Clínica de emagrecimento – regime “pão e água + sexo”. Nos jogos nocturnos a que os insones são dados, a ideia surgira, impusera-se varrendo as outras que por ali andavam e teimava em permanecer, em demorar-se, obrigando-a a ocupar-se dela e a reviver a situação que ensombrara o seu dia anterior e de que aquela ideia era uma manifestação. Tinha sido rejeitada e a palavra desconforme resumia as razões do queixoso. Essa palavra tinha sido escrita, sim, escrita, porque a rejeição fora-lhe anunciada no msn. E referia-se a desconformidade física, um eufemismo para evitar a palavra gorda, obesa, etc,. Sim, ela era intelectualmente estimulante, culta, divertida, um rosto bonito, mas…desconforme…
Foto de Fabien Azzopardi
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Impulso controlado diz:
Olá Malte
Malte diz:
tou a ficar negra, só se salvam os lábios... lol
Impulso controlado diz:
ja vi
Impulso controlado diz:
olha nao nos podermos encontrar
Malte diz:
está mal, quer dizer, está bem… que remédio...qual é a perspectiva?
Impulso controlado diz:
ando cheio de trabalho e gosto de ti mas
Malte diz:
mas..........?
Impulso controlado diz:
gostava de ficar por aqui no nosso relacionamento íntimo
Malte diz:
outra vez...que aconteceu? pelo menos explica-me
Impulso controlado diz:
risos...só tu, nao aconteceu nada desta vez
Malte diz:
pelo menos isso, dá-me uma explicação
Impulso controlado diz:
preciso de me aquietar
Malte diz:
e eu desinquieto-te? exijo alguma coisa?
Impulso controlado diz:
és queridíssima
Impulso controlado diz:
Não, nada … és lindérrima
Malte diz:
não pensas minimamente nas repercussões que isso tem em mim?
Impulso controlado diz:
mas como sou paranóico (risos) voltei à obsessão
Malte diz:
qual?
Impulso controlado diz:
por isso. quanto mais tarde mais forte é o nosso envolvimento, e eu não quero
Malte diz:
mas qual obsessão?
Impulso controlado diz:
a obsessão é ser desconforme, inusitado, mas podemos falar sempre
Malte diz:
eu sou desconforme?
Impulso controlado diz:
eu é que sou desconforme, eu é que reajo ao contrário do que se espera
Malte diz:
desculpa, não percebo bem,
Impulso controlado diz:
tu és forte e eu não sou nada por aí além
Malte diz:
concede-me alguns momentos...só para eu tentar entender alguma coisa, diz claramente o que se passa, por favor
Impulso controlado diz:
nao se passa nada Malte
Malte diz:
não tens mais vontade de estar comigo, é isso?
Impulso controlado diz:
é
Malte diz:
não te apeteço?
Impulso controlado diz:
tanta pergunta
Malte diz:
sou mesmo horrível...
Malte diz:
não percebo porque quando estás comigo não és capaz de dizer nada, porque arranjas este meio para falares do que sentes ou não sentes?
Impulso controlado diz:
porque é mais cómodo
Malte diz:
pessoalmente devias ter dito alguma coisa
Impulso controlado diz:
desculpa, isso é a tua opinião e não considero que seja desrespeito por ti usar este meio
Malte diz:
ok
Impulso controlado diz:
não foi ele que nos fez também conhecer? não foi bom? foi!
Malte diz:
divino, genial, ar , lua, sol ....tudo treta???
Impulso controlado diz:
não digas isso
Malte diz:
diz-me só mais uma coisa: o teu desagrado é físico, intelectual, sexual ou o quê?
Impulso controlado diz:
Malte, és uma pessoa singular
Impulso controlado diz:
intelectualmente muito interessante, culta
Impulso controlado diz:
desinibida
Impulso controlado diz:
emocionalmente relativamente estável
Impulso controlado diz:
com um rosto bonito
Impulso controlado diz:
o resto escuso-me de qualificar
Impulso controlado diz:
o sexo é bom mas..
Malte diz:
o resto é o físico, a gordura?
Impulso controlado diz:
é
Malte diz:
e sobre o sexo? não percebi
Impulso controlado diz:
é bom mas não tanto por seres gordinha, desculpa estar a falar-te assim mas foste tu que me pediste
Malte diz:
ok, percebo, só não entendo porque me dizias que era excelente, eram momentos do "outro mundo"?
Impulso controlado diz:
e eram
Impulso controlado diz:
mas não precisam de ser repetidos, não está implícito
Malte diz:
portanto, resumindo e concluindo e estás a ajudar-me, agradeço-te por isso, o físico sobrepõe-se a tudo e estraga o resto
Malte diz:
é assim?
Impulso controlado diz:
numa relação como a nossa conta muito, mas eu continuo a gostar de ti do mesmo modo que sempre gostei, sexo à parte
Malte diz:
sexo à parte porque inclui o contacto físico...é isso que te repugna?
Impulso controlado diz:
nada me repugna em ti
Impulso controlado diz:
só que quero parar, reencontrar-me
Malte diz:
ok,
Impulso controlado diz:
nem sei se vou voltar a querer procurar alguém
Impulso controlado diz:
beijos
Malte diz:
beijos, adeus, adieu, goodbye, aufwiedersehen
Impulso controlado diz:
em tantas línguas....
Impulso controlado diz:
vou trabalhar que tenho imenso para fazer
Impulso controlado diz:
vamo-nos vendo por aqui sempre que quiseres
Àquela hora da noite e num estado de sobreexcitação, a ideia parecia-lhe luminosa, tanto que se levantou da cama para a anotar – procedimento que imprudentemente nunca utilizara. Sabia que as ideias lhe fugiam muitas vezes, mas ao mesmo tempo pensava que produzia tantas ideias por minuto que não fazia mal que algumas se escapassem, não podia carregá-las todas e grande parte bem podia ir para o lixo, como a realidade lhe mostrava a toda a hora, umas vezes por defeito da realidade, outras vezes por defeito da ideia.
Mas aquela tinha pernas para andar e começou mesmo a andar muito depressa, teve de correr para apanhar o pensamento que lhe ia ditando ideiazinhas rapidamente anotadas como tópicos: sexo regular – diário ou tão frequente quanto a cliente o desejar; com o mesmo parceiro ou parceiros diferentes… e as que tinham marido, companheiro, namorado, amigo …que amavam e queriam continuar a amar … como se poderiam integrar num regime em que o sexo iria assumir um papel tão pregnante…? Claro, antevia já uma constelação de problemas, mais nebulosa do que constelação.
Começou a pensar nas suas hipotéticas clientes…as destinatárias desta ideia tão peregrina. O universo que a sua clínica poderia abranger era imenso, mas tinha de examinar isso depois, à luz do dia. Havia outras ideiazinhas que aguardavam registo e que tinha medo que lhe escapassem sem deixar rasto, outras ainda passavam por ela e senti-as massajarem-na como o faz uma estimulação eléctrica.
Regime alimentar “pão e água”, era drástico, não podia ser levado à letra, aliás nunca lhe deixariam abrir uma clínica assim, contrariava todas as regras de uma alimentação racional, teria toda a gente contra si, as autoridades sanitárias, etc.,. Mas pressentia que esse não seria o problema essencial, exigia investigação, aconselhamento científico, mas era resolúvel.
A sida. O problema da sida, o medo sempre presente quando se pensa em vários parceiros. Esse sim, era um bico de obra. Testes obrigatórios para o pessoal masculino, claro. Então e as lésbicas? Não tinham direito a ser magras…teria de haver pessoal feminino? Mas a questão essencial residia do outro lado, testes obrigatórios para as clientes? Era inevitável. E as que queriam continuar a fazer sexo com os maridos, companheiros, etc., testes obrigatórios também para estes? Nunca mais acabava.
Tinha de pensar mais, muito mais e muito melhor, no dia seguinte.
Já agora que estava levantada, valia a pena tomar nota dos requisitos a preencher para alguém poder ser qualificada como “desconforme”, aquela palavra tão desconfortável que o outro lhe dissera. Talvez os da banda gástrica servissem, obesidade, obesidade mórbida…tinha de voltar a ler o folheto de divulgação dessa intervenção cirúrgica. E o tempo de internamento? Sim, tinha de ser com internamento. Quem resistiria ao “pão e água” sem internamento. Um mês, dois meses…
Voltou para a cama às voltas com a questão do internamento. O “tratamento” não podia ser realizado, de modo nenhum, em regime ambulatório. A ideia de prisão começou a tomar forma.
Levantou-se para anotar “Clínica – prisão”. Celas. Regime prisional. Começou a sentir claustrofobia, precisava de ar. Um cigarro fumado na varanda às 4 da manhã aliviou um pouco a atmosfera concentracionária que a acompanhou até à cama.

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