mas que há muito tempo não exercitava. Sentiu o prazer dele e percebeu que não tinha perdido essa habilidade quando ele se veio. A penetração ficaria para depois, um depois certamente muito próximo porque a vontade de ambos em se possuírem era tão intensa que quase doía.

Encontraram-se regularmente durante dois meses e de todas as vezes era bom. Este relacionamento extravasou o perímetro da cama, foram algumas vezes jantar fora, ela apresentou-o a duas amigas suas e tudo parecia indicar que esta situação prosseguiria tranquilamente, com visitas regulares. Tinha ali sexo garantido pelo menos uma vez por semana e achava que até não queria mais, queria era mais garantias deste tipo com outros homens.

Sentia por João a ternura e o afecto suficientes para que o sexo tivesse uma moldura emocional, mas não mais do que isso. Sabia que ele, divorciado e já avô, pois tivera uma filha aos quinze ou dezasseis anos, tinha uma namorada à séria, até lhe mostrara a fotografia dela no seu telemóvel e de quem ele às vezes falava sem grande fervor, verdade se diga. As visitas dele tornaram-se mais espaçadas e a justificação que ele lhe dava, sem que ela a pedisse, até porque andava ocupada com outros affairs, residia sempre no trabalho. Passado algum tempo, adiantou-lhe uma outra razão que lhe fez perceber a crescente seriedade do compromisso com a tal namorada, iam experimentar viver juntos. Embora esta revelação lhe tivesse sido feita pessoalmente, num tom ligeiro e descomprometido no intervalo de uma das suas sessões de sexo, enquanto os corpos recobram energias e o espírito fica propenso a confidências, sentiu ameaçada a regularidade da sua actividade sexual com ele. Não se lembrava se tinha havido ou não mais algum encontro antes do grande interregno que se seguiu, não só traduzido na ausência pessoal dele como na ausência de qualquer outro tipo de contacto, nomeadamente, através do msn. Até parecia que ele não ia trabalhar porque nunca estava online. Enviou-lhe um mail, que ficou sem resposta, a perguntar se ele estava bem, e por que não dava quaisquer sinais de vida. Passado bastante tempo encontrou-o outra vez no msn e não resistiu a chamá-lo e então teve a grande revelação. À mistura com muitas desculpas por não a ter contactado antes, disse-lhe que acabara de ser pai, que a namorada tivera um filho seu e que se sentia mal com ele próprio por não ter sido mais franco com ela. Acrescentou ainda que quando as coisas acalmassem queria estar com ela, que tinha saudades de fazer amor com ela.


Ela já tinha dado por encerrado este caso, não tanto pela história do filho mas pela ausência de contacto durante tanto tempo e não voltou a pensar nele. Nunca o excluiu do msn, mas era como se o tivesse feito, ele aparecia online e ela não o chamava e reciprocamente.

Poltrona de Gaetano Pesce, 1969

sábado, 8 de maio de 2010

A PRIMEIRA VEZ NO CHAT







Movida pela expectativa de encontrar e pelo desejo de possuir – era esta a atitude que a caracterizava quando entrava nos chats. No início só a movia a curiosidade, nem sequer sabia o que responder quando alguém a interpelava acerca das razões que a levavam a teclar com desconhecidos.


A primeira vez que entrou num chat, o do sapo, não percebeu que se podiam abrir janelas de conversação para enviar e receber mensagens directas dos nicks que estavam online. Ela só via o écran ocupado por uma única e imensa janela onde se sucediam a uma velocidade alucinante frases escritas por nicks diferentes, algumas frases pareciam respostas a perguntas que alguém teria feito, outras eram interrogações sobre afirmações que também alguém devia escrito, em ambos os casos era difícil descobrir quem conversava com quem, dada a velocidade com que tudo se passava e a impossibilidade de parar a janela de conversação, de a fixar num determinado ponto para poder obter uma sequência de frases trocadas entre os mesmos interlocutores. Como podia entrar numa conversa se não conseguia perceber sobre que falavam aqueles nicks. Tinha também reparado que, de vez em quando, entravam nicks que cumprimentavam todos os presentes e escreviam frases que não pareciam ter um destinatário particular. De qualquer modo pensou que não lhe ocorria nada de importante ou interessante para comunicar a todos os presentes. Também não viu nada escrito suficientemente interessante para suscitar um comentário seu. O que viu em abundância eram erros gramaticais e ortográficos, que se sucediam a uma velocidade também vertiginosa tanto quanto a das letras que se eclipsavam das palavras. Constatou a quase inexistência de pontuação, que dificultava sobremaneira o entendimento daquela escrita, até das frases mais anódinas.

Começou a corrigir erros ortográficos, os de carácter sintáctico implicavam reconstruir frases e isso demorava tempo, mais tempo do que aquele em que uma frase era visível no écran. Sem se dirigir aos autores que atentavam contra a língua, corrigia os erros de todos, erros ortográficos de palmatória, tantos e tão graves…que teve vergonha de estar ali, num sítio onde se escrevia tão mal. Que interesse poderiam ter as criaturas que escreviam assim? Mesmo assim perseverou nesta sua intervenção didáctica e forjou mesmo o nick “fiscal_da_língua”.


Alguns perceberam e agradeceram-lhe, a maioria fez de conta que não era nada com eles…e outros perguntaram-lhe se não estava interessada em fiscalizar outro tipo de línguas, inspeccionar lábios e gargantas, etc. Tinha decidido sair quando percebeu como se podia enviar uma mensagem directa e passar a teclar com uma única pessoa, em vez de ter de se dirigir a todas na janela pública. Havia janelas privadas. Aprendeu também a reduzir a janela pública de modo a poder ver a lista dos nicks online, tal como aprendeu a responder em mensagem directa aos nicks que a convidavam para uma conversa. Chegava a ter cinco ou seis janelas de conversação directa abertas em simultâneo e tentava responder a todos em tempo útil. Rapidamente se apercebeu de que isso não era possível nem desejável. Não teclava com a rapidez necessária e trocava constantemente as respostas, isto é, escrevia frases a pensar num interlocutor e acabava por ser outro a recebê-las. Também percebeu que a maioria gostava de exclusividade, embora viesse mais tarde a saber que ninguém a praticava, gostavam de pensar que estavam a ser os únicos objectos da sua atenção.

Nas vezes seguintes tentou dar atenção só a dois ou três e ter mais cuidado no envio das respostas, não trocando os destinatários. Reconheceu haver um conjunto de perguntas padrão que quase todos faziam: dtc? =abreviatura da pergunta“de onde teclas?”; idd?= abreviatura da pergunta”quantos anos tens?”; cas/div/sol = abreviaturas dos vários estados civis; kfazes?, utilizado para perguntar a profissão. Este conjunto de questões iniciais aparecia sempre. Seguia-se um outro conjunto de perguntas, com formulações mais variadas, que dizia respeito ao que se gostava de fazer nos tempos livres, se se vivia sozinho, se se tinha filhos, questões que se formulavam ou não em função da resposta dada ao primeiro conjunto de perguntas. E, finalmente, surgia o pedido de descrição, quase sempre, física.

Ela teimava em responder ao pedido de descrição, começando pela caracterização intelectual, melhor, pelo fornecimento de alguns dados sobre si, do ponto de vista intelectual, e depois costumava acrescentar que quanto aos outros aspectos, era como as personagens do filme “Feios, porcos e maus”, de Ettore Scola. Era um filme de 1976, a maioria dos presentes não o devia ter visto nem sequer ouvido falar nele. Não interessava, permitia passar uma mensagem susceptível de ser interpretada de várias maneiras, de que esboçara o elenco sumário e qualquer um dos sentidos previsíveis não lhe desagradava. Uma hipótese de descodificação interpretativa: ela era demasiado exigente consigo própria, portanto retratava-se de forma a que qualquer que viesse a ser a representação que construíssem de si, seria sempre melhor do que o original, neste caso, o referente/filme; outra hipótese: a resposta era tão insólita que, só por isso, valia a pena teclar com ela; e, ainda outra, mais improvável, mas que correspondeu ao sentido que alguns atribuíram à mensagem: ela era o oposto e servia-se daquele título como estratagema para não ser muito assediada pelos nicks. Todas elas apresentavam vantagens, como calculara.


As primeiras sessões no chat do sapo permitiram-lhe fixar dois ou três nicks que não pareciam desprovidos de total interesse. Não escreviam mal, expunham-se, às vezes de um modo tão desprevenido que a deixavam apanhar indícios dos seus sonhos, do que desejavam da vida e das representações que faziam das suas vidas. O sexo estava sempre presente, já o esperava e soube lidar com isso de um modo que também não a surpreendeu, estava preparada para esse eterno motivo da existência humana.

A maioria daqueles com quem teclou era casado, mal casado do ponto vista sexual, como rapidamente percebeu. “Mal casado” era uma expressão que a irritava, como se aquelas duas palavras não devessem ser utilizadas juntas, ou a palavra mal era um invólucro inadequado à coisa engastada – casamento, ou era esta que se revelava como um invólucro ornamental da coisa engastada, pelos vistos mal engastada – a existência. Gostava de discutir esta expressão com aqueles que a usavam. Muitos admitiam que gostavam, alguns diziam mesmo amar a pessoa com quem estavam casados. Eram esses os que lhe despertavam interesse, porque aqueles que invocavam os filhos, a estabilidade familiar a qualquer preço, a vidinha cómoda, etc., como razões da manutenção do viver “mal casado” não tinham redenção, nunca saberiam distinguir o continente do conteúdo. Interessou-se pelas razões da insatisfação sexual por parte de seres que amavam a sua parceira. Ausência de interesse sexual por parte da companheira, em várias declinações, desde a recusa explícita de sexo, à forma mais frequente de consentimento relutante, penoso, numa atitude sacrificial da fêmea que sabe que de vez em quando tem de se submeter àquele capricho do macho, definia o perímetro da vida sexual daqueles casais. Havia aqui uma obscuridade no comportamento sexual das mulheres que a deixava perplexa. É que, aparentemente, não estava a lidar com homens brutos, violentos, desinteressados do prazer sexual da mulher. Passou horas a falar disto com o António, nunca o conheceu pessoalmente mas tornou-se sua confidente e, em conjunto, tentavam perceber o que se passava com a obstinada recusa da mulher dele em fazer sexo. A primeira pergunta que ela lhes fazia era se falavam do assunto um com o outro. Invariavelmente diziam que sim. António descrevia-lhe cenas de sedução, reveladoras de sensibilidade, enamoramento, bom gosto e até de algum requinte estético que a faziam estremecer e desejar aquele ser. Outras vezes dava-lhe conta de outras estratégias mais provocadoras, lúbricas, lascivas que a sacudiam, a mordiam de desejo. Não compreendia o que se passava. Uma vez perguntou-lhe se já lhe tinha passado pela cabeça que ela lhe podia ser infiel, se essa situação era absolutamente inverosímil. Para sua surpresa, ou talvez não, ele disse-lhe que até isso tinha averiguado.

Fez uma espécie de sexo virtual com ele, algumas vezes, depois de ter adquirido a webcam, ia-lhe mostrando algumas partes do seu corpo, mexia nos seus seios, de vez em quando mostrava a sua vagina e acariciava-a para ele ver. Ele insistia em que baptizassem os seus órgãos genitais, em que dessem nomes àquelas forças vivas dos seus desejos. Inventaram nicks: vagina passou a ser virgínia, a virgínia que teclava com o toino (lembrou-se daquela letra de uma canção da sua infância “…não vás ao mar, toino”). Tentava ocultar as partes do seu corpo que ela própria detestava ver: barriga, estômago, pernas, braços. António, corpo grande, entroncado, forte quase obeso, ficava completamente nu, aproximava o pénis da cam e abandonava-se languidamente à masturbação até se vir. Ela fazia questão em ver esse momento, sentia-se …bondosa quando a cam mostrava o écran salpicado por gotas de sémen. Numa noite, já bastante tarde, estavam os dois entretidos com os movimentos da virgínia e do toino, quando António ficou subitamente offline. Esperou algum tempo, pois não era raro “caírem”, ficavam sem rede, mas passado pouco tempo, retomavam a conversa. Naquela noite, passou bastante tempo e António não voltou.

Soube, mais tarde, que a mulher o tinha surpreendido e que a vida sexual deles ia de vento em popa, a partir daquele momento. Leitores e leitoras, talvez possam aprender alguma coisa com esta experiência.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

É PREFERÍVEL SER TROCADA OU ABANDONADA?



Que exagero! Não, o seu corpo não era assim;  talvez mais 25Kg do que a da esquerda, menos 70Kg do que a da direita?.




















Foto de Sara SaudKova

Trocada por outra? Perder na competição. Desinteressou-se de mim? Sentimento de abandono. Em ambos os casos perdia. A vida como competição era uma representação que rejeitava imediatamente, embora soubesse que era exactamente isso que a vida era. Mas não se sentia a competir, sabia-se a competir mas recusava-se a viver nesses termos. O medo de perder era um medo difícil de enfrentar, não queria sentir isso, não queria entrar na competição amorosa. Nesta não tinha armas à altura, a fraca auto estima a quem ela dava ouvidos dizia-lhe alto e bom som que não valia a pena jogar…porque ia perder. Era uma derrotada nata. Como podia vencer numa luta “corpo a corpo” carregando às costas uma obesidade quase mórbida? São os corpos os protagonistas deste combate, as caras quase não se vêm, e a excelência intelectual, muito menos. A silhueta apetecível ao olhar, que convoca o desejo do outro, a graciosidade do movimento de traçar a perna, a firmeza dos seios que se advinha quando não há estômago à vista, a flexibilidade do torso que as clavículas visíveis anunciam, eram armas de que ela não dispunha. Como podia competir sem elas?


Um amigo tinha-lhe dito que a maioria dos homens preferia gordinhas na cama, mas acrescentou: magrinhas na rua. Mas ela não era gordinha, era uma baleia, era esta a imagem que tinha do seu corpo e com esta imagem não ia a lado nenhum, nem valia a pena tentar, não valia a pena entrar na competição…e quando entrava, não por vontade própria, mas porque alguém míope a “escolhia” não podia evitar o sentimento de gratidão. Claro que percebia que o seu olhar perscrutante, o seu sorriso de menina, a doçura dos seus gestos, a fluência e humor do seu discurso, a sua cultura, o modo aberto como discutia qualquer tema, o pendor libertino que perpassava nas suas palavras, a singularidade de alguns dos seus comportamentos do dia a dia e hábitos inabituais, constituíam motivos de interesse, tornavam-na uma mulher interessante. As conversas nos chats da net provavam isso, até a utilização de webcam não a prejudicava, desde que não mostrasse o corpo. Despertava interesse e sabia tornar-se interessante. Mas isso não chegava para vencer na competição “corpo a corpo”, quando entrava, quando era obrigada a entrar, sabia que ia perder. Esta assumpção à partida da derrota evitava danos maiores, permitia-lhe mesmo enfrentar com alguma serenidade o facto de ser trocada por outra, chegando até a reconhecer a justeza dessa decisão. Já esperava que isso acontecesse, por isso não assacava culpas ao outro, aparentemente perdoava facilmente. Não lhe custava assim tanto ser trocada por outra, se a outra fosse melhor do que ela fisicamente, o que obviamente não era difícil, era até muito fácil…bastava pensar nas pregas e dobras de gordura que enfeitavam o seu corpo.

Custava-lhe muito mais ser abandonada. Aqui não era trocada por alguém em particular, com quem se podia confrontar e reconhecer facilmente que o outro tinha razão, a outra era melhor do que ela; aqui, era trocada por tudo em geral e isso fazia-a sofrer mais, muito mais. Ser abandonada equivalia a sentir que para o outro tudo era mais interessante do que ela, que a existência, com as suas rotinas, era mais suportável com a sua ausência.

Precisava de pensar mais na diferença entre estas duas situações, a sua “desconformidade física”, como o outro escrevera, seria suficiente para explicar por que o abandono lhe era mais penoso? Ao escrever isto lembrou-se da série “O sexo e a cidade”, pareceu-lhe haver alguma semelhança entre esta sua reflexão e os artigos da Carrie Bradshaw, se bem que, e isto era digno de nota numa sociedade em que a obesidade era uma calamidade, os problemas das gordas nunca tivessem constituído tema de reflexão nesta série, pelo menos nos episódios que tinha visto. Valeria a pena comprar o DVD desta série e passar em revista os temas abordados?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

DESPEDIDA POR SER GORDA






Clínica de emagrecimento – regime “pão e água + sexo”. Nos jogos nocturnos a que os insones são dados, a ideia surgira, impusera-se varrendo as outras que por ali andavam e teimava em permanecer, em demorar-se, obrigando-a a ocupar-se dela e a reviver a situação que ensombrara o seu dia anterior e de que aquela ideia era uma manifestação. Tinha sido rejeitada e a palavra desconforme resumia as razões do queixoso. Essa palavra tinha sido escrita, sim, escrita, porque a rejeição fora-lhe anunciada no msn. E referia-se a desconformidade física, um eufemismo para evitar a palavra gorda, obesa, etc,. Sim, ela era intelectualmente estimulante, culta, divertida, um rosto bonito, mas…desconforme…





                                                                               Foto de Fabien Azzopardi

Acaba de enviar um Toque!

Impulso controlado diz:

Olá Malte
Malte diz:
tou a ficar negra, só se salvam os lábios... lol
Impulso controlado diz:
ja vi
Impulso controlado diz:
olha nao nos podermos encontrar
Malte diz:
está mal, quer dizer, está bem… que remédio...qual é a perspectiva?
Impulso controlado diz:
ando cheio de trabalho e gosto de ti mas
Malte diz:
mas..........?
Impulso controlado diz:
gostava de ficar por aqui no nosso relacionamento íntimo
Malte diz:
outra vez...que aconteceu? pelo menos explica-me
Impulso controlado diz:
risos...só tu, nao aconteceu nada desta vez
Malte diz:
pelo menos isso, dá-me uma explicação
Impulso controlado diz:
preciso de me aquietar
Malte diz:
e eu desinquieto-te? exijo alguma coisa?
Impulso controlado diz:
és queridíssima
Impulso controlado diz:
Não, nada … és lindérrima
Malte diz:
não pensas minimamente nas repercussões que isso tem em mim?
Impulso controlado diz:
mas como sou paranóico (risos) voltei à obsessão
Malte diz:
qual?
Impulso controlado diz:
por isso. quanto mais tarde mais forte é o nosso envolvimento, e eu não quero
Malte diz:
mas qual obsessão?
Impulso controlado diz:
a obsessão é ser desconforme, inusitado, mas podemos falar sempre
Malte diz:
eu sou desconforme?
Impulso controlado diz:
eu é que sou desconforme, eu é que reajo ao contrário do que se espera
Malte diz:
desculpa, não percebo bem,
Impulso controlado diz:
tu és forte e eu não sou nada por aí além
Malte diz:
concede-me alguns momentos...só para eu tentar entender alguma coisa, diz claramente o que se passa, por favor
Impulso controlado diz:
nao se passa nada Malte
Malte diz:
não tens mais vontade de estar comigo, é isso?
Impulso controlado diz:
é
Malte diz:
não te apeteço?
Impulso controlado diz:
tanta pergunta
Malte diz:
sou mesmo horrível...
Malte diz:

não percebo porque quando estás comigo não és capaz de dizer nada, porque arranjas este meio para falares do que sentes ou não sentes?
Impulso controlado diz:
porque é mais cómodo
Malte diz:
pessoalmente devias ter dito alguma coisa
Impulso controlado diz:
desculpa, isso é a tua opinião e não considero que seja desrespeito por ti usar este meio
Malte diz:
ok
Impulso controlado diz:
não foi ele que nos fez também conhecer? não foi bom? foi!
Malte diz:
divino, genial, ar , lua, sol ....tudo treta???
Impulso controlado diz:
não digas isso
Malte diz:
diz-me só mais uma coisa: o teu desagrado é físico, intelectual, sexual ou o quê?
Impulso controlado diz:
Malte, és uma pessoa singular
Impulso controlado diz:
intelectualmente muito interessante, culta
Impulso controlado diz:
desinibida
Impulso controlado diz:
emocionalmente relativamente estável
Impulso controlado diz:
com um rosto bonito
Impulso controlado diz:
o resto escuso-me de qualificar
Impulso controlado diz:
o sexo é bom mas..
Malte diz:
o resto é o físico, a gordura?
Impulso controlado diz:
é
Malte diz:
e sobre o sexo? não percebi
Impulso controlado diz:
é bom mas não tanto por seres gordinha, desculpa estar a falar-te assim mas foste tu que me pediste
Malte diz:

ok, percebo, só não entendo porque me dizias que era excelente, eram momentos do "outro mundo"?
Impulso controlado diz:
e eram
Impulso controlado diz:
mas não precisam de ser repetidos, não está implícito
Malte diz:
portanto, resumindo e concluindo e estás a ajudar-me, agradeço-te por isso, o físico sobrepõe-se a tudo e estraga o resto
Malte diz:
é assim?
Impulso controlado diz:
numa relação como a nossa conta muito, mas eu continuo a gostar de ti do mesmo modo que sempre gostei, sexo à parte

Malte diz:
sexo à parte porque inclui o contacto físico...é isso que te repugna?
Impulso controlado diz:
nada me repugna em ti

Impulso controlado diz:
só que quero parar, reencontrar-me
Malte diz:
ok,
Impulso controlado diz:
nem sei se vou voltar a querer procurar alguém
Impulso controlado diz:
beijos
Malte diz:
beijos, adeus, adieu, goodbye, aufwiedersehen
Impulso controlado diz:
em tantas línguas....
Impulso controlado diz:
vou trabalhar que tenho imenso para fazer
Impulso controlado diz:
vamo-nos vendo por aqui sempre que quiseres


Àquela hora da noite e num estado de sobreexcitação, a ideia parecia-lhe luminosa, tanto que se levantou da cama para a anotar – procedimento que imprudentemente nunca utilizara. Sabia que as ideias lhe fugiam muitas vezes, mas ao mesmo tempo pensava que produzia tantas ideias por minuto que não fazia mal que algumas se escapassem, não podia carregá-las todas e grande parte bem podia ir para o lixo, como a realidade lhe mostrava a toda a hora, umas vezes por defeito da realidade, outras vezes por defeito da ideia.
Mas aquela tinha pernas para andar e começou mesmo a andar muito depressa, teve de correr para apanhar o pensamento que lhe ia ditando ideiazinhas rapidamente anotadas como tópicos: sexo regular – diário ou tão frequente quanto a cliente o desejar; com o mesmo parceiro ou parceiros diferentes… e as que tinham marido, companheiro, namorado, amigo …que amavam e queriam continuar a amar … como se poderiam integrar num regime em que o sexo iria assumir um papel tão pregnante…? Claro, antevia já uma constelação de problemas, mais nebulosa do que constelação.


Começou a pensar nas suas hipotéticas clientes…as destinatárias desta ideia tão peregrina. O universo que a sua clínica poderia abranger era imenso, mas tinha de examinar isso depois, à luz do dia. Havia outras ideiazinhas que aguardavam registo e que tinha medo que lhe escapassem sem deixar rasto, outras ainda passavam por ela e senti-as massajarem-na como o faz uma estimulação eléctrica.


Regime alimentar “pão e água”, era drástico, não podia ser levado à letra, aliás nunca lhe deixariam abrir uma clínica assim, contrariava todas as regras de uma alimentação racional, teria toda a gente contra si, as autoridades sanitárias, etc.,. Mas pressentia que esse não seria o problema essencial, exigia investigação, aconselhamento científico, mas era resolúvel.

A sida. O problema da sida, o medo sempre presente quando se pensa em vários parceiros. Esse sim, era um bico de obra. Testes obrigatórios para o pessoal masculino, claro. Então e as lésbicas? Não tinham direito a ser magras…teria de haver pessoal feminino? Mas a questão essencial residia do outro lado, testes obrigatórios para as clientes? Era inevitável. E as que queriam continuar a fazer sexo com os maridos, companheiros, etc., testes obrigatórios também para estes? Nunca mais acabava.


Tinha de pensar mais, muito mais e muito melhor, no dia seguinte.

Já agora que estava levantada, valia a pena tomar nota dos requisitos a preencher para alguém poder ser qualificada como “desconforme”, aquela palavra tão desconfortável que o outro lhe dissera. Talvez os da banda gástrica servissem, obesidade, obesidade mórbida…tinha de voltar a ler o folheto de divulgação dessa intervenção cirúrgica. E o tempo de internamento? Sim, tinha de ser com internamento. Quem resistiria ao “pão e água” sem internamento. Um mês, dois meses…

Voltou para a cama às voltas com a questão do internamento. O “tratamento” não podia ser realizado, de modo nenhum, em regime ambulatório. A ideia de prisão começou a tomar forma.

Levantou-se para anotar “Clínica – prisão”. Celas. Regime prisional. Começou a sentir claustrofobia, precisava de ar. Um cigarro fumado na varanda às 4 da manhã aliviou um pouco a atmosfera concentracionária que a acompanhou até à cama.