sequelas

sexta-feira, 7 de maio de 2010

É PREFERÍVEL SER TROCADA OU ABANDONADA?



Que exagero! Não, o seu corpo não era assim;  talvez mais 25Kg do que a da esquerda, menos 70Kg do que a da direita?.




















Foto de Sara SaudKova

Trocada por outra? Perder na competição. Desinteressou-se de mim? Sentimento de abandono. Em ambos os casos perdia. A vida como competição era uma representação que rejeitava imediatamente, embora soubesse que era exactamente isso que a vida era. Mas não se sentia a competir, sabia-se a competir mas recusava-se a viver nesses termos. O medo de perder era um medo difícil de enfrentar, não queria sentir isso, não queria entrar na competição amorosa. Nesta não tinha armas à altura, a fraca auto estima a quem ela dava ouvidos dizia-lhe alto e bom som que não valia a pena jogar…porque ia perder. Era uma derrotada nata. Como podia vencer numa luta “corpo a corpo” carregando às costas uma obesidade quase mórbida? São os corpos os protagonistas deste combate, as caras quase não se vêm, e a excelência intelectual, muito menos. A silhueta apetecível ao olhar, que convoca o desejo do outro, a graciosidade do movimento de traçar a perna, a firmeza dos seios que se advinha quando não há estômago à vista, a flexibilidade do torso que as clavículas visíveis anunciam, eram armas de que ela não dispunha. Como podia competir sem elas?


Um amigo tinha-lhe dito que a maioria dos homens preferia gordinhas na cama, mas acrescentou: magrinhas na rua. Mas ela não era gordinha, era uma baleia, era esta a imagem que tinha do seu corpo e com esta imagem não ia a lado nenhum, nem valia a pena tentar, não valia a pena entrar na competição…e quando entrava, não por vontade própria, mas porque alguém míope a “escolhia” não podia evitar o sentimento de gratidão. Claro que percebia que o seu olhar perscrutante, o seu sorriso de menina, a doçura dos seus gestos, a fluência e humor do seu discurso, a sua cultura, o modo aberto como discutia qualquer tema, o pendor libertino que perpassava nas suas palavras, a singularidade de alguns dos seus comportamentos do dia a dia e hábitos inabituais, constituíam motivos de interesse, tornavam-na uma mulher interessante. As conversas nos chats da net provavam isso, até a utilização de webcam não a prejudicava, desde que não mostrasse o corpo. Despertava interesse e sabia tornar-se interessante. Mas isso não chegava para vencer na competição “corpo a corpo”, quando entrava, quando era obrigada a entrar, sabia que ia perder. Esta assumpção à partida da derrota evitava danos maiores, permitia-lhe mesmo enfrentar com alguma serenidade o facto de ser trocada por outra, chegando até a reconhecer a justeza dessa decisão. Já esperava que isso acontecesse, por isso não assacava culpas ao outro, aparentemente perdoava facilmente. Não lhe custava assim tanto ser trocada por outra, se a outra fosse melhor do que ela fisicamente, o que obviamente não era difícil, era até muito fácil…bastava pensar nas pregas e dobras de gordura que enfeitavam o seu corpo.

Custava-lhe muito mais ser abandonada. Aqui não era trocada por alguém em particular, com quem se podia confrontar e reconhecer facilmente que o outro tinha razão, a outra era melhor do que ela; aqui, era trocada por tudo em geral e isso fazia-a sofrer mais, muito mais. Ser abandonada equivalia a sentir que para o outro tudo era mais interessante do que ela, que a existência, com as suas rotinas, era mais suportável com a sua ausência.

Precisava de pensar mais na diferença entre estas duas situações, a sua “desconformidade física”, como o outro escrevera, seria suficiente para explicar por que o abandono lhe era mais penoso? Ao escrever isto lembrou-se da série “O sexo e a cidade”, pareceu-lhe haver alguma semelhança entre esta sua reflexão e os artigos da Carrie Bradshaw, se bem que, e isto era digno de nota numa sociedade em que a obesidade era uma calamidade, os problemas das gordas nunca tivessem constituído tema de reflexão nesta série, pelo menos nos episódios que tinha visto. Valeria a pena comprar o DVD desta série e passar em revista os temas abordados?

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