Ao Mário que, em 1986, me ofereceu Os Cadernos de Malte Laurids Brigge de Rilke
“Era eu então um imitador e um louco para precisar de um terceiro para contar do destino de dois seres humanos que faziam a vida dura um ao outro? Com que facilidade fui cair na esparrela! E eu devia saber no entanto que este terceiro que atravessa todas as vidas e literaturas, este espectro de um terceiro que nunca existiu, não tem nenhum sentido, que é preciso negá-lo. (…). Dir-se-ia que todos até agora julgaram difícil de mais falar dos tais dois de que se trata; o terceiro, exactamente por ser tão irreal, é a parte fácil da tarefa, todos o souberam inventar.”
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge.*1
1 Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, ed. Oiro do Dia, Porto, 1983.
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Na Net
A história que Malte – curiosa coincidência com o nome da personagem de Rilke – conta no seu “Diário de bordo da navegação amorosa na net”, feita de pequenas histórias, furta-se à lei dos géneros, não por uma qualquer rebeldia inconsistente nem, crê-se, por incapacidade ou inabilidade de Malte, mas simplesmente porque foi sendo escrita quase em tempo real e a vida não é ficção, embora às vezes se pareça muito. Há episódios em que a vida obedeceu ao que a imaginação concebeu, há mesmo algumas situações cuja existência se deveu à sua premeditação, tal como há outras em que a vida excedeu largamente o que se podia ter antecipado mentalmente. Em qualquer dos casos o tempo que mediou entre o que se imaginou, o que se viveu e o que a escrita recolheu é muito curto e a esta quase simultaneidade de registos não é alheio o facto de grande parte da comunicação entre as personagens ser electrónica, decorrer na net.
Este “Diário de bordo” é, por isso, um texto datado, não podia ter sido escrito há vinte anos atrás, alimenta-se de factos, acontecimentos, “histórias de vida” que ocorreram na actualidade. Convoca saberes de antes e de agora, integra reflexões, comentários, críticas da autora mas também de outros autores, conhecidos e não (re)conhecidos, a propósito e às vezes a despropósito de situações sobre as quais lhe apeteceu escrever. Apresenta sugestões de leitura, propõe tópicos de reflexão, que algum leitor, mais cordato e menos preguiçoso do que a autora, queira prosseguir, indica links e sites cuja consulta se recomenda, enfim é um repositório de muitas e variadas coisas que acontecem na vida das pessoas de quem se contam histórias e na vida da pessoa que as conta.
Percebe-se então a dificuldade de classificar um texto deste tipo, de o subsumir nos géneros literários tradicionais. Não vem daí nenhum mal ao mundo, mas ainda assim permanece a vontade de nomear esta escrita, pois como se sabe dar um nome é meio caminho andado para se passar um atestado de existência ao objecto. “Diário de bordo” parece razoavelmente adequado, pois a maioria das histórias passa-se enquanto se navega na net.
A vida na net conforma-se às coordenadas espaciais e temporais desse meio de comunicação que é (quase) a mensagem – a net. O espaço alarga-se ou contrai-se em função dos caminhos que se percorrem, virtualmente infinito, mas só sentido como tal se se vaguear, numa “ciber- flânerie”, pelas avenidas, ruas, ruelas, veredas e outros troços mais esconsos de caminhos que só têm um fim aparente porque se pode resolver interromper o virtual, muitas vezes na ilusão de que se deve voltar ao real, melhor, ao empírico, àquilo que se impõe sem apelo nem agravo porque não se inventa, àquela vida que se encaminha inexoravelmente para a morte. De qualquer modo, o espaço do mundo físico não é um obstáculo que retarde a acção. Também no mundo da net há um tempo sem tempo porque há ubiquidade, porque se pode estar ao mesmo tempo em lugares e tempos distintos, há simultaneidade e há a transformação do correr do tempo em espaço.
Estar na net é ser impaciente, é querer-se ligar a tudo, querer pertencer a tudo o que pode ser ligado como condição de possibilidade de alguém se ver a si próprio em relação com tudo o resto, é estar em trânsito, em circulação permanente.
Talvez a grande diferença entre o empírico e o virtual não resida no cognitivo, ainda que este tenha forçosamente de se ressentir de uma imersão frequente e continuada no virtual, se tenha de configurar e reconfigurar, se tenha de disciplinar e exercer de um modo em que a metamorfose da realidade que todo o conhecimento é assuma formas novas, crie relações, antes invisíveis, entre as coisas, multiplique essas relações e origine outras teias cognitivas surpreendentes, desviantes de uma suposta matriz idealmente localizada na matéria e percepcionada empiricamente.
Talvez a grande diferença se situe aos níveis ético e estético. São noções como as de absoluto, incondicionado, eterno que se estilhaçam, são noções como as de bem e mal, liberdade e vontade que se despolarizam, são, no fundo, as antinomias a que a vida humana e os comportamentos que a exprimem, nas suas várias dimensões, pareciam poder ser reconduzidos, que se desfazem, que se diluem ou liquefazem. É a solidez do que se posicionava antinomicamente que o virtual esbate, o virtual curtocircuita o positivo e o negativo, não há nele densidade ou espessura suficiente para sustentar opostos teimosos, não tem um perímetro estabelecido que se deixe atravessar por eixos onde a teimosia possa medrar. O virtual é um magma a pedir novas morfologias e fisiologias, fugazes e insusceptíveis de serem cartografadas, o virtual resiste à topografia.
O virtual não se opõe à vida em carne viva, não deixa é que o sangue coagule, e isso faz toda a diferença aos níveis ético e estético. Porque o virtual não se consubstancia em nada que possa estabelecer-se em oposição ao que quer que seja, porque desconhece o que seja terra firme, porque navega continuamente, nele se multiplica o esforço para agarrar a vida, amplificando os riscos de viver ao impedir cristalizações precipitadas pelo medo de morrer, ao permitir a abertura de portas, sobretudo windows, sucessivas mas visíveis em simultaneidade que abrem brechas nas rotinas das vidas esquecidas de si mesmas, ao potenciar o inquérito às evidências das nossas representações e às certezas das juízos morais, ao virar do avesso a vidinha e mostrar a fractura exposta há muito, mas desde sempre invisível.
No ciberespaço, é mais estimável a palavra virtual, não há sentidos únicos, o sentido ganha carta de alforria e despede sem remissão a obrigatoriedade de précabimentar o espírito e o corpo nas rubricas que teimam em formatar a vida à maneira dos contabilistas. O virtual irrita os contabilistas, estes não gostam de ser surpreendidos por nada que possa escapar às malhas da sua catalogação, passam-lhe logo um atestado de inexistência. E isso faz toda a diferença, aos níveis estético e ético.
Na força do esforço de viver em ligação com tudo, sem se perder de vista a si próprio, aprendendo a olhar o outro e consentindo que o olhar do outro o reflicta, há a assumpção de uma vida que não se furta ao riscos de viver, numa ética que sem abandonar o empírico, não se abandona aos factos, mas também não se afunda na vertigem da navegação incessante, antes aspira ao gesto estético que dá visibilidade a esse esforço e o torna comunicável.



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