A primeira vez que entrou num chat, o do sapo, não percebeu que se podiam abrir janelas de conversação para enviar e receber mensagens directas dos nicks que estavam online. Ela só via o écran ocupado por uma única e imensa janela onde se sucediam a uma velocidade alucinante frases escritas por nicks diferentes, algumas frases pareciam respostas a perguntas que alguém teria feito, outras eram interrogações sobre afirmações que também alguém devia escrito, em ambos os casos era difícil descobrir quem conversava com quem, dada a velocidade com que tudo se passava e a impossibilidade de parar a janela de conversação, de a fixar num determinado ponto para poder obter uma sequência de frases trocadas entre os mesmos interlocutores. Como podia entrar numa conversa se não conseguia perceber sobre que falavam aqueles nicks. Tinha também reparado que, de vez em quando, entravam nicks que cumprimentavam todos os presentes e escreviam frases que não pareciam ter um destinatário particular. De qualquer modo pensou que não lhe ocorria nada de importante ou interessante para comunicar a todos os presentes. Também não viu nada escrito suficientemente interessante para suscitar um comentário seu. O que viu em abundância eram erros gramaticais e ortográficos, que se sucediam a uma velocidade também vertiginosa tanto quanto a das letras que se eclipsavam das palavras. Constatou a quase inexistência de pontuação, que dificultava sobremaneira o entendimento daquela escrita, até das frases mais anódinas.
Começou a corrigir erros ortográficos, os de carácter sintáctico implicavam reconstruir frases e isso demorava tempo, mais tempo do que aquele em que uma frase era visível no écran. Sem se dirigir aos autores que atentavam contra a língua, corrigia os erros de todos, erros ortográficos de palmatória, tantos e tão graves…que teve vergonha de estar ali, num sítio onde se escrevia tão mal. Que interesse poderiam ter as criaturas que escreviam assim? Mesmo assim perseverou nesta sua intervenção didáctica e forjou mesmo o nick “fiscal_da_língua”.
Alguns perceberam e agradeceram-lhe, a maioria fez de conta que não era nada com eles…e outros perguntaram-lhe se não estava interessada em fiscalizar outro tipo de línguas, inspeccionar lábios e gargantas, etc. Tinha decidido sair quando percebeu como se podia enviar uma mensagem directa e passar a teclar com uma única pessoa, em vez de ter de se dirigir a todas na janela pública. Havia janelas privadas. Aprendeu também a reduzir a janela pública de modo a poder ver a lista dos nicks online, tal como aprendeu a responder em mensagem directa aos nicks que a convidavam para uma conversa. Chegava a ter cinco ou seis janelas de conversação directa abertas em simultâneo e tentava responder a todos em tempo útil. Rapidamente se apercebeu de que isso não era possível nem desejável. Não teclava com a rapidez necessária e trocava constantemente as respostas, isto é, escrevia frases a pensar num interlocutor e acabava por ser outro a recebê-las. Também percebeu que a maioria gostava de exclusividade, embora viesse mais tarde a saber que ninguém a praticava, gostavam de pensar que estavam a ser os únicos objectos da sua atenção.
Nas vezes seguintes tentou dar atenção só a dois ou três e ter mais cuidado no envio das respostas, não trocando os destinatários. Reconheceu haver um conjunto de perguntas padrão que quase todos faziam: dtc? =abreviatura da pergunta“de onde teclas?”; idd?= abreviatura da pergunta”quantos anos tens?”; cas/div/sol = abreviaturas dos vários estados civis; kfazes?, utilizado para perguntar a profissão. Este conjunto de questões iniciais aparecia sempre. Seguia-se um outro conjunto de perguntas, com formulações mais variadas, que dizia respeito ao que se gostava de fazer nos tempos livres, se se vivia sozinho, se se tinha filhos, questões que se formulavam ou não em função da resposta dada ao primeiro conjunto de perguntas. E, finalmente, surgia o pedido de descrição, quase sempre, física.
Ela teimava em responder ao pedido de descrição, começando pela caracterização intelectual, melhor, pelo fornecimento de alguns dados sobre si, do ponto de vista intelectual, e depois costumava acrescentar que quanto aos outros aspectos, era como as personagens do filme “Feios, porcos e maus”, de Ettore Scola. Era um filme de 1976, a maioria dos presentes não o devia ter visto nem sequer ouvido falar nele. Não interessava, permitia passar uma mensagem susceptível de ser interpretada de várias maneiras, de que esboçara o elenco sumário e qualquer um dos sentidos previsíveis não lhe desagradava. Uma hipótese de descodificação interpretativa: ela era demasiado exigente consigo própria, portanto retratava-se de forma a que qualquer que viesse a ser a representação que construíssem de si, seria sempre melhor do que o original, neste caso, o referente/filme; outra hipótese: a resposta era tão insólita que, só por isso, valia a pena teclar com ela; e, ainda outra, mais improvável, mas que correspondeu ao sentido que alguns atribuíram à mensagem: ela era o oposto e servia-se daquele título como estratagema para não ser muito assediada pelos nicks. Todas elas apresentavam vantagens, como calculara.
As primeiras sessões no chat do sapo permitiram-lhe fixar dois ou três nicks que não pareciam desprovidos de total interesse. Não escreviam mal, expunham-se, às vezes de um modo tão desprevenido que a deixavam apanhar indícios dos seus sonhos, do que desejavam da vida e das representações que faziam das suas vidas. O sexo estava sempre presente, já o esperava e soube lidar com isso de um modo que também não a surpreendeu, estava preparada para esse eterno motivo da existência humana.
A maioria daqueles com quem teclou era casado, mal casado do ponto vista sexual, como rapidamente percebeu. “Mal casado” era uma expressão que a irritava, como se aquelas duas palavras não devessem ser utilizadas juntas, ou a palavra mal era um invólucro inadequado à coisa engastada – casamento, ou era esta que se revelava como um invólucro ornamental da coisa engastada, pelos vistos mal engastada – a existência. Gostava de discutir esta expressão com aqueles que a usavam. Muitos admitiam que gostavam, alguns diziam mesmo amar a pessoa com quem estavam casados. Eram esses os que lhe despertavam interesse, porque aqueles que invocavam os filhos, a estabilidade familiar a qualquer preço, a vidinha cómoda, etc., como razões da manutenção do viver “mal casado” não tinham redenção, nunca saberiam distinguir o continente do conteúdo. Interessou-se pelas razões da insatisfação sexual por parte de seres que amavam a sua parceira. Ausência de interesse sexual por parte da companheira, em várias declinações, desde a recusa explícita de sexo, à forma mais frequente de consentimento relutante, penoso, numa atitude sacrificial da fêmea que sabe que de vez em quando tem de se submeter àquele capricho do macho, definia o perímetro da vida sexual daqueles casais. Havia aqui uma obscuridade no comportamento sexual das mulheres que a deixava perplexa. É que, aparentemente, não estava a lidar com homens brutos, violentos, desinteressados do prazer sexual da mulher. Passou horas a falar disto com o António, nunca o conheceu pessoalmente mas tornou-se sua confidente e, em conjunto, tentavam perceber o que se passava com a obstinada recusa da mulher dele em fazer sexo. A primeira pergunta que ela lhes fazia era se falavam do assunto um com o outro. Invariavelmente diziam que sim. António descrevia-lhe cenas de sedução, reveladoras de sensibilidade, enamoramento, bom gosto e até de algum requinte estético que a faziam estremecer e desejar aquele ser. Outras vezes dava-lhe conta de outras estratégias mais provocadoras, lúbricas, lascivas que a sacudiam, a mordiam de desejo. Não compreendia o que se passava. Uma vez perguntou-lhe se já lhe tinha passado pela cabeça que ela lhe podia ser infiel, se essa situação era absolutamente inverosímil. Para sua surpresa, ou talvez não, ele disse-lhe que até isso tinha averiguado.
Fez uma espécie de sexo virtual com ele, algumas vezes, depois de ter adquirido a webcam, ia-lhe mostrando algumas partes do seu corpo, mexia nos seus seios, de vez em quando mostrava a sua vagina e acariciava-a para ele ver. Ele insistia em que baptizassem os seus órgãos genitais, em que dessem nomes àquelas forças vivas dos seus desejos. Inventaram nicks: vagina passou a ser virgínia, a virgínia que teclava com o toino (lembrou-se daquela letra de uma canção da sua infância “…não vás ao mar, toino”). Tentava ocultar as partes do seu corpo que ela própria detestava ver: barriga, estômago, pernas, braços. António, corpo grande, entroncado, forte quase obeso, ficava completamente nu, aproximava o pénis da cam e abandonava-se languidamente à masturbação até se vir. Ela fazia questão em ver esse momento, sentia-se …bondosa quando a cam mostrava o écran salpicado por gotas de sémen. Numa noite, já bastante tarde, estavam os dois entretidos com os movimentos da virgínia e do toino, quando António ficou subitamente offline. Esperou algum tempo, pois não era raro “caírem”, ficavam sem rede, mas passado pouco tempo, retomavam a conversa. Naquela noite, passou bastante tempo e António não voltou.
Soube, mais tarde, que a mulher o tinha surpreendido e que a vida sexual deles ia de vento em popa, a partir daquele momento. Leitores e leitoras, talvez possam aprender alguma coisa com esta experiência.

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