sequelas

segunda-feira, 10 de maio de 2010

HISTÓRIA EXEMPLAR DE UM CRETINO NO AEIOU









O aeiou era um dos chats mais abertos e, às vezes, escabrosos, em termos de linguagem, que ela conhecia…porque completamente livre. Não havia registos, entrava-se e saía-se das várias salas quantas vezes se quisesse, podia mudar-se de nick constantemente; entrar na mesma sala várias vezes com um nick sempre diferente, o que proporcionava experiências singulares. Uma vez entrou na sala dos 40-50 ou dos 50+, não se lembrava já, com um nick vulgaríssimo e foi convidada, sim neste caso é acertado utilizar a palavra convidada, a teclar por um “Paulo73” que escrevia bem, sem erros ortográficos e, ainda por cima, de uma forma aparentemente, como se veio a revelar, gongórica. Teclava como um “senhor”, sem usar palavrões, com palavras caras e com uma abordagem elegante. Depois de uma apresentação muito formal e, sobretudo, muito pomposa , o “senhor” começou a falar das suas emoções, da sua excelência afectiva, sim porque ele não era um ser carente de afecto, de amor, ele tinha isso tudo em excesso, só carecia de alguém a quem o dar, mas alguém que o merecesse. Ele nunca fazia sexo, só amor, afirmava constantemente. Entretanto, ia-lhe perguntando se ela gostava de fazer amor e se tinha feito há pouco tempo e se não, se já passara muito tempo desde a última vez, se precisava de carinhos, etc,. E tudo isto numa linguagem gongórica, afectada, cheia de ornatos e enfeites para disfarçar o seu interesse principal: sexo, como se falar de sexo fosse a última coisa que se poderia esperar dele. O enfado dela era cada vez maior, traduzido em frases cada vez mais curtas e anódinas ou em interjeições, que dão sempre muito jeito quando não se quer ou não se tem nada para dizer. Ele percebeu esse enfado, como aliás outras olhadoras que acompanhavam a conversa e, a certa altura, uma não se conteve e manifestou ao Paulo o seu deslumbramento perante uma escrita tão bonita, tão sensível, tão sábia e, ao mesmo tempo, a surpresa que lhe causava a mulher com quem ele estava a teclar não parecer sensível a tanta beleza, a tanta subtileza. O Paulo, muito cavalheiro, agradeceu à olhadora, mas fez-lhe sentir que estava a intrometer-se numa conversa privada. Talvez estimulado por este elogio e, às tantas surpreendido e irritado por não ter sido ainda devidamente apreciado por aquela com quem teclava, perguntou-lhe se ela gostava da forma como ele escrevia e, aí caiu o carmo e a trindade, ela respondeu-lhe que sim… mas que achava a sua escrita algo pomposa…foi o mais caridosa que conseguiu ser quando já estava a morrer de tédio. O Paulo foi aos arames, trepou pelas paredes, ao mesmo tempo que retorquia, dizendo que talvez ela não soubesse apreciar uma linguagem mais requintada, mais elaborada, e que era uma pena ela não mostrar receptividade a uma escrita, e a um ser, deduzia-se, tão excepcional. Tresandava a raiva contida, cujo odor é muito mais intenso do que a raiva explodida, porque o eflúvio é obrigado a confinar-se a um núcleo em efervescência que solta vapores sulfurosos incessantemente, em vez de se pulverizarem e desaparecerem rapidamente como acontece quando a raiva explode. Despediram-se polidamente e ela saiu da sala.

Voltou a entrar com outro nick, tinha curiosidade, queria olhar a conversa que se iria desenrolar entre o Paulo e a olhadora que há pouco se intrometera na conversa deles. Tinha a certeza de que ela iria aproveitar a oportunidade. E assim foi.

A olhadora desfazia-se em elogios, gabava a elegância, sensibilidade, a sofisticação e…o decoro que perpassavam na escrita dele, confessava a sua comoção e o Paulo só falava dela, da outra que tinha saído e fazia, agora sim, explodir a sua raiva. Dizia que o que a outra queria era só sexo, que se tinha apercebido disso logo no início, que ela até tinha insinuado um convite nesse sentido. Entretanto ela estava a teclar com um outro qualquer, embora se recordasse daquele nick – rapaz_ moreno - nesta sala, aquando da conversa com o Paulo. Parecia-lhe ser um rapaz com algum discernimento e que não dava erros ortográficos, isto é, alguém com quem não era desinteressante conversar.

A conversa entre o Paulo e a olhadora continuava a ser sobre ela, apesar das tentativas goradas da olhadora para chamar a atenção sobre si, a tal ponto que a olhadora disse ao Paulo que a outra tinha mesmo “mexido” com ele, e que ele devia esquecer pois a outra era uma desnaturada, uma criatura sem sensibilidade, não merecia tanta atenção, etc., e fazia-lhe sentir que ela estava ali, disponível para ser a receptora ávida da beleza, finura, inteligência da escrita dele. O Paulo parecia nem ler o que ela escrevia, continuava a destilar raiva, ódio e a inventar convites e apelos sexuais da outra que contrastavam com a sobriedade e delicadeza da sua atitude.

A certo ponto, ela não resistiu e chamou a atenção do nick com quem teclava para o facto insólito de o outro par estar só a falar de alguém que tinha saído da sala e da conversa que devia ter havido. Claro que ao dizer isto, estava a expor-se, corria o risco de ser imediatamente identificada como aquela que saíra da sala, ao mesmo tempo que denunciava pouco interesse pela pessoa com quem agora teclava e também de ser uma “cusca”. Em vez de se interessar pelo seu interlocutor, olhava as conversas dos outros. O “rapaz_moreno” fez-lhe sentir isso, o que confirmava a percepção que tinha tido acerca do discernimento dele. Lembrou-lhe que a mais valia desta forma de comunicação e dos chats era a liberdade, poder falar-se do que se quisesse. Este remoque não lhe agradou muito, continuava irritada com o que o Paulo dizia dela, com o que estava a inventar sobre ela. Como previra foi imediatamente identificada pelo Paulo e constituída em alvo directo de vitupérios. O “rapaz_moreno”, cheio de bom senso, disse-lhe para ignorar. Ela não interpelou o Paulo, dirigiu-se à interlocutora do Paulo, a olhadora que também se tinha imiscuído na sua conversa e sem floreados disse-lhe o que julgava esconder-se por detrás da escrita mortificada do Paulo. “ Um ser aparentemente cheio de si, incapaz de aceitar uma crítica à sua escrita e, consequentemente, à sua pessoa. As palavras de que ele se servia eram recolhidas de um leque antecipadamente desdobrado, onde pontificavam ternura, carinho, meiguice, extâse, amor e outras delicatessen que, obedientemente, se sucediam e cruzavam num discurso que percorria o pauzinho do leque que, como toda a gente sabe, estreita à medida que se aproxima do pé do leque, isto é, da mão que o segura. Começam por ter um sentido abrangente, quase universal onde o outro se integra facilmente porque se reconhece nessas palavras, e rapidamente se despem de outros significados, deixando a nu a intenção original : sexo, sexo e mais sexo. O que não tem nada de mal, muito pelo contrário.

Parecia que todos os nicks existentes nessa sala tinham parado de teclar, só apareciam no ecran as palavras dela e as palavras do “rapaz_moreno” a dizer-lhe para se acalmar. Este também ia levar, ela estava calma, já não falava para ninguém em particular, falava para todos, e estava a dar-lhe um imenso gozo pôr a nu criaturas como o Paulo, armadas em púdicas, repletas de lugares comuns, ocultas por detrás de camadas sucessivas de máscaras barrocas pirosas, a fazerem lembrar as imitações que por aí andam das magníficas máscaras de Veneza. O Paulo era uma pileca travestido em cavaleiro andante, armado de pompa e circunstância para mascarar a sua mais que certa impotência, os galões e outra passemanaria com que revestia o seu discurso denunciavam as festinhas que ia fazendo ao seu pénis mole, encarquilhado, donde de vez em quando saía um estertorzinho quando o seu dono julgava ter escrito uma coisa deveras interessante.

Aquilo que se é, mais tarde ou mais cedo, assoma na escrita e a escrita destas criaturas é uma escrita mortificada, pestilenta, que deixa um rasto de sémen mumificado.

Desejou boa sorte à olhadora, actual interlocutora do Paulo73 e dirigiu-se ao “rapaz_moreno”, pedindo-lhe desculpa pelo facto de o ter “usado” para a partir do seu “teclanço” ter soltado o seu libelo.

3 comentários:

  1. Comecei ao acaso, a ler este blog e, dei por mim
    a entender que esta é uma escrita especial, de alguem que não só conta histórias da net, mas que escreve muito bem, além de demonstar uma cultura muito acima do "comum dos mortais".
    Vou acompanhar o que se segue.

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  2. Obrigada, espero não a desapontar e, sobretudo, espero que se divirta.

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  3. Descreve uma situação frequente nos chats de uma forma muito divertida e inteligente. Mr. Burns, desta vez, não apanhou um tiro mas foi bem sacudido !!!! eheheh

    ...fico à espera de mais...

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