João fazia parte do primeiro grupo de homens com quem teclara e com quem fora para a cama. Ainda estava na fase de ir primeiro tomar café e depois logo se via… Essa fase foi de curta duração.Tinha ouvido dizer, tinha lido algures, mais do que uma vez, que se devia proceder assim, combinar encontros sempre em local público, de preferência em zonas que não permitissem identificar o sítio onde se morava nem fornecessem quaisquer indícios quanto a percursos habituais, como os de casa para o emprego, etc.. Os próprios gajos com quem teclava e cuja distância geográfica, inviabilizava a marcação de qualquer encontro, eram os primeiros a oferecer esse conselho quando se falava dos encontros com pessoas da net. Infringiu logo esse conselho, nem sequer se deu ao trabalho de pensar nisso nem nas razões da recomendação. Era demasiado comodista para se deslocar a sítios distantes, andar à procura de lugares desconhecidos e depois até podia ser uma chatice, teria de percorrer outra vez uma distância imensa para chegar a casa. Não, mais valia ser ali por perto, porque se o encontro fosse um insucesso rapidamente se poria em casa e se fosse bem sucedido e a pedir continuação também tinha para onde ir rapidamente.
O João era engenheiro e trabalhava por turnos, naquela semana saía às sete da manhã. Ele propôs-lhe tomarem o pequeno almoço juntos e essa hora matutina aguçou-lhe o apetite pelo encontro. Encontraram-se num café perto de sua casa, que frequentava regularmente e conhecia de vista quase toda a gente que lá ia. Foi fácil descobri-lo, não tanto pelos traços físicos com que se descrevera mas porque não era dali. Lembrou-lhe o auto-retrato do Bocage: magro, carão moreno, meão na altura, nariz alto no meio, e não pequeno, mas com olhos negros.
Foi um encontro cordial, simpático, e onde pairou alguma atracção física, os olhos dele demoravam-se nos seus, passavam pelos seus lábios e detinham-se nos seios, que se advinhavam grandes, rotundos e de mamilos proeminentes. A ela atraíra-a a expressão marota, entre o gabiru e o.pretendente a marialva, e a sua pele sobressaltou-se com alguma transformação química que ocorrera no seu organismo quando saíram do café e ele vestiu o sobretudo preto. Deu-se um upgrade inesperado, pelos vistos também nas suas células, o sobretudo dera-lhe distinção e altura também. Esta impressão claramente favorável sofreu um pequeno revés quando reparou nas botas afuniladas, à cowboy.
Combinaram encontrar-se nessa semana, ao princípio da tarde para tomar café e conversarem. Mais uma vez, um outro café da zona serviu para se encontrarem e, desta vez, foi apenas a antecâmara da sua casa. Quando surgiu a questão de para onde iriam a seguir e o que iriam fazer, ela propôs que fossem a sua casa, estava ali à mão e era também uma forma de a conhecer um pouco melhor ao conhecer o seu espaço. Não havia quaisquer indícios de que fossem nesse dia para a cama, nem ela sentia qualquer excitação particular nem se apercebia de que se passasse algo de diferente com ele. Sentaram-se no sofá da sala e olharam-se demoradamente e esse olhar fê-los aproximar o rosto e beijarem-se. João beijava bem, beijaram-se repetidas vezes daquele modo que às vezes acontece em que os lábios parecem relutantes em se desprenderem, em que as bocas se procuram com sofreguidão, avessas a intervalos. Neste enleio foram para a cama e os beijos continuavam ininterruptamente, determinando os movimentos e posições dos seus corpos. João confessou-lhe que não vinha preparado e acrescentou que não imaginava que iam ter sexo nesse dia. Foi o suficiente para ela arrepiar caminho, ia-lhe dizer que ela estava preparada, que tinha preservativos, mas aquela confidência fê-la pensar que ele a podia considerar demasiado oferecida, que o convite para irem para sua casa não tinha sido tão inocente como, por acaso, até tinha sido. Mimaram-se mutuamente, e ela fez-lhe um broche com arte e engenho, aptidão que sabia ter mas que há muito tempo não exercitava. Sentiu o prazer dele e percebeu que não tinha perdido essa habilidade quando ele se veio. A penetração ficaria para depois, um depois certamente muito próximo porque a vontade de ambos em se possuírem era tão intensa que quase doía.
Encontraram-se regularmente durante dois meses e de todas as vezes era bom. Este relacionamento extravasou o perímetro da cama, foram algumas vezes jantar fora, ela apresentou-o a duas amigas suas e tudo parecia indicar que esta situação prosseguiria tranquilamente, com visitas regulares. Tinha ali sexo garantido pelo menos uma vez por semana e achava que até não queria mais, queria era mais garantias deste tipo com outros homens.
Sentia por João a ternura e o afecto suficientes para que o sexo tivesse uma moldura emocional, mas não mais do que isso. Sabia que ele, divorciado e já avô, pois tivera uma filha aos quinze ou dezasseis anos, tinha uma namorada à séria, até lhe mostrara a fotografia dela no seu telemóvel e de quem ele às vezes falava sem grande fervor, verdade se diga. As visitas dele tornaram-se mais espaçadas e a justificação que ele lhe dava, sem que ela a pedisse, até porque andava ocupada com outros affairs, residia sempre no trabalho. Passado algum tempo, adiantou-lhe uma outra razão que lhe fez perceber a crescente seriedade do compromisso com a tal namorada, iam experimentar viver juntos. Embora esta revelação lhe tivesse sido feita pessoalmente, num tom ligeiro e descomprometido no intervalo de uma das suas sessões de sexo, enquanto os corpos recobram energias e o espírito fica propenso a confidências, sentiu ameaçada a regularidade da sua actividade sexual com ele. Não se lembrava se tinha havido ou não mais algum encontro antes do grande interregno que se seguiu, não só traduzido na ausência pessoal dele como na ausência de qualquer outro tipo de contacto, nomeadamente, através do msn. Até parecia que ele não ia trabalhar porque nunca estava online. Enviou-lhe um mail, que ficou sem resposta, a perguntar se ele estava bem, e por que não dava quaisquer sinais de vida. Passado bastante tempo encontrou-o outra vez no msn e não resistiu a chamá-lo e então teve a grande revelação. À mistura com muitas desculpas por não a ter contactado antes, disse-lhe que acabara de ser pai, que a namorada tivera um filho seu e que se sentia mal com ele próprio por não ter sido mais franco com ela. Acrescentou ainda que quando as coisas acalmassem queria estar com ela, que tinha saudades de fazer amor com ela.
Ela já tinha dado por encerrado este caso, não tanto pela história do filho mas pela ausência de contacto durante tanto tempo e não voltou a pensar nele. Nunca o excluiu do msn, mas era como se o tivesse feito, ele aparecia online e ela não o chamava e reciprocamente.
Poltrona de Gaetano Pesce, 1969



Sem comentários:
Enviar um comentário