SEXCONTAS - QUEM ERA AFONSO, O "IMPULSO CONTROLADO"?
1.1 A DANÇA DAS LETRAS E O RALI DAS FORMIGAS
Começara a teclar com Afonso em 21 de Março. Quem era Afonso?

Quando teclara a primeira vez com Afonso ficara surpreendida com a forma como ele lidava com as palavras, parecia que pegava nelas ao acaso, dava-lhes um piparote e elas vinham cair no seu écran, alinhadas em frases divertidas, cheias de humor. A alegria que jorrava da sua escrita advinha de uma espontaneidade que não parecia precisar do entendimento para nada, a sua escrita era uma dança de palavras que ora saltitavam, ora rebolavam, ora executavam mortais de cortar a respiração. Ele não se preocupava com a inteligibilidade do discurso, as palavras eram figuras que ele ora prendia, ora soltava, imprimindo-lhes ritmos tão variados e desencontrados que elas se comportavam como marionetas. Ele puxava os cordelinhos de propósito para as levantar de sopetão, fazendo com que elas às vezes caíssem umas em cim das outras sem lei nem roque, outras vezes deixava-as arrastar-se sem dó nem piedade. Sentia-se presa ao écran a tentar advinhar o movimento seguinte, não para entender o que quer que fosse, depressa tinha desistido de fazer funcionar a razão, mas para assistir ao espectáculo que se desenrolava na sua frente. Como seria a criatura que, do outro lado do écran, se divertia com as palavras? Que esperaria ele de si ? Que chamasse a atenção para o nonsense do discurso?Em determinada altura pensara se aquela dança, onde não se vislumbrava a mínima ordem nem permitia antecipar o passo seguinte, não mascarava uma obscuridade não pretendida, mas fruto de alguma falta de engenho e arte na perseguição de um sentido. Afinal ele estava a escrever para ela ou para seu comprazimento pessoal?
“Cativa-me, disse a raposa”. Era isso que estava a contecer, ela estava a ser envolta por laços que a prendiam ao écran, estaria a ser laçada?
No universo dos chats, todos eram parecidos uns com os outros e ela, como a raposa do Saint-Exupéry, aborrecia-se um pouco, mas este nick estava a cativá-la, arrastava-a na sua embriaguez verbal. E, de facto, ao longo dos meses, os passos da sua escrita eram diferentes de todos os outros, reconhecia-os imediatamente e precisava deles para querer sair da toca como a raposa.
Para desconcerto, desconcerto e meio, foi assim que ela reagiu. Arrastada para o meio do baile, também ela se pôs a dançar com as palavras, num ritmo cada vez mais estonteante, elas rodopiavam a uma velocidade de que só as formas, soltas de conteúdo, são capazes. O sentido tinha hibernado ou tinha-se volatilizado, só havia espaço e tempo para as formas. O acme deu-se quando Afonso escreveu : “…fazer ralis com ideias de formigas.” Não lhe ocorreu nada que pudesse ultrapassar o nonsense desta frase.
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| ...aí vão as formigas...começou o rali!!! |
Nesses primeiros tempos, sempre que teclava com Afonso sentia-se a versejar, não se conhecia como poeta, mas sentia-se poeta…que a perdoassem os poetas. Ao longo da sua vida nunca ensaiara a mais pequena tentativa de escrever poesia, julgava-se fadada para a prosa e a esta tinha servido sempre com propriedade, elegância e até alguma criatividade, assim pensava. Procurava a inteligibilidade, mas não se considerava na escrita uma contempladora das palavras, nem sempre vazava o sentido nas formas habituais de dizer, de exprimir uma ideia. Sempre lhe dera gozo converter as palavras em objecto de inquérito, andar à procura da palavra ou de um modo de dizer o que se quer dizer num equilíbrio tenso entre a propriedade e a transgressão.
A primeira grande conversa com o Afonso, no msn, tinha-a exaltado, sentia-se febrilmente lúcida, não sabia se por mérito dele ou se pela ultrapassagem de si própria na vertigem de uma escrita que nunca ousara, porque nunca ousara mandar o sentido às urtigas como tinha feito nessa noite.
Quem era Afonso? Ficara sem saber nada da vida pessoal deste, nem ele ficara a saber alguma coisa da sua.







Rali das formigas... é, de facto, um cúmulo de nonsense. A ilustração do post está muito bem conseguida, mas é, sobretudo, a sua escrita que cativa, a sua arte de dizer, isto é, de encontrar a palavra "justa".
ResponderEliminara morangoska